quarta-feira, 8 de julho de 2026

Não é só sobre futebol, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Ao vergar-se a Trump, a Fifa apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia.

Revoltou-me muito mais a ingerência do presidente norte-americano, Donald Trump, na Copa do Mundo do que a pífia — e merecida (cabe dizer) — eliminação do Brasil de Neymar Jr. e seus asseclas. Pior do que o "pedido" do titular da Casa Branca pela "revisão" do cartão vermelho dado a Folarin Bolagun, atacante dos Estados Unidos, foi a aquiescência da Fifa. Na verdade, uma excrescência.

Ao vergar-se a Trump, a entidade máxima do futebol apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia. Um chefe de Estado que não enxerga um palmo além de seu umbigo e que pediu à própria Fifa para lhe dar um "Nobel da Paz". Supresa nenhuma, Gianni Infantino providenciou o tal prêmio.

Durante a Copa do Mundo, Trump impôs restrições vergonhosas à permanência da seleção do Irã em território norte-americano e impediu a entrada de um árbitro da Somália. De quebra, o ICE — a famigerada polícia de Imigração dos Estados Unidos — promoveu uma verdadeira caçada aos imigrantes não documentados, aproveitando-se do fato de que muitos latinos apoiariam seu escrete nacional nos estádios de futebol. Em cinco dias, foram mais de 10 mil prisões.

A interferência nas regras da Copa do Mundo apenas diz algo a mais sobre Trump. Em quase 18 meses no poder, ele declarou guerra tarifária ao mundo e menosprezou aliados históricos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Entrou em uma guerra contra o Irã e amargou uma derrota vexaminosa. Ordenou uma operação militar na Venezuela, capturou Nicolás Maduro e não apresentou alternativa ao chavismo, deixando a população "ao deus-dará". Ameaçou atacar o México. No cenário interno, semeia polarização, cizânia e ódio e é cortejado por supremacistas brancos, que foram até Washington para o Dia da Independência, no sábado. Uma festa transformada em culto à imagem do egocêntrico Trump.

Assusta o fato de que faltam 927 dias de governo Trump. Em 899 dias, ele causou danos ao planeta. Há quem diga que o próximo alvo do americano é o regime socialista de Cuba. Tudo o que vai contra a ideologia capitalista parece estar na mira do Tio Sam. Existe o temor, inclusive, de que Trump interfira nas eleições brasileiras e ordene alguma ação militar contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Adendo: os EUA sofreram uma goleada da Bélgica, pelas oitavas de final da Copa. Perderam por 4 a 1 e estão eliminados do torneio. Trump está de mãos atadas. Não poderá anular três gols, nem se quisesse. Vai precisar ficar com sua empáfia e com a vergonha por tentar interferir em uma Copa da qual sua seleção jamais teria a mínima chance de ser campeã.

 

 

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