quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sua senhoria, os fatos, por Merval Pereira

O Globo

O pré-candidato do PSD, ex-governador Ronaldo Caiado, aguarda os possíveis erros da candidatura do PL para ver se consegue reverter sua situação na corrida presidencial

A crise familiar dos Bolsonaros pode ter desdobramentos na campanha eleitoral para a Presidência da República. O prazo para registro das candidaturas termina em 5 de agosto, e até lá os partidos podem mudar seus pré-candidatos. Há quem desconfie de que o ex-presidente Jair Bolsonaro não esteja totalmente alheio aos movimentos de sua esposa, Michelle, e de que ela não teria gravado sem aquiescência dele aquele vídeo em que praticamente rompe com a candidatura de seu enteado Flávio.

Embora à primeira vista pareça quase impossível que o pai abandone o filho por causa da madrasta, os ventos políticos podem fazer com que a candidatura de Flávio se inviabilize. Pelo menos é o que parece esperar Michelle. O temor, ou desconfiança, de que surgirão novos fatos contra Flávio domina parte do grupo bolsonarista, e a insegurança é grande no seu entorno. As próximas pesquisas podem indicar um caminho novo ou confirmar a candidatura de Flávio, caso os escândalos recentes não o tenham ferido de morte.

O pré-candidato do PSD, ex-governador Ronaldo Caiado, aguarda os possíveis erros da candidatura do PL para ver se consegue reverter sua situação na corrida presidencial. A escolha do presidente do partido, Gilberto Kassab, para candidato a vice pode tanto significar que a legenda quer se distanciar de alianças tóxicas, como alegam, como fraqueza na articulação partidária. A campanha de Caiado está convencida de que, se ele conseguir chegar aos 10 pontos nas próximas pesquisas, estará aberto um caminho alternativo para os eleitores que não querem a polarização. A crise no PL pode também levar a um acordo já no primeiro turno, já que o apoio a Flávio é questão fechada no PSD no segundo turno.

Esclarecimento

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), classifica de “erro factual” eu ter dito que os ministros votaram a flexibilização dos penduricalhos “em causa própria” e pergunta que vantagem pessoal ele tirou da nova decisão do Supremo. Evidentemente, não acusei individualmente os ministros. A causa própria a que me referi é a da classe dos servidores do Judiciário. Não tenho ideia se algum ministro do Supremo receberá aumento em seus vencimentos devido à decisão.

Dino também pede para esclarecer que a votação sobre os penduricalhos do Judiciário terminou com 6 votos pela manutenção do teto de 35% (relatores Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, presidente Edson Fachin e Cármen Lúcia); e os demais 4 votos (Luiz Fux, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques) defenderam a retirada do teto de 35% para pagamento de penduricalhos retroativos. Com a decisão, o teto fixado passa de R$ 46,4 mil, o salário de ministros do Supremo, para R$ 78,8 mil. Entre as decisões aprovadas por unanimidade está um aumento de 5% a cada cinco anos de serviço, benefício que havia sido extinto há 20 anos.

Desgastes

A prisão do vereador Senival Moura (PT) na Operação Última Parada deixou de ser apenas problema municipal para o partido, na visão dos coordenadores da campanha de reeleição do governador Tarcísio de Freitas. O caso ganhou peso nacional desde que veio à tona o fato de o relatório da investigação citar Jilmar Tatto, vice-presidente nacional do PT e um dos nomes mais antigos do partido na área de transportes. A investigação trata da lavagem de dinheiro do PCC na Transunião, empresa de ônibus da Zona Leste de São Paulo. O setor é historicamente ligado à estrutura política petista na capital. A pergunta que circula nos bastidores é: se a apuração seguir o caminho do dinheiro, ficará restrita a Senival ou poderá alcançar campanhas e estruturas partidárias? Para Haddad, o risco nasce em seu principal território político: São Paulo. Para Lula, o desgaste é nacional ao misturar PT com PCC, transporte público e suspeita de financiamento político.

 

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