Por O Globo
Demissão do amigo Galego ocorre como algo
protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise
O presidente Lula fez ontem um elogio ao senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do seu governo no Senado. Em viagem à Bahia, Lula o chamou de irmão, o abraçou e posou no palanque a seu lado, uma semana depois de ele deixar o posto. Com seu gesto, o presidente mostrou o que realmente acha das denúncias apresentadas pela Polícia Federal, envolvendo os favores prestados a Wagner por um empresário que manteve conexões com o Master: uma grande bobagem.
Galego, como o senador é chamado por Lula,
tinha razão, portanto, quando, semanas atrás, deu uma declaração dizendo achar
que Lula não o demitiria e que o próprio presidente enfrentou problemas mais
graves, como a prisão na Operação Lava-Jato. O abraço público dos dois ontem
foi a comprovação de que Wagner sabia do que estava falando. No mérito, Lula
não deu muita bola para as denúncias, e a preocupação dele sempre foi com o uso
eleitoral delas pelos adversários.
Nesse contexto, a demissão de Wagner ocorre
como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise e dar ao
presidente discurso para responder quando confrontado sobre o assunto na
eleição. Aliás, o próprio senador cantou essa bola, dando a entender que Lula
não havia comprado muito a história da PF sobre os favores pedidos ao
empresário. Em entrevista a Catia Seabra, da Folha de S.Paulo, depois da saída
do cargo de líder, Wagner revelou que, no dia de sua demissão, Lula disse a ele
que o “conhecia há 48 anos”, mas que agora teria de desmontar a “história” que
“construíram” contra ele.
A postura de Lula em relação a Wagner
descredibiliza as investigações da PF, ainda que elas não devam ser uma
condenação prévia. A Justiça é quem dará a palavra final sobre se houve
corrupção no pedido de Wagner ao empresário para que ele comprasse um
apartamento de R$ 2,4 milhões para a filha do senador. Mas, uma vez que Wagner
já está fora mesmo da liderança do governo e que a crise parece um pouco mais
estancada, o mais conveniente para Lula agora foi ignorar as denúncias contra o
aliado e tentar ajudar na reeleição dele ao Senado.
Além disso, assim como a maioria dos
políticos brasileiros, Lula tende a normalizar as relações entre público e
privado. Casos potenciais de corrupção são tratados pela nossa classe política
como simples demonstração de amizade. Ninguém compra apartamento para filha de
senador só para ser boa gente. Assim como nenhum empresário banca filme sobre
vida de político pelo interesse no cinema nacional. Quando Daniel Vorcaro
atende ao pedido do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e paga
milhões para, como foi alegado, produzir “Dark Horse”, também age em troca de
acesso ou blindagem.
Na nossa cultura política, o anormal é viajar
em voo comercial ou ter de pegar financiamento imobiliário no banco para
comprar um apartamento para a filha. Os favores privados fazem parte do jogo, e
quem cobra prestação de contas sobre isso está a serviço dos adversários
políticos. Ao abraçar Galego no palanque, Lula não deu só uma demonstração de
amizade em relação a ele. Deixou claro que também considera ter havido uma
“patacoada” da PF, expressão usada por Wagner em relação à operação de que foi
alvo.

Boa coluna.
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