O Estado de S. Paulo
Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro
Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro. Liberal ou conservadora ou mesmo uma mescla dos dois, ela não pode permanecer apenas tributária do antipetismo ou das vicissitudes erráticas do bolsonarismo em geral. Tudo indica, aliás, que o potencial eleitoral deste último está se esgotando, não sendo uma alternativa viável ao governo Lula. Suas fórmulas só capturam a adesão dos convertidos. O Brasil precisa de algo novo.
A esquerda lulo-petista já deu o que tinha de
dar. Governa o País há mais de 18 anos e sempre atribui aos outros os seus
fracassos ou o que não consegue fazer.
O País só cresce moderadamente, o problema
fiscal e da dívida pública está ganhando contornos dramáticos, a inflação é
controlada com dificuldades e os juros altos estão asfixiando a economia
brasileira. O que não entrega, porém, para o bem do País, esbanja em discursos
de cunho eleitoral, ancorados em uma polarização nociva, como se o nosso
destino se jogasse no “nós contra eles”, como se fossem os petistas a incorporação
do bem em sua cruzada contra o mal: a direita.
Dito isto, as chances de reeleição do atual
presidente são fortes, não apenas por gastos bilionários para a captura de
eleitores, criando nichos específicos de uma clientela própria, como a do Bolsa
Família e a de outros projetos assistencialistas, mas, sobretudo, pela ausência
de alternativas. O candidato de oposição mais forte, Flávio Bolsonaro, devido
ao seu próprio comportamento, já se encontra em clara desvantagem em pesquisas
eleitorais, tendo perdido o seu ímpeto inicial. Não está conseguindo recuperar
as intenções de voto perdidas. E isso por razões que se devem única e
exclusivamente a ele.
Suas relações com Daniel Vorcaro são
simplesmente escandalosas, avaliadas em milhões, com desculpas que não se
sustentam em pé. Nem seu partido consegue mais seguilo integralmente. Suas
relações conflituosas com sua madrasta Michelle Bolsonaro vieram a público e
escancararam uma disputa aparentemente sem solução.
Em vez de evitar que isso acontecesse,
terminou por radicalizar e enfrentá-la, alienando, assim, um eleitorado
feminino e evangélico vital para sua ambição eleitoral. Como se não bastasse,
surge uma foto sua com Sicário, um meliante a serviço das atividades criminosas
de Daniel Vorcaro. Além disso, volta a “questionar” as urnas eletrônicas. E não
estamos livres de novas surpresas.
Tudo sinaliza para a sua derrota, o
antipetismo não sendo um instrumento suficiente para uma eventual vitória sua.
Acontece, e aí está o problema, que a família Bolsonaro não abdica de um
controle total sobre a herança eleitoral do ex-presidente.
Tudo, segundo eles, deve se resolver dentro
do clã, de sangue, excluindo, então, Michelle Bolsonaro como se não fosse
família, apenas “esposa”. O despropósito é total. E nenhum de seus membros tem
a estatura requerida para uma candidatura presidencial. Entretanto, convém
assinalar, o cálculo bolsonarista é extremamente arriscado, pois se perseverar
nessa atitude, o clã amargará uma derrota eleitoral, que afetará diretamente a
própria família. Flávio Bolsonaro ficará sem mandato e Jair Bolsonaro
continuará na prisão por tempo indeterminado. O bom senso reclamaria uma
composição com outros candidatos de direita, renunciando à cabeça de chapa.
O bolsonarismo já está implodindo, com
Michelle Bolsonaro e a senadora Damares Alves demarcando suas posições de olho
no futuro. A antiga unidade em torno do ex-presidente quebrou. Torna-se
necessário, inclusive, para este agrupamento político-ideológico, uma porta de
saída, que poderia vir na forma de uma união da direita tendo a
ex-primeira-dama na posição de vice. Negociações certamente pressuporiam, entre
outras medidas, o estabelecimento de uma pauta conservadora-liberal e em uma
anistia a Jair Bolsonaro. Embora os prazos sejam agora curtos, ainda há tempo.
Os outros candidatos da direita, ou um deles,
poderiam fazer parte deste tipo de composição eleitoral em nome do País.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos seriam figuras proeminentes neste
processo, sem descartar uma função que poderia igualmente ser preenchida pelo
ex-presidente Temer. Deveria haver abnegação e renúncia a paixões secundárias.
Há, sim, espaço eleitoral para uma terceira via, mas parece não haver vontade
política de trilhá-la. Deveria ela passar por um programa que proporia as
medidas mais urgentes de reforma do País, seus gargalos mais relevantes,
programa esse que deveria também levar em conta as profundas transformações
geopolíticas, científicas e tecnológicas em curso no mundo.
Se nada for feito, as futuras gerações
pagarão o preço da inação atual. E do movimento bolsonarista exigiria uma
grandeza no abandono dos interesses familiares e das pequenas rivalidades
pessoais e partidárias em proveito de algo muito maior: o Brasil.
*Professor de filosofia na UFRGS.

Este colunista ajuda a compor o grupo de formadores de opinião de arquibancada. São mais torcedores que analistas de contextos. Neste texto, ainda se supera sendo mais um engenheiro de obra pronta, dentre os vários. Enfim.
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