Folha de S. Paulo
Candidato irá se comprometer publicamente a
manter o Brasil na organização ou a saída do órgão faz parte dos seus planos de
governo?
Desfiliação tornou-se uma bandeira da direita
nas Américas, implementada pelo por Trump e seu colega argentino
A desfiliação da OMS (Organização Mundial da
Saúde) tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo
presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.
A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.
Dada a proclamada proximidade dos Bolsonaros
com Trump e Milei, é mais do que natural que na campanha eleitoral se queira
saber se o candidato Flávio Bolsonaro irá se comprometer publicamente a manter
o Brasil na OMS ou se a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo.
No caso da OMS, é bom rever o passado
recente. Trump determinou a saída da organização em janeiro de 2025, no dia de
sua posse para o segundo mandato. A retirada tornou-se efetiva em janeiro de
2026.
A Argentina seguiu o mesmo caminho. Javier
Milei divulgou a saída 16 dias depois do anúncio do americano, repetindo as
críticas feitas pelo republicano.
É legítimo criticar a OMS e defender
reformas. O que não faz sentido é tratar uma eventual saída do Brasil como um
tema secundário. A organização coordena a rede internacional de vigilância de
epidemias, que permite identificar surtos, compartilhar informações e coordenar
respostas a emergências sanitárias.
O Brasil tem uma responsabilidade especial
nesse debate. Foi um dos países que ajudaram a idealizar a organização, que
teve o brasileiro Marcolino Candau como o diretor-geral mais longevo de sua
história. O país também construiu uma tradição de liderança em saúde pública
reconhecida internacionalmente.
É um tema de extrema relevância para a
população —e, assim como o financiamento do SUS e tantos outros, está fora do
debate. A dois meses das eleições, discussões rasas, planos de governo
genéricos e um modelo de campanha de estímulo à polarização dificultam o
debate.
Sem compromissos assumidos, não tem como cobrar
depois. É voto no escuro.

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