segunda-feira, 27 de julho de 2026

Milei na convenção, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A falta de pudor da rede de apoiadores da internacional trumpista pode ajudar Lula

A convenção que lançou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência pelo PL, neste sábado, escancarou a falta de rumo de sua campanha. Os discursos e as participações especiais consagraram a aposta no antipetismo e na evocação da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas falharam em ocultar a falta de brilho pessoal daquele que deveria ser o protagonista do evento, ou seja, o candidato Flávio.

Em um discurso curto, o senador recorreu a dois temas centrais: o mito da perseguição política a Jair e o PT como culpado por todos os males da sociedade brasileira. Mas suas falas tiveram pouca repercussão, ofuscadas que foram pela participação do presidente argentino Javier Milei – que falou praticamente as mesmas coisas, mas com mais “stamina” (como diria o americano Donald Trump), e roubou as atenções.

Não que Milei ajude Flávio Bolsonaro em alguma coisa. Antipetismo e antibolsonarismo são as maiores forças políticas do país atualmente. Para vencer a eleição, ele precisa dos votos do centro ou, numa definição mais precisa, dos independentes. A convenção do PL não o aproximou nem um milímetro desses eleitores. Ao contrário, só afastou, marcada que foi pela figura de um argentino debochado metendo-se em assuntos internos do Brasil, com direito a ofensas contra autoridades do Executivo e do Judiciário.

O episódio deu mais munição para Lula usar em sua retórica de defesa da soberania nacional. Pode-se não gostar da gestão do presidente petista e pode-se criticar a atuação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, mas vídeo de apoio de premiê israelense e discurso frenético do hermano ultralibertário, como se viu na convenção de Flávio, só pegam bem junto aos já convertidos.

Não que Lula seja inocente nessa história de não influenciar as escolhas políticas dos povos de outras nações. Em 2012, por exemplo, a campanha pela reeleição de Hugo Chávez, na Venezuela, contou com o marketing político de João Santana, por indicação de Lula, que não escondia sua preferência pela continuidade do chavismo no país vizinho. Mas, no caso das eleições deste ano no Brasil, a falta de pudores da rede de apoios da internacional trumpista pode acabar ajudando o petista.

Algo vai mal quando o melhor que uma candidatura à Presidência pode fazer é explorar o apoio de líderes estrangeiros e o carisma de um líder que só pode aparecer em imagens geradas por inteligência artificial.

 

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