Folha de S. Paulo
O protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente
A postura mais cristã que se pode adotar é a
de um liberal básico, um defensor da igualdade e da liberdade, tanto na
religião quanto no resto da vida
Ao protestantismo também pode ser altamente
conservador, como são muitos evangélicos atualmente religião e a política se
alinham de maneiras inesperadas.
O catolicismo, por exemplo, é frequentemente conservador —como ocorreu na Irlanda desde a época do primeiro cardeal irlandês, Paul Cullen (1803–1878), e como já era na Espanha, tornando-se ainda mais durante o regime do general Franco. Mas nem sempre é assim: basta olhar para os teólogos da libertação na América Latina ou, de maneira mais geral, para os cristãos que levam a sério a resposta de Jesus ao jovem rico que perguntou como poderia alcançar o Reino dos Céus: venda todos os seus bens, dê o dinheiro aos pobres e siga-me.
O protestantismo, da mesma forma, pode ser
altamente conservador, como são muitos evangélicos hoje em dia (nem sempre
foram assim). Mas o protestantismo também tem seus progressistas, como o
próprio nome sugere. A minoria da Reforma Radical, após 1517, refutou
completamente a hierarquia eclesiástica, e não apenas o Papa de Roma. O exemplo
da governança eclesiástica horizontal nas igrejas radicais foi fundamental para
a nova Europa. Escolher o próprio ministro —ou não ter nenhum— sugeria a
possibilidade de livrar-se de senhores indesejados também em outras áreas.
Martinho Lutero defendeu o "sacerdócio
universal dos crentes". Essa doutrina inspirou a Guerra dos Camponeses
alemães (1524–1526), a maior revolta do gênero na Europa antes da Revolução
Francesa. Lutero ficou horrorizado e incentivou a aristocracia a esmagá-la, o
que de fato aconteceu. Sua Reforma foi, pelo contrário, conservadora e
"magisterial": luteranos e anglicanos mantiveram seus padres, bispos
e senhores. Afinal, todos deveriam ter um magistratus, não é?
Os radicais que disseram "não"
foram os anabatistas, menonitas, congregacionistas e, mais tarde, os quakers e,
por fim, os unitaristas. Nada de bispos. Esses radicalismos niveladores na
governança da igreja poderiam ter sido esmagados por uma Contrarreforma ainda
mais bem-sucedida, ou pela aplicação ainda mais implacável das leis que
sustentavam as igrejas magisteriais, administradas e financiadas pelos reis.
Mas o movimento sobreviveu.
O sucesso precário dos protestantes radicais
—e tendências semelhantes até mesmo entre os católicos, como o jansenismo de
Pascal— permitiu que pessoas comuns assumissem, pela primeira vez, o controle
rigoroso de suas vidas religiosas e, por analogia, de suas vidas econômicas.
Observe o pequeno grupo de quakers ingleses, que teve um êxito surpreendente na
vida econômica —nos seguros da Lloyds, nos bancos Barclays e Lloyds e nas
empresas de chocolates Cadbury e Rowntree. Os quakers se opunham tão
radicalmente a qualquer tipo de hierarquia que os homens não tiravam os chapéus
e as mulheres não faziam reverências, nem mesmo diante do rei da Inglaterra.
Eram igualitários radicais, desejosos de "responder ao testemunho de Deus
em cada homem" —como declarou em 1672 George Fox, o fundador do
movimento—, "sejam eles pagãos... ou... professem a Cristo".
No entanto, a implicação de tal atitude não é
o socialismo de Estado. Muitos pensam que seja, mas não é o caso —nem no
catolicismo romano nem no protestantismo. Como alguém que é, ao mesmo tempo,
devota cristã e liberal clássica, parece-me —sem surpresa— que a postura mais
cristã que se pode adotar é a de um liberal básico, um defensor da igualdade de
liberdade, tanto na religião quanto no resto da vida.
*Economista, é professora emérita de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago

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