Correio Braziliense
Ciro comunicou ao candidato
do PL que a federação União Progressista, formada pelo PP e pelo União Brasil,
pretende manter-se neutra na eleição presidencial no primeiro turno
“Jamais interrompa o seu adversário quando ele estiver cometendo um erro.” A máxima atribuída a Napoleão Bonaparte, inspirada em suas reflexões sobre O príncipe, de Nicolau Maquiavel, parece ter sido escrita sob medida para Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais. O petista enfrenta dificuldades na economia, elevada rejeição e desgastes naturais do longo exercício do poder, porém seu principal adversário insiste em criar problemas para a própria candidatura.
Em vez de explorar as fragilidades do
governo, Flávio oferece a Lula oportunidades para recuperar a iniciativa
política, mobilizar a esquerda e conquistar eleitores moderados. A lista de
erros é extensa. Flávio se envolveu com Daniel Vorcaro, protagonista do
escândalo do Banco Master; entrou em conflito com a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro, que se queixa do tratamento recebido do enteado e se afastou da
campanha; apostou que o tarifaço de Donald Trump contra as exportações
brasileiras seria atribuído a Lula, mas a medida acabou despertando um
sentimento de defesa dos interesses nacionais.
Agora, retoma as suspeitas infundadas contra
as urnas eletrônicas, repetindo a estratégia que contribuiu para tornar seu pai
inelegível e que esteve no centro da tentativa de golpe de Estado de 8 de
janeiro de 2023. Nenhum desses episódios, isoladamente, liquidaria uma
candidatura competitiva. Somados, no entanto, revelam um problema de
estratégia, comando e temperamento.
Flávio parece incapaz de perceber que uma
eleição presidencial não se ganha apenas consolidando a base bolsonarista. Para
derrotar Lula, precisa conquistar uma parcela do eleitorado de centro, reduzir
sua rejeição e transmitir segurança às forças econômicas e partidárias que não
desejam a continuidade do PT, mas também não querem uma nova crise
institucional. Ao radicalizar o discurso, aproximar-se de personagens
controversos e abandonar aliados quando enfrentam dificuldades, o candidato do
PL faz exatamente o contrário.
O caso das urnas é exemplar. Diante de
representantes de dezenas de países, Flávio poderia ter apresentado um programa
econômico, defendido a abertura de mercados, discutido investimentos e
demonstrado capacidade de representar o Brasil no exterior. Preferiu
ressuscitar uma acusação falsa sobre a participação da empresa venezuelana
Smartmatic no sistema de votação brasileiro.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em
resposta, carimbou a declaração como fake news. Esclareceu que a Smartmatic não
fornece urnas nem programas utilizados no Brasil e que o sistema é concebido e
administrado pela própria Justiça Eleitoral. O candidato a presidente do PSD,
Ronaldo Caiado, de olho numa vaga de segundo turno das eleições, resumiu a
patacoada: “42 embaixadores numa sala: dava para vender soja. Dava para abrir
mercado para indústria. Dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna
eletrônica!”.
Aliados se afastam
Flávio reproduziu o comportamento que levou
Jair Bolsonaro à condenação pelo TSE após a reunião com embaixadores de julho
de 2022. Mesmo integrantes do bolsonarismo passaram a admitir, reservadamente,
que o senador repete o erro do pai. A fala pode entusiasmar os eleitores mais
fiéis, mas não acrescenta um único voto ao campo da direita. Ao contrário,
devolve a Lula a bandeira da defesa da democracia, reabre a memória do 8 de
Janeiro e ajuda o PT a enquadrar o adversário como representante de uma ameaça
institucional.
Flávio também calculou mal os efeitos da política
de Donald Trump para o Brasil. Sua aproximação com o presidente norte-americano
poderia ser apresentada como um ativo diplomático, desde que servisse para
defender empresas, empregos e exportações brasileiras. Entretanto, sua
tentativa de responsabilizar Lula pelas tarifas não convenceu a maioria. A
associação com Trump, que deveria fortalecê-lo, passou a alimentar a narrativa
governista da defesa da soberania nacional.
O escândalo do Banco Master produziu estragos
ainda maiores porque atingiu o discurso antissistema do candidato. Flávio
reconheceu ter procurado Vorcaro para obter financiamento privado destinado a
um filme sobre Jair Bolsonaro e admitiu que voltou a se encontrar com o
banqueiro depois de sua primeira prisão.
O senador nega qualquer ilegalidade, mas as
mensagens e gravações divulgadas mostraram pedidos milionários. Politicamente,
a proximidade com um banqueiro situado no centro de uma investigação bilionária
enfraquece o discurso moralizador do bolsonarismo e dá munição ao PT.
Esse episódio também deteriorou a relação com
Ciro Nogueira, presidente do PP e antigo ministro da Casa Civil de Jair
Bolsonaro. Quando Ciro foi atingido por uma operação relacionada às
investigações do Master, dirigentes do Progressistas esperavam uma manifestação
de solidariedade de Flávio. Ela não veio. O silêncio foi interpretado como
abandono.
Nesta quarta-feira, Ciro comunicou a Flávio Bolsonaro, pessoalmente, que a federação União Progressista, formada pelo PP e pelo União Brasil, pretende ficar neutra na eleição presidencial no primeiro turno. Além da insatisfação com o comportamento de Flávio, pesaram os interesses regionais e o receio de novas revelações sobre suas relações com Vorcaro. Os dois partidos não estão dispostos a amarrar seu destino a Flávio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário