O Estado de S. Paulo
A convenção nacional do PL foi a convenção de
Jair Bolsonaro, ainda que, de vez em quando, alguém se lembrasse de que
oficializada ali era a candidatura de Flávio Bolsonaro. Disse Tarcísio,
carinhoso: “Flávio está aqui não pelo sobrenome”. Carinhoso – e falso. Estava
ali pelo sobrenome somente. Senador somente pelo sobrenome. Candidato à
Presidência somente pelo sobrenome. Produto de fenômeno dinástico,
puro-sanguista, que se hierarquiza em função da família.
Da família, não. A família de Michelle – ela fez questão de esclarecer – não é a mesma de Flávio.
Para ser exato: Flávio estava ali – está aqui
– porque lhe corre o sangue Bolsonaro. Sangue que Michelle não tem, autorizada
a usar a franquia Bolsonaro sob todas as restrições decorrentes da
circunstância de ser esposa de Jair, aquele – o mito ausente – em função de
quem a convenção do PL existiu.
Não havia presidentes de partidos no evento.
Sinal de fragilidade política. Flávio queria – quer – aliados. Está isolado.
Isolamento que o bolsonarismo outrora conseguiria capitalizar. O outsider.
Conseguirá? O outsider que pedia dinheiros a Vorcaro. Tudo é possível. É
possível que vença, coadjuvante no ato que lhe lançava a candidatura.
A convenção de Jair Bolsonaro. Expressão da
inexistência individual autônoma de Flávio, ao mesmo tempo fortaleza e
limitação do candidato. Fortaleza porque a condição de “a pessoa que escolhi
para me substituir” lhe dá a base firme para quase se garantir no segundo
turno. Limitação porque a “enorme responsabilidade”, sacrifício mesmo, de
liderar o movimento bolsonarista – para sobretudo mantê-lo sob o controle da
família stricto sensu puro-sanguista – lhe toma os meios para se constituir
como persona política singular.
(A fraqueza do candidato que é instrumento,
donde manipulável, será explorada por Lula também a partir da defesa da
soberania nacional, ensaiado já o discurso por meio do qual o verdadeiro
adversário do presidente – para além de Jair – seria Donald Trump.)
Flávio não tem existência política própria.
“Sangue do meu sangue, meu filho Flávio” cumpre a missão de ser o cavalo e
oferecer o corpo que receberálevará o pai até a eleição. “Bolsonaro vai subir
aquela rampa do Planalto junto com a gente” – declarou o “filho mais velho do
capitão”, como se classificaria.
A frase completa: “Tenho certeza de que, em janeiro de 2027, Jair Bolsonaro vai subir aquela rampa do Planalto junto com a gente”. Ainda que “soltar Bolsonaro e os presos do 8 de Janeiro” tenha sido a principal proposta, senão a única, do evento, será improvável supor que factível já no começo do próximo ano. Resta a dimensão simbólica, aquela em que “o legado” de Jair – o governo de Jair – subiria a rampa do Planalto para se restabelecer. Projeção que é uma ameaça aos eleitores de que Flávio precisa para ir além. Flávio precisa de Jair para ir a algum lugar.

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