Folha de S. Paulo
Michelle disputa o controle da autenticidade
do movimento
Os filhos flexibilizam alianças para ampliar
chances eleitorais
Há alguns anos, parte do debate público se
preocupava com a "normalização" do bolsonarismo.
A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita
sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já
integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada
de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais
consequências.
Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.
No Brasil, ambos avançaram muito. O
bolsonarismo não esperou que jornalistas ou intelectuais lhe concedessem um
certificado de normalidade. Afinal, é uma escolha reiterada de quase metade do
eleitorado, tem bancadas, governos, prefeituras, uma grande estrutura
partidária, redes religiosas e apoio empresarial e do agronegócio.
Mesmo com Jair
Bolsonaro preso, doente e impedido de concorrer, nenhuma candidatura
de direita parece capaz de disputar seriamente a Presidência sem conquistar sua
base.
A antiga margem não foi simplesmente acolhida
pelo centro: tornou-se o coração eleitoral da direita.
O vídeo em que Michelle
Bolsonaro expôs seu conflito com Flávio e os irmãos mostra outro
aspecto desse processo. A literatura sobre a extrema direita costuma perguntar
como movimentos radicais são normalizados e incorporados à política
convencional. O episódio desta semana sugere uma pergunta adicional: o que
acontece quando uma extrema direita já normalizada disputa internamente os
termos de sua própria convencionalização?
Diante da aliança do PL cearense
com Ciro
Gomes, Michelle não apresentou sua objeção apenas como divergência
estratégica. Falou em "ordem do líder", "palavra de Jair",
"fidelidade", "lealdade", "convicção" e
"traição". Recordou os ataques de Ciro a Bolsonaro, aos filhos e às
mulheres da família. O problema, segundo a narrativa dela, não era apenas
escolher um candidato, mas premiar um antigo inimigo, descartar aliados leais e
desobedecer à vontade do líder em nome da conveniência eleitoral.
Claro que se trata de disputa por poder.
Michelle se ressente de que ela e o segmento conservador, religioso e
identitário que organiza dentro do PL tenham sido acintosamente desconsiderados
na campanha de Flávio. Ao repetir "meu marido e eu", não reivindica
apenas proximidade com Jair, mas sugere uma unidade de vontade entre ambos. Com
isso, apresenta-se como intérprete privilegiada da fonte de autoridade do
movimento e como encarnação do verdadeiro bolsonarismo.
Flávio tem o sobrenome, a indicação paterna e
a candidatura; os irmãos, a linhagem; o PL, a máquina partidária. Já Michelle
reivindica para si o acesso à vontade verdadeira do líder e o poder de decidir
o que ainda pode ser considerado autenticamente bolsonarista.
Michelle não está fora da política partidária
nem representa simplesmente valores contra interesses. Preside o PL Mulher,
implantou diretórios em todos os estados, percorre o país, forma lideranças e
patrocina candidaturas. A sua retórica aceita partidos, alianças e cálculos
eleitorais, mas quer subordiná-los a valores, à recompensa dos fiéis, às
fronteiras morais do movimento e ao espaço de sua própria corrente.
O conflito opõe duas narrativas sobre como
institucionalizar o bolsonarismo. A adaptativa, representada pelos filhos e
pelo PL cearense, concentra o antagonismo no PT e transforma antigos
adversários em aliados quando isso aumenta as chances de vitória. A
identitária, reivindicada por Michelle, também disputa candidaturas, alianças e
poder, mas exige fidelidade ao líder, memória dos agravos e preservação dos
valores do movimento.
Não se trata de carisma contra organização
nem de princípios contra oportunismo. Ambos usam o partido e disputam a herança
eleitoral de Bolsonaro. Michelle apresenta sua exclusão da campanha de Flávio
como parte de uma luta pela identidade do movimento e, ao se declarar a voz do
líder e a guardiã dos valores, defende seu lugar na distribuição
de poder. Os filhos procuram converter a
herança paterna numa operação eleitoral mais flexível, sem romper com o
antagonismo e a dependência carismática que mantêm unida a base.
A briga desta semana não revela apenas uma
família dividida pela sucessão. Revela a visão de Michelle sobre como assimilar
o bolsonarismo ao sistema partidário e negociar sua normalização.
*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

Nenhum comentário:
Postar um comentário