Valor Econômico
Transição demográfica implica custos, mas também pode gerar riqueza
Acabou a Copa do Mundo para o Brasil e o
próximo grande evento aqui, muito mais importante, são as eleições de outubro.
Os temas em debate destacam segurança, soberania, inflação, educação e
corrupção. Nenhum dos pré-candidatos, porém, disse até agora uma única palavra
sobre como pretende lidar com uma questão crucial: o envelhecimento da
população brasileira.
No ano 2000, o número de pessoas com mais de 60 anos no país, 15 milhões, representava 8,7% da população. Atualmente, os idosos são 33 milhões, 15% da população - a ONU considera uma sociedade envelhecida quando esse índice ultrapassa 14%.
O tema é importante e não pode ser olhado
simplesmente através de lentes fiscalistas, tendência dominante no país. Foi às
livrarias no mês passado a obra “A (difícil) decisão de envelhecer”, do
jornalista e pesquisador Jorge Félix, mestre em economia política e doutor em
ciências sociais. É um livro provocativo, que merece ser lido por
pré-candidatos sérios e seus assessores, que aborda o tema a partir de aspectos
econômicos, políticos, sociais, éticos, filosóficos e culturais.
Jorge Félix reuniu e atualizou artigos que
publicou nos últimos anos, inclusive no Valor, para mostrar a relevância de um tema que
está sendo relegado a um segundo plano no país. Ele observa que o interesse das
empresas de tecnologia no envelhecimento é uma das maiores tendências de
negócios no mundo. Cita como exemplo a recente aquisição da Nest Labs Inc.,
empresa de automação residencial, pelo Google, por US$ 3,2 bilhões. A Nest indica
a entrada do Google no bilionário mercado da teleassistência, espécie de
coração da economia da longevidade.
A teleassistência, diz o autor, significa
para a economia do século XXI o que a indústria automobilística significou para
o século XX. A robótica no mundo tem hoje como maior mercado o envelhecimento.
Modelos de robôs móveis assistentes como Care-O (Alemanha), Romeo (França), PR2
(Califórnia), Robear (Japão) e Giraff Plus (Itália) são os novos produtos de
exportação do planeta, como foram os automóveis no século passado.
É preciso enxergar o fenômeno do
envelhecimento muito além da Previdência, em que o tema está erroneamente
confinado, sempre ampliado pelas lentes do terrorismo fiscal. Um exemplo
marcante é o do Chile, onde o olhar fiscalista e neoliberal dos anos 1980, sob
a ditadura de Augusto Pinochet e com apoio da Escola de Chicago, privatizou a
Previdência. Três décadas depois, houve um desastre social: 1,2 milhão de
pessoas estavam sem Previdência, 8% da população à míngua na velhice e o Estado
teve que desprivatizar o setor em 2008, no governo de Michele Bachelet. Ainda
hoje, o Chile ocupa o segundo lugar no ranking da desigualdade entre os 35
países-membros da OCDE.
Isso não quer dizer que se deva ignorar o
problema fiscal. O Estado terá de rever sua política para ter uma arrecadação
muito mais eficiente, progressiva e equânime. Em português claro, adotar um
sistema tributário que taxe menos os pobres e mais os ricos, o contrário do que
ocorre atualmente, não apenas no Brasil: trata-se de um desafio global.
Nas palavras do autor, o mundo vive hoje duas
transformações radicais: a mudança climática, com eventos ambientais extremos,
e a mudança demográfica, com eventos sociais extremos. E o país precisa estar
preparado para enfrentar as duas.
A transição demográfica, se por um lado
implica custos, por outro, pode gerar riqueza. Na União Europeia, o
investimento em educação e pesquisa na área do envelhecimento já aparece como
prioridade nos documentos oficiais. O objetivo é dominar o setor da gerontecnologia,
a tecnologia para cuidados de pessoas idosas, com produtos de alto valor
agregado e um filão de reindustrialização a partir da nova cesta de consumo das
famílias.
O alerta do livro, além de ressaltar a óbvia
relevância social do tema, é para a importância dessa economia da longevidade.
Enquanto o envelhecimento passa por aqui despercebido, a Europa subsidia
fortemente a pesquisa e o desenvolvimento de suas empresas e setores
estratégicos. O risco, escreve o pesquisador, é o Brasil descobrir a economia
da longevidade muito tarde, quando suas empresas já estarão velhas para
competir no mercado global.
Félix faz uma crítica severa ao
subdimensionamento do tema por grande parte dos economistas, que estariam
viciados em uma premissa falsa: como o país terá menos crianças, por causa da
queda da taxa de fecundidade, é injustificável a manutenção do investimento com
recursos orçamentários nos níveis atuais. Outra premissa, desumana, é que o
investimento em ensino e alfabetização de adultos deve ser abandonado porque
tem baixa taxa de retorno. As duas conclusões, observa, são estritamente
fiscalistas e cometem o erro vulgar de posicionar a atuação do Estado parelha à
da iniciativa privada, o que leva a educação a ser submetida a um ROI (Return
on Investment).
As duas assertivas, segundo Félix, formam um
consenso entre economistas de várias escolas. Porém, não é porque os
economistas concordam que eles estão certos, diz o autor, citando Barry
Eichengreen, historiador econômico americano, professor em Berkeley.

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