quinta-feira, 23 de julho de 2026

Maquiavel. Elementos de política, por Antonio Gramsci*

Deve-se mesmo observar que os primeiros a serem esquecidos são precisamente os primeiros elementos, as coisas mais elementares; estes, por outro lado, repetindo-se infinitas vezes, tornam-se os pilares da política e de qualquer ação coletiva. Primeiro elemento é que realmente existem governados e governantes, dirigentes e dirigidos. Toda a ciência e a arte políticas baseiam-se nesse fato primordial, irredutível (em certas condições gerais). As origens deste fato são um problema em si, que deverá ser estudado em si (pelo menos poderá e deverá ser estudado como atenuar e fazer desaparecer o fato, alterando certas condições identificáveis   como atuantes neste sentido), mas permanece o fato de que existem dirigentes e dirigidos, governantes e governados. Dado este fato, será necessário ver como se pode dirigir da maneira mais eficaz (dados certos fins) e como, portanto, preparar da melhor maneira os dirigentes (e nisto consiste mais precisamente a primeira parte da ciência e arte política), e como, por outro lado, conhecem-se as linhas de menor resistência ou racionais para obter a obediência dos dirigidos ou governados. 

Na formação dos dirigentes, é fundamental a premissa: pretende-se que sempre existam governados e governantes ou se pretende criar as condições nas quais a necessidade da existência desta divisão desapareça? Ou seja, parte-se da premissa da divisão perpétua do gênero humano ou acredita-se que esta se trata apenas de um fato histórico, resultado de certas condições? Deve ficar claro, todavia, que a divisão entre governados e governantes, ainda que, em última análise, se refira a uma divisão de grupos sociais, todavia existe, dadas as coisas como são, também no seio de cada grupo, mesmo socialmente homogêneos; em certo sentido, pode-se dizer que esta divisão é uma criação da divisão do trabalho, é um fato técnico. Especulam sobre essa coexistência de motivos todos os que veem tudo apenas como "técnica", necessidade "técnica" etc., para não se proporem o problema fundamental. 

Dado que até no mesmo grupo existe a divisão entre governantes e | governados, é necessário estabelecer certos princípios irrevogáveis, e de fato neste terreno é que ocorrem os "erros" mais graves, isto é, que se manifestam as incapacidades mais criminosas, porém mais difíceis de corrigir. Acredita-se que, uma vez estabelecido o princípio pelo próprio grupo, a obediência deva ser automática, deva acontecer não só sem que se precise de uma demonstração de "necessidade" e racionalidade, mas de forma indiscutível (alguns pensam e, o que é pior, agem de acordo com este pensamento, de que a obediência "virá" sem ser solicitada, sem que o caminho a ser seguido seja indicado). Assim, é difícil extirpar dos dirigentes o “cadornismo”, isto é, a convicção de que uma coisa será feita porque o dirigente considera justo e racional que seja feita: se não for feita, "a culpa" é lançada sobre quem "deveria ter feito" etc. Assim, é difícil extirpar o hábito criminoso de negligenciar as formas de evitar sacrifícios inúteis. E ainda assim, o senso comum mostra que a maior parte dos desastres coletivos (políticos) acontecem porque não se tentou evitar o sacrifício inútil, ou porque se demonstrou desprezar o sacrifício alheio e se brincou com a pele alheia. Todos já ouviram de oficiais da linha de frente como realmente os soldados arriscavam suas vidas quando isto era necessário, mas como, também, se rebelavam quando se sentiam abandonados. Por exemplo: uma companhia era capaz de jejuar muitos dias porque compreendia que os víveres não podiam chegar por motivo de força maior, mas se amotinava se lhe faltasse uma única refeição por negligência ou burocratismo etc. 

Este princípio se estende a todas as ações que exigem sacrifício. Portanto, sempre, em cada adversidade, antes de tudo se deve buscar as responsabilidades dos dirigentes, e isto em estrito senso (por exemplo: uma frente de luta é constituída por várias seções e cada seção tem seus dirigentes: é possível que,  por uma derrota, sejam mais responsáveis os dirigentes de uma seção que os de outra, mas se trata de maior e de menor responsabilidade, não de exclusão de responsabilidade de um ou outro, jamais). 

Estabelecido o princípio de que existem dirigidos e dirigentes, governados e governantes, é verdade que os partidos são até agora o modo mais adequado de elaborar os dirigentes e a capacidade de direção (os "partidos" podem se apresentar sob os mais diversos nomes, mesmo sob o nome de antipartido e de "negação dos partidos"; na realidade, mesmo os chamados "individualistas" são homens de partido, que bem gostariam de ser "chefes de partido", pela graça |de deus ou da imbecilidade dos que os seguem).

Desenvolvimento do conceito geral que está contido na expressão "espírito estatal". Esta expressão tem um significado bastante preciso, historicamente determinado. Mas se coloca o problema: existe algo (semelhante) ao que se denomina "espírito estatal" em todo movimento sério, isto é, que não seja a expressão arbitrária de individualismos, mais ou menos justificados? Não obstante, o "espírito estatal" pressupõe a "continuidade", seja em direção ao passado, ou seja, em direção à tradição, seja em direção ao futuro, isto é, pressupõe que cada ato seja o momento de um processo complexo, que já se iniciou e que continuará. A responsabilidade deste processo, de sermos atores deste processo, de sermos solidários com forças materialmente "desconhecidas", mas que, apesar disso, são percebidas como operantes e ativas e consideradas como se fossem "materiais" e corporalmente presentes, em alguns casos é chamada precisamente "espírito estatal". É evidente que tal consciência da "duração" deve ser concreta e não abstrata, isto é, em certo sentido, não deve ultrapassar determinados limites; suponhamos que os limites mínimos sejam uma geração precedente e uma geração futura, o que não é dizer pouco, já que as gerações serão contadas a cada caso, não trinta anos antes e trinta anos depois de hoje, mas organicamente, em sentido histórico, o que em relação ao passado, pelo menos, é fácil de compreender: sentimo-nos solidários com os homens que hoje são muitíssimo velhos e que nos representam o "passado" que ainda vive entre nós, que precisamos conhecer, com o qual devemos acertar as contas, que é um dos elementos do presente e das premissas do futuro. É com as crianças, com as gerações que nascem e crescem, pelas quais somos responsáveis. (Outra coisa é o "culto" à "tradição", que tem um valor tendencioso, implica uma escolha e um fim determinado, ou seja, é baseado numa ideologia). Não obstante, se se pode afirmar que um "espírito estatal", assim entendido, está em todos, é necessário lutar constantemente contra  suas deformações ou desvios. “O gesto pelo gesto”, a luta pela luta etc., e especialmente o individualismo tacanho e mesquinho, que não passa de uma satisfação caprichosa de impulsos momentâneos etc. (Na realidade, o ponto é sempre o do "apoliticismo" italiano, que assume estas várias formas pitorescas e bizarras). 

O individualismo é apenas apoliticismo animalesco; o sectarismo é "apoliticismo" e se bem observado, de fato, o sectarismo é uma forma de "clientela" pessoal, em que falta o espírito de partido, que é o elemento fundamental do "espírito estatal". A demonstração de que o espírito de partido é o elemento fundamental do espírito estatal é um dos mais célebres pressupostos a ser sustentado, e da maior importância; e vice-versa, posto que o "individualismo" é um elemento animalesco, "admirado pelos forasteiros", tais como os atos dos habitantes de um jardim zoológico.

*Antonio Gramsci (1891-1937) Caderno 15 – Cadernos do Cárcere, p.322, v.3. 3ª Edição, 2007. Editora Civilização Brasileira.

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