Folha de S. Paulo
Presidente deixa de explorar interferência
dos EUA como fantasma e passa a tratar eleição como disputa entre candidato
nacional e potência estrangeira
Ao disparar desafio como deboche, petista não
tenta se defender de uma interferência já consumada, mas provoca adversário a
entrar em campo
O desafio
lançado por Lula (PT)
para que Marco
Rubio "monte um comitê" de campanha para Flávio
Bolsonaro (PL)
abre um novo momento do embate eleitoral do petista com Washington. Ao apontar
o que seria uma dobradinha entre seu principal opositor e o secretário de
Estado americano, o presidente deixa de tratar uma possível interferência dos
EUA como fantasma e passa a nomeá-la como adversária direta.
Lula vinha atacando o tema de forma difusa, ainda que enfática. Criticava o tarifaço e sanções contra autoridades brasileiras como armas da pressão comercial e diplomática de Donald Trump sobre a democracia brasileira. Pintava Flávio e os Bolsonaros como traidores da pátria submetidos à agenda de uma nação estrangeira, lançando repetidas vezes a carta da soberania.
Nomear Rubio como opositor eleitoral provoca
uma mudança sutil nesse registro e desloca mais uma parte do confronto para o
exterior. No discurso de Lula na segunda-feira (20), o adversário de outubro
deixou de ser apenas Flávio e passou a ser uma coalizão que inclui uma potência
estrangeira.
Vale notar que os EUA entraram por conta
própria no embate eleitoral ao abrirem as portas da Casa Branca para um Eduardo
Bolsonaro que advogava
publicamente pela aplicação de tarifas ao Brasil como ferramenta
política e, em seguida, para um Flávio Bolsonaro na condição de pré-candidato à
Presidência.
O petista decidiu nomear essa proximidade e
devolvê-la como acusação, consagrando uma estratégia de campanha que vinha
sendo cultivada há tempos e passa a atingir sua expressão mais nítida.
Lula tenta explorar uma potencial fragilidade
de Flávio, num momento em que o novo tarifaço americano está prestes a ser
implementado, com boa
parte da população atribuindo alguma responsabilidade ao senador –embora
a decisão dos EUA decorra de uma investida mais ampla da Casa Branca, sobre
diversos países.
Ao disparar como deboche a frase "que
monte um comitê", Lula não tenta se defender de uma interferência já
consumada, mas provoca o adversário a entrar em campo. Apresenta ao eleitor um
Marco Rubio com nome e sobrenome, num esforço para cravar no eixo da campanha
uma disputa entre o candidato nacional e uma potência estrangeira.
A jogada tem tradição. Dias antes da eleição
de 2002 na Bolívia, o embaixador americano Manuel Rocha disse que uma
vitória de Evo Morales custaria a ajuda dos EUA ao país. O efeito foi o
contrário. Evo virou símbolo de soberania ferida, disparou nas pesquisas e se
saiu com a frase: "Tomara que ele continue falando". O candidato
quase venceu a disputa, se tornou líder nacional e se elegeu três anos depois.
No Brasil, o país testemunhou a influência
pública do embaixador dos EUA sobre a ditadura militar inaugurada em 1964. O
envolvimento do diplomata com o regime deu origem a uma provocação célebre
atribuída ao escritor Otto Lara Resende: "Chega
de intermediários, Lincoln Gordon para presidente".
No caso de Lula, há um recorte proposital
sobre o nome escolhido para o ringue. O petista mira Rubio, não apenas porque
ele foi o
funcionário que o criticou quando o mais recente tarifaço sobre o
Brasil foi anunciado. Atacar o secretário permite amplificar o discurso
soberanista tentando preservar algum canal com quem toma as grandes decisões,
em última instância: Donald Trump.
Lula testou essa mecânica num palco específico: o ato do PDT, partido que teve como um dos motes fundadores o nacionalismo trabalhista. Acidental ou não, o princípio dos interesses nacionais, com um retrato de Leonel Brizola ao fundo, emoldurou as palavras do petista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário