O Globo
Presidente argentino cruzou linhas vermelhas da diplomacia, criou uma crise com seu principal parceiro comercial e pôs em riscos agenda de acordos do Mercosul
A crise diplomática provocada pelo presidente Javier Milei ocorre num momento de intensa, ambiciosa e bem sucedida agenda internacional do Mercosul, com uma série de negociações promissoras. O bloco fez acordo com a União Europeia, Efta ( países nórdicos), Cingapura. Negocia com o Canadá, Emirados Árabes, Vietnã. A Inglaterra pediu conversas, a Índia quer aprofundar acordos, o tema foi assunto de conversa entre Lula e o presidente da China, Xi Jinping. O Mercosul está sendo visto como um “oásis de regras claras”, definiu um negociador brasileiro, dizendo que é um paradoxo a crise num momento tão favorável.
É isso que Milei trinca neste momento ao
fazer o que fez no sábado em São Paulo. Uma série
de linhas vermelhas da diplomacia foram cruzadas de uma maneira sem precedentes nesta
vinda do
presidente argentino ao Brasil para participar do lançamento da campanha de
Flávio Bolsonaro ao Planalto. Ao ofender o presidente Lula, um ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF), e interferir tão diretamente em assunto
interno, Milei quebrou todo o protocolo que deve reger as relações entre
países.
Internamente Milei enfrenta problemas. Ele
veio em visita privada, tanto que em nenhum momento comunicou a vinda ao
governo brasileiro ou teve contato com autoridades. Só que veio de avião
presidencial e às custas do erário argentino. Ele está alegando que foi uma
visita oficial ao estado de São Paulo. Evidentemente não existe isso num estado
integrante de uma federação. O
governador Tarcísio de Freitas recebeu-o como se pudesse oferecer honras de
chefe de Estado. Os jornais argentinos fizeram criticas muito fortes à
crise criada por Milei com o Brasil.
O que agrava tudo é o fato de que a relação
entre os dois países é tradicional e profunda. O comércio com o Brasil é o mais
importante para a Argentina, de longe. A balança comercial com os Estados Unidos é
metade da que eles têm com o Brasil. Os dois vizinhos têm uma série de frentes
de cooperação, além do comércio robusto. Brasil e Argentina têm cooperação na
área nuclear, em ciência e tecnologia, na área militar. O ministro da Defesa
brasileiro esteve lá recentemente, o da Agricultura também. Isso é rotina.
O esforço todo da diplomacia e das áreas
técnicas do governo brasileiro tem sido o de manter as relações bilaterais
protegidas do fato de que há uma divergência ideológica entre os dois governos.
O Itamaraty tem trabalhado para evitar a contaminação da relação na prática. A
vinda de Milei, a decisão de entrar de cabeça na campanha eleitoral, os
insultos às autoridades brasileiras, o roteiro totalmente inadequado da visita
abalam o trabalho de dois anos e meio.
Esses acordos comerciais todos fechados ou em
negociação com o Mercosul decorrem em grande parte da própria política
tarifária americana. Como o presidente Donald Trump decidiu
atacar o mundo com suas tarifas e sua atitude intempestiva, os países e blocos
estão reorganizando suas relações econômicas e comerciais. O Mercosul tem muito
a ganhar. Neste momento contudo, o
embaixador argentino foi convocado para dar explicações e o embaixador
brasileiro na Argentina foi chamado de volta, sem data de retorno.
Javier Milei se justifica fazendo comparação
com outros eventos com os quais o seu comportamento não tem paralelo. O
presidente Lula foi à Argentina para uma reunião do Mercosul e fez uma visita
à Cristina
Kirchner autorizada pela Justiça. Uma equipe de marketing que tinha
atuado em campanhas do PT, e de
outros grupos políticos em outros momentos, foi trabalhar com Sérgio Massa.
Tudo isso é diferente da intervenção direta, abusiva e ofensiva que ele
praticou durante sua viagem a São Paulo.
Em entrevista, Milei acusou o Brasil de ter
financiado uma suposta campanha contra a Argentina ao fim da Copa do Mundo.
Nada mais fantasioso. Há uma série de críticas à Argentina no mundo inteiro
como reação ao comportamento da seleção do país, principalmente no momento da
premiação da Espanha. Essa reação global não é resultado de campanha e muito
menos financiada pelo governo brasileiro.
A situação econômica da Argentina tem alguns bons indicadores e outros bem ruins, a popularidade de Milei caiu, mas permanece em piso alto, de 30%. O presidente argentino continua a ser o favorito para as eleições do ano que vem. O ideal é que a crise seja superada, mas por enquanto não se sabe como se sairá dessa enrascada que o Milei colocou a relação bilateral.

Nenhum comentário:
Postar um comentário