quarta-feira, 1 de julho de 2026

Mãos e olhar que salvam, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

É impossível olhar para uma das maiores tragédias a golpear a América do Sul e não sentir empatia pelos venezuelanos.

Imagine estar em casa e ser surpreendido por dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9). Você e sua família conseguem sair pouco antes de seu lar desabar, levando não apenas os bens materiais, mas também sonhos, planos e memórias. De repente, você está na rua, sem comida, sem dinheiro e sem saber como refazer sua vida. Ainda assim, sente-se sortudo demais: seus vizinhos morreram, alguns amigos estão desaparecidos e você ainda consegue abraçar e beijar sua esposa/marido e seus filhos. Agora, tudo o que mais deseja é ajudar e ser ajudado.

É impossível olhar para uma das maiores tragédias a golpear a América do Sul e não sentir empatia pelos venezuelanos. Quem não consegue ou é desprovido de coração ou é egoísta demais para se preocupar com o próximo. Nos últimos dias, uma corrente de solidariedade expôs o que há de mais nobre no ser humano. Na quinta-feira, antes de o estado litorâneo de La Guaira — o mais afetado pela catástrofe — ser militarizado, milhares de venezuelanos deixaram Caracas e se dirigiram à região com doações e nada mais do que as mãos prontas para remover escombros.

A comunidade internacional também deu uma prova de irmandade e de compaixão com uma nação que atravessa uma crise política e econômica sem precedentes. Equipes de socorristas e toneladas de mantimentos saíram de Turquia, Jordânia, Brasil, El Salvador e México, em uma união de esforços para salvar vidas. Especialistas levaram à Venezuela cães farejadores, perfuradores e outros equipamentos capazes de vasculhar escombros.

As redes sociais transformaram-se em um impressionante serviço de utilidade pública. Por meio delas, fotografias de desaparecidos e telefones de contatos de familiares se espalham, assim como pedidos de doação de sangue ou de mobilização de voluntários. Nesse ambiente virtual, pessoas também informam sobre paradeiros de moradores das regiões afetadas.

Além dessa corrente poderosa de solidariedade, é preciso que diferenças ideológicas sejam deixadas de lado. Os Estados Unidos precisam suspender imediatamente todas as sanções financeiras aplicadas a Caracas. Não se trata mais de diplomacia, mas de humanidade. O governo de Donald Trump precisa entender que qualquer medida capaz de asfixiar a economia será como que mais uma pedra sobre os escombros da Venezuela.

Levantem todas as sanções, apoiem os venezuelanos de todas as maneiras possíveis, reforcem o envio de ajuda humanitária. Vocês capturaram Nicolás Maduro, venderam esperança para o povo venezuelano. Agora, têm a obrigação moral de socorrer uma nação castigada por uma catástrofe histórica. Neste momento, tudo o que é importa são mãos e olhar que salvam. Empatia em primeiro lugar.

 

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