quarta-feira, 22 de julho de 2026

Lula nomeia Rubio como adversário e consagra estratégia eleitoral contra Flávio Bolsonaro, por Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Presidente deixa de explorar interferência dos EUA como fantasma e passa a tratar eleição como disputa entre candidato nacional e potência estrangeira

Ao disparar desafio como deboche, petista não tenta se defender de uma interferência já consumada, mas provoca adversário a entrar em campo

desafio lançado por Lula (PT) para que Marco Rubio "monte um comitê" de campanha para Flávio Bolsonaro (PL) abre um novo momento do embate eleitoral do petista com Washington. Ao apontar o que seria uma dobradinha entre seu principal opositor e o secretário de Estado americano, o presidente deixa de tratar uma possível interferência dos EUA como fantasma e passa a nomeá-la como adversária direta.

Lula vinha atacando o tema de forma difusa, ainda que enfática. Criticava o tarifaço e sanções contra autoridades brasileiras como armas da pressão comercial e diplomática de Donald Trump sobre a democracia brasileira. Pintava Flávio e os Bolsonaros como traidores da pátria submetidos à agenda de uma nação estrangeira, lançando repetidas vezes a carta da soberania.

Nomear Rubio como opositor eleitoral provoca uma mudança sutil nesse registro e desloca mais uma parte do confronto para o exterior. No discurso de Lula na segunda-feira (20), o adversário de outubro deixou de ser apenas Flávio e passou a ser uma coalizão que inclui uma potência estrangeira.

Vale notar que os EUA entraram por conta própria no embate eleitoral ao abrirem as portas da Casa Branca para um Eduardo Bolsonaro que advogava publicamente pela aplicação de tarifas ao Brasil como ferramenta política e, em seguida, para um Flávio Bolsonaro na condição de pré-candidato à Presidência.

O petista decidiu nomear essa proximidade e devolvê-la como acusação, consagrando uma estratégia de campanha que vinha sendo cultivada há tempos e passa a atingir sua expressão mais nítida.

Lula tenta explorar uma potencial fragilidade de Flávio, num momento em que o novo tarifaço americano está prestes a ser implementado, com boa parte da população atribuindo alguma responsabilidade ao senador –embora a decisão dos EUA decorra de uma investida mais ampla da Casa Branca, sobre diversos países.

Ao disparar como deboche a frase "que monte um comitê", Lula não tenta se defender de uma interferência já consumada, mas provoca o adversário a entrar em campo. Apresenta ao eleitor um Marco Rubio com nome e sobrenome, num esforço para cravar no eixo da campanha uma disputa entre o candidato nacional e uma potência estrangeira.

A jogada tem tradição. Dias antes da eleição de 2002 na Bolívia, o embaixador americano Manuel Rocha disse que uma vitória de Evo Morales custaria a ajuda dos EUA ao país. O efeito foi o contrário. Evo virou símbolo de soberania ferida, disparou nas pesquisas e se saiu com a frase: "Tomara que ele continue falando". O candidato quase venceu a disputa, se tornou líder nacional e se elegeu três anos depois.

No Brasil, o país testemunhou a influência pública do embaixador dos EUA sobre a ditadura militar inaugurada em 1964. O envolvimento do diplomata com o regime deu origem a uma provocação célebre atribuída ao escritor Otto Lara Resende: "Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente".

No caso de Lula, há um recorte proposital sobre o nome escolhido para o ringue. O petista mira Rubio, não apenas porque ele foi o funcionário que o criticou quando o mais recente tarifaço sobre o Brasil foi anunciado. Atacar o secretário permite amplificar o discurso soberanista tentando preservar algum canal com quem toma as grandes decisões, em última instância: Donald Trump.

Lula testou essa mecânica num palco específico: o ato do PDT, partido que teve como um dos motes fundadores o nacionalismo trabalhista. Acidental ou não, o princípio dos interesses nacionais, com um retrato de Leonel Brizola ao fundo, emoldurou as palavras do petista.

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