O Globo
Senador simula indignação com medida de
Trump, mas pesquisa mostra que só 30% acreditam em sua versão sobre ataque
americano
Depois de um mês de ameaças, o governo
americano baixou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. O secretário
Marco Rubio não disfarçou o teor político da medida. Num tuíte pouco
diplomático, atacou o presidente Lula e disse que ele teria colocado “o próprio
ego” à frente das negociações.
É curioso um subordinado de Donald Trump criticar o ego alheio, mas o pior ficou para as justificativas. A Casa Branca voltou a reclamar do Pix, de decisões judiciais que contrariaram big techs e até do desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade nos últimos três anos.
O trumpismo tem um projeto. Quer restaurar o
poder de mando sobre a América do Sul, numa versão reciclada da Doutrina
Monroe. Nos últimos anos, sete países da região elegeram presidentes de direita
ou extrema direita alinhados ao republicano. O Brasil é o próximo terreno dessa
batalha.
Desde o tarifaço de 2025, o Itamaraty se
empenhava em aparar arestas e distensionar as relações com os Estados Unidos. O
esforço culminou na visita de Lula a Trump, no início de maio. Passados dois
meses, a alardeada química entre os dois presidentes evaporou. Quem quiser
entender a mudança deve observar os movimentos recentes de Flávio Bolsonaro.
O candidato do PL fez promessas em série ao
governo americano. Em público, acenou com acesso privilegiado a terras-raras,
tarifa zero sobre o etanol e até uma “equipe de transição” para anotar pedidos
da Casa Branca. Talvez seja preciso esperar pela divulgação de documentos
reservados, daqui a algumas décadas, para saber o que ele barganhou em privado.
O estrago para a economia brasileira já está
contratado. A questão é saber quem o eleitor vai responsabilizar pelos
prejuízos. Na primeira rodada de sobretaxas, Lula empunhou a bandeira da
soberania e se recuperou nas pesquisas. O movimento pode se repetir com o novo
tarifaço, abrindo mais uma frente de desgaste para Flávio.
Ontem o senador ensaiou uma cambalhota
discursiva para tentar se descolar do amigo americano. Em vídeo divulgado nas
redes, fingiu espancar a tela e bradou que a culpa era de Lula, e não dele. A
julgar pelos números da Quaest, apenas 30% dos eleitores parecem dispostos a
acreditar nesse teatro.

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