sexta-feira, 17 de julho de 2026

Lula se cercou de passado para vender o futuro, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Última campanha eleitoral do presidente começará na Vila Euclides, no lugar onde iniciou sua trajetória política

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma contradição. Prestes a completar 81 anos em 27 de outubro, dois dias após o segundo turno das eleições, ele já tem a retórica contra o etarismo: “Tenho compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, tem reiterado. Mas o desafio vai além: implica pregar o futuro e vender esperança aos brasileiros após quatro décadas de vida pública, três mandatos presidenciais e alta rejeição.

A mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (14), mostrou que 50% dos entrevistados conhecem e não votariam em Lula. Este dado atesta o cansaço de metade do eleitorado com o líder petista. Porém, mesmo diante desse obstáculo, o presidente decidiu caminhar rumo ao quarto mandato embalado de passado. Eis o paradoxo.

Os principais coordenadores da campanha lulista são quadros que o acompanham há mais de 40 anos, desde a fundação do PT, e que participaram dos mandatos anteriores, como o ex-ministro Gilberto Carvalho, responsável pela agenda; o ex-presidente do Sebrae Paulo Okamotto, que cuida dos comitês regionais e das redes sociais; o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que elabora o programa de governo; o ex-prefeito de Diadema José de Filippi Júnior, tesoureiro.

Um aliado observou à coluna que Lula restringiu o círculo de pessoas autorizadas a orbitarem no seu entorno, principalmente, após os 580 dias em que ficou preso nas dependências da Polícia Federal em Curitiba (PR). Desde então, ele tem guardado na memória os nomes de quem permaneceu do seu lado nos dias amargos. A nova geração é minoria no time, com destaque para o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), o ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT) e a vereadora e pré-candidata a deputada federal Luna Zarattini - quadro da novíssima geração do PT, ela se elegeu em 2024, com mais de 100 mil votos, ficando entre os dez mais votados para a Câmara Municipal de São Paulo.

Outro aceno ao passado é a escolha do estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), para o lançamento da campanha em 16 de agosto. Segundo uma fonte do PT, Lula quer começar a última campanha eleitoral no lugar onde iniciou sua trajetória política.

A Vila Euclides é o cenário de imagens icônicas do jovem líder sindical. No dia 13 de março de 1979, Lula liderou a histórica assembleia dos metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano. Naquela data, cerca de 60 mil trabalhadores ocuparam o gramado e as arquibancadas para ouvir o colega de fábrica.

Sem palanque ou sistema de som, ele subiu sobre uma mesa de escritório, com um megafone à mão. As palavras dele eram repetidas em coro pelos mais próximos, e repassadas até chegar aos que estavam atrás. Sob forte repressão e intervenção do governo nos sindicatos, a meta era obter 78,1% de reajuste. Ao fim, alcançou-se 63%. Foi a maior conquista salarial daquele período.

Nesse contexto, no entanto, um dado da última Quaest chamou a atenção. Foi a primeira rodada em que a aprovação do governo Lula superou a desaprovação, desde dezembro de 2024. Essa reação foi puxada, justamente, pelos eleitores mais jovens, de 16 a 34 anos. Nessa faixa etária, a aprovação ao governo cresceu cinco pontos percentuais, de 43% para 48%.

Contemplar esse público é, especialmente, desafiador, a começar pela taxa de desemprego. Entre jovens de 18 a 24 anos, ela é de 13,8% - mais que o dobro da média nacional, que é de 5,8%. Entre adolescentes de 14 a 17 anos, chega a 25,1%. Além disso, é a geração que rejeita a CLT.

Luna Zarattini disse à coluna que Lula “se aproxima da juventude e aponta o Brasil do futuro quando aborda os problemas reais da vida do jovem”. Ela cita como exemplo a defesa do fim da escala de trabalho 6x1, porque “o jovem quer trabalho decente”, e a criação de oportunidades na educação com os Institutos Federais. “O presidente sabe que a democracia sem a participação da juventude é incompleta. As pesquisas recentes mostram que os posicionamentos políticos firmes do presidente seja em relação a avanços nos direitos ou na defesa da democracia e soberania contra a intervenção dos EUA demonstram para juventude o projeto de Brasil que defendemos”, afirmou.

Outro aliado considera equivocado interpretar a escolha da Vila Euclides para lançamento da campanha como uma aposta no passado. Trata-se, segundo ele, de apostar na emoção como fator de decisão do voto. Ele convidou a coluna a imaginar a cena. Com a voz embargada, Lula se voltará à multidão presente para afirmar que, após 47 anos de vida pública e três mandatos de presidente, sempre comprometido com a democracia, ele vem pedir o voto e a confiança dos brasileiros pela última vez para que possa completar o seu legado.

Se em 1979, Lula falou para 60 mil pessoas na Vila Euclides, o público do lançamento da última campanha lulista deverá girar em torno de 15 mil, capacidade máxima do local. No passado, as multidões também ocuparam as ruas no entorno do estádio.

Sem dúvida, Lula tem o direito de resgatar sua história para dialogar com o presente. Errado será criar um museu de velhas novidades.

 

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