quinta-feira, 2 de julho de 2026

O cálculo de Michelle na mira do gabinete do ódio, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ex-primeira-dama investe em imagem de liderança que foi além do sobrenome e cavou seu próprio espaço

Ao repudiar, num jogo combinado, o libelo medieval de Paulo Figueiredo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marchou para preservar alguma chance numa disputa em que o voto das mulheres predomina. A dúvida é se será suficiente. Não apenas para destronar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também para evitar a fagocitose do espólio bolsonarista.

Desde 2018, o bolsonarismo tornou-se o vetor da direita. O que Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama estão a fazer é a fratura não apenas deste campo mas do próprio bolsonarismo. Superaram as desavenças do pós-lulismo com o esgarçamento antecipado do pós-bolsonarismo. E, como é do seu feitio, pelas redes sociais.

Michelle escolheu suas armas. Deixou a presidência do PL Mulher mas não abandonou os planos de fazer bancada no PL. Ameaça os próprios enteados na disputa pelo espólio do ex-presidente com um discurso de quem foi além do sobrenome ao enfrentar o machismo.

O marido, de cujo sobrenome não pode abrir mão, ainda não escolheu o lado. Se o fez, não tem como anunciá-lo, a não ser por porta-vozes enviesados. Como prisioneiro, não pode se pronunciar, a não ser que venha a ser autorizada uma entrevista - hipótese remota durante a campanha. Como está casado e em prisão domiciliar, é Michelle quem, por ora, detém a guarda.

Em 2022, a então primeira-dama já tinha sinalizado a estratégia que agora aprofunda. Naquele ano, duas ministras do governo Bolsonaro postulavam a única vaga pelo Senado no Distrito Federal, Damares Alves e Flávia Arruda. Derrotada em sua tentativa de fazer o marido apoiar Damares, não entrou na campanha à reeleição no primeiro turno. Deixou para fazê-lo apenas no segundo, depois de eleger sua aliada, pelo Republicanos.

Não se desviou da rota. Foi a presidente do PL Mulher SC e sua aliada de primeira hora, a deputada estadual do PL de Santa Catarina, Ana Campagnolo, quem liderou o movimento contrário ao alijamento da deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) da disputa pelo Senado. Como Carlos Bolsonaro não arredou o pé da transferência de seu domicílio eleitoral do Rio para Santa Catarina, sobrou para o senador Esperidião Amin (União-SC), que perdeu o apoio da família em sua campanha à reeleição.

A estratégia de Michelle ainda embute uma ofensiva tão agressiva quanto a dos enteados, só que muito mais cifrada. Horas antes da veiculação do vídeo-bomba, mandou um sinalizador para Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama publicou nas redes sociais, numa modalidade em que as publicações somem em 24 horas, foto com “pessoas mais que especiais” em que está Martha Seillier, economista, ex-diretora do BID e mãe de uma criança cuja paternidade foi assumida por Carlos Bolsonaro.

Ao investir na cisão com os enteados, Michelle estará a cavar um destino semelhante àquele da ex-deputada Joice Hasselmann, relegada ao esquecimento? Tudo pode acontecer, mas há três diferenças: (ainda) é casada com Bolsonaro, tem seu grupo político dentro do PL e conta com o apoio do presidente do partido.

Valdemar Costa Neto equilibra-se em suas declarações, mas deixa digitais em todo lugar. Há menos de dois anos, foi obrigado a criar a Secretaria de Relações Internacionais do PL para abrigar o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e suas pretensões de protagonismo no partido. Semanas atrás, no auge da repercussão dos indícios de que o financiamento do Master para o filme “Dark Horse” embutia caixa 2 para a campanha de Flávio, declarou publicamente que o fundo eleitoral não seria suficiente para bancar as candidaturas do partido nos Estados.

Foi além. Franqueou condições para a ex-primeira-dama recrutar pré-candidaturas de mulheres evangélicas, negras e de periferia à Câmara. E, finalmente, extinguiu o cargo de presidente do PL Mulher como se estivesse a homenagear uma insubstituível Michelle.

A reação à ex-primeira-dama é comandada por uma estrutura que mimetiza, no exterior, o “Gabinete do Ódio” que funcionou no Palácio do Planalto durante o governo Jair Bolsonaro. Com integrantes espalhados pela Austrália, Polônia e EUA, investe na estratégia de mudar o foco quando se faz necessário. Não é uma investida ideológica mas utilitária da pauta.

Jogaram os holofotes no “feminismo marxista” porque precisavam tirar o foco colocado por Michelle nos palanques estaduais, simbolizado pelo Ceará, para que as chapas possam ser montadas sob menos pressão. Agora Flávio Bolsonaro se dissociou do mulher-não-sabe-votar e investe no todo-poder-às-mulheres para correr atrás do prejuízo.

Parece improvável que o gabinete do ódio foragido aposte, de fato, na transposição do movimento americano que pretende acabar com o voto feminino para um país em que as periferias são tomadas por mulheres que começam a trabalhar cedo e tornam-se responsáveis pelo sustento de suas famílias quando abandonadas ou ameaçadas.

A alternância de pauta que, ao longo da última década, teve como alvo principal o PT agora se volta para sua própria disputa interna. Com adversários em fagocitose, a campanha petista joga parada, o que não significa que tenha caminho desimpedido até outubro. O pior que pode acontecer para Lula é que sobreviva Michelle. É de direita a primeira liderança feminina da política nacional nascida na periferia.

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