Correio Braziliense
A ofensiva contra o Brasil não deve ser
examinada apenas como uma disputa sobre alíquotas, etanol, plataformas digitais
ou acesso a mercados. Trata-se de um choque institucional
Representantes do governo dos Estados Unidos informaram ao Itamaraty que a decisão sobre a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros já foi tomada. Somente após a divulgação da decisão, porém, o governo brasileiro analisará o teor do anúncio, para definir qual será a sua reação. Mais ou menos como naquele refrão do samba Malandragem Dá Um Tempo ( "Vou apertar, mas não vou acender agora"), de autoria de Adelzonilton, Moacyr Bombeiro e Popular PA, imortalizado pelo sambista Bezerra da Silva e músico letrado, que tocava violão clássico em orquestras e era notável percussionista.
Entre as possibilidades em discussão no
Palácio do Planalto, o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica não está
descartado, mas a prioridade é a continuidade das negociações diplomáticas com
os americanos pelo Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços. Deixando o samba de lado, a ofensiva tarifária de Donald
Trump contra o Brasil não deve ser examinada apenas como uma disputa sobre
alíquotas, etanol, plataformas digitais ou acesso a mercados. Trata-se de um
choque institucional.
O economista Douglass North (Nobel de 1993),
estudioso da institucionalidade da economia, mostrou que o funcionamento da
economia mundial e do comércio entre os países depende das "regras do
jogo": normas formais, convenções e mecanismos de cumprimento que reduzem
a incerteza, protegem contratos e diminuem os custos de transação. Quando
Donald Trump transforma tarifas em instrumento discricionário de pressão
política, não altera somente o preço das mercadorias. Muda os incentivos de
governos, bancos e empresas e estimula a criação de estruturas capazes de
reduzir a dependência em relação ao poder que passou a ameaçá-los.
A investigação norte-americana sobre o
comercio Brasil-Estados Unidos misturou Pix, etanol, plataformas digitais,
propriedade intelectual, desmatamento e acordos tarifários. Tudo para
justificar uma sobretaxa de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. Cerca
de 4,2 mil itens e US$ 15 bilhões em exportações podem ser atingidos.
Entretanto, o tarifaço deve preservar exceções para produtos relevantes à
própria economia dos Estados Unidos, sinal de que a medida obedece a uma
seleção política de custos e benefícios. Na verdade, a relação bilateral é
superavitária para os norte-americanos, o que contradiz a justificativa
apresentada por Trump, pois os Estados Unidos mantêm posição comercial
favorável diante do Brasil.
North nos ajuda a compreender por que o tarifaço
é mais grave do que uma retaliação convencional. As relações comerciais
produtivas dependem da confiança de que as regras não serão modificadas
arbitrariamente depois que investimentos e cadeias produtivas estiverem
organizados. Tarifas unilaterais elevam o custo de medir riscos, renegociar
contratos, financiar exportações, contratar seguros e substituir fornecedores.
Ou seja, bagunça as operações das empresas e a economia dos países.
O Pix é nosso
Em vez de reduzir incertezas, a política dos
Estados Unidos passa a produzi-las e transforma o acesso ao maior mercado do
mundo em concessão revogável pela vontade presidencial. Entretanto, Trump não
tem apoio unânime das empresas norte-americanas. Muitas dependem de insumos
brasileiros e pressionam por exceções, porque a tarifa funciona como imposto
sobre suas próprias cadeias de produção.
O problema se amplia porque a ofensiva não se
limita ao comércio de bens. Entre os impasses apresentados por Washington estão
o Pix, a abertura do mercado ao etanol norte-americano e uma moratória de
quatro anos para tributos e multas de plataformas digitais. O Brasil considera
esses pontos inegociáveis e sustenta que o Pix é uma infraestrutura pública
aberta a instituições nacionais e estrangeiras, comparável ao FedNow dos
próprios Estados Unidos.
Não há a menor possibilidade de o Brasil
acabar com o Pix por exigência de Trump. Hoje, é o principal meio eletrônico de
pagamento do país em número de operações, com mais de 170 milhões de usuários,
custos inferiores aos dos cartões e participação superior à metade das
transações no segundo semestre de 2025. Classificá-lo como "prática
desleal" equivale a converter uma inovação destinada a reduzir custos de
transação em infração comercial porque ela diminui a renda de intermediários
privados.
Há dois aspectos importantes a considerar. O
primeiro é de natureza econômica. Apesar de ser o segundo parceiro do Brasil, o
comércio com os Estados Unidos, que movimentou US$ 36,4 bilhões no primeiro
semestre, representa apenas 2% do PIB brasileiro. Ou seja, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva tem cacife para não entregar o que Trump está querendo. O
segundo é eleitoral: por mais que Flávio Bolsonaro tenha se esforçado para ser
interlocutor da Casa Branca e obter o adiamento do aumento de tarifas, sua
viagem a Washington para se encontrar com o secretário de Estado, Marco Rubio,
foi uma espécie de "me engana, que eu gosto". Isto é, pura figuração.
Na prática, o que fez foi entregar a bandeira da soberania nacional para Lula
nas eleições.

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