quarta-feira, 1 de julho de 2026

As duas faces do bolsonarismo, por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Michelle disputa o controle da autenticidade do movimento

Os filhos flexibilizam alianças para ampliar chances eleitorais

Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.

No Brasil, ambos avançaram muito. O bolsonarismo não esperou que jornalistas ou intelectuais lhe concedessem um certificado de normalidade. Afinal, é uma escolha reiterada de quase metade do eleitorado, tem bancadas, governos, prefeituras, uma grande estrutura partidária, redes religiosas e apoio empresarial e do agronegócio. Mesmo com Jair Bolsonaro preso, doente e impedido de concorrer, nenhuma candidatura de direita parece capaz de disputar seriamente a Presidência sem conquistar sua base.

A antiga margem não foi simplesmente acolhida pelo centro: tornou-se o coração eleitoral da direita.

O vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs seu conflito com Flávio e os irmãos mostra outro aspecto desse processo. A literatura sobre a extrema direita costuma perguntar como movimentos radicais são normalizados e incorporados à política convencional. O episódio desta semana sugere uma pergunta adicional: o que acontece quando uma extrema direita já normalizada disputa internamente os termos de sua própria convencionalização?

Diante da aliança do PL cearense com Ciro Gomes, Michelle não apresentou sua objeção apenas como divergência estratégica. Falou em "ordem do líder", "palavra de Jair", "fidelidade", "lealdade", "convicção" e "traição". Recordou os ataques de Ciro a Bolsonaro, aos filhos e às mulheres da família. O problema, segundo a narrativa dela, não era apenas escolher um candidato, mas premiar um antigo inimigo, descartar aliados leais e desobedecer à vontade do líder em nome da conveniência eleitoral.

Claro que se trata de disputa por poder. Michelle se ressente de que ela e o segmento conservador, religioso e identitário que organiza dentro do PL tenham sido acintosamente desconsiderados na campanha de Flávio. Ao repetir "meu marido e eu", não reivindica apenas proximidade com Jair, mas sugere uma unidade de vontade entre ambos. Com isso, apresenta-se como intérprete privilegiada da fonte de autoridade do movimento e como encarnação do verdadeiro bolsonarismo.

Flávio tem o sobrenome, a indicação paterna e a candidatura; os irmãos, a linhagem; o PL, a máquina partidária. Já Michelle reivindica para si o acesso à vontade verdadeira do líder e o poder de decidir o que ainda pode ser considerado autenticamente bolsonarista.

Michelle não está fora da política partidária nem representa simplesmente valores contra interesses. Preside o PL Mulher, implantou diretórios em todos os estados, percorre o país, forma lideranças e patrocina candidaturas. A sua retórica aceita partidos, alianças e cálculos eleitorais, mas quer subordiná-los a valores, à recompensa dos fiéis, às fronteiras morais do movimento e ao espaço de sua própria corrente.

O conflito opõe duas narrativas sobre como institucionalizar o bolsonarismo. A adaptativa, representada pelos filhos e pelo PL cearense, concentra o antagonismo no PT e transforma antigos adversários em aliados quando isso aumenta as chances de vitória. A identitária, reivindicada por Michelle, também disputa candidaturas, alianças e poder, mas exige fidelidade ao líder, memória dos agravos e preservação dos valores do movimento.

Não se trata de carisma contra organização nem de princípios contra oportunismo. Ambos usam o partido e disputam a herança eleitoral de Bolsonaro. Michelle apresenta sua exclusão da campanha de Flávio como parte de uma luta pela identidade do movimento e, ao se declarar a voz do líder e a guardiã dos valores, defende seu lugar na distribuição

de poder. Os filhos procuram converter a herança paterna numa operação eleitoral mais flexível, sem romper com o antagonismo e a dependência carismática que mantêm unida a base.

A briga desta semana não revela apenas uma família dividida pela sucessão. Revela a visão de Michelle sobre como assimilar o bolsonarismo ao sistema partidário e negociar sua normalização.

*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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