O Globo
A crise do PL se aprofunda, a briga dos
Bolsonaro escala, e as ofensas às mulheres pioram tudo. PSD tenta virar opção e
Lula pode ser beneficiado pelo fim da guerra
A escolha do PSD de fazer uma chapa puro-sangue, com o presidente do partido Gilberto Kassab como candidato a vice de Ronaldo Caiado, se deve principalmente à falta de opção. Eles tentaram atrair o PP e o União Brasil e não foi possível. Informações do próprio PSD são de que ouviram nos dois partidos que a tendência seria o apoio ao presidente Lula. A legenda vê a pré-campanha de Flávio Bolsonaro em apuros, avalia que a crise vai se aprofundar e que, portanto, há a possibilidade de crescimento de candidatura alternativa da direita. A aposta continua sendo no prestígio de Ronaldo Caiado como gestor, atestado pelos altos índices de aprovação.
A três meses das eleições, o cenário está em
movimento. Lula tem conseguido manter a dianteira em relação a Flávio Bolsonaro
em todas as pesquisas, mas as próximas consultas à opinião pública poderão
informar melhor de que forma a campanha à reeleição foi atingida pelo episódio
envolvendo o líder do governo no Senado Jaques Wagner, no caso Master.
Os comentários de dirigentes partidários são
de que estaria havendo o desembarque de lideranças políticas e evangélicas da
candidatura de Flávio Bolsonaro e não apenas pelo affair Dark Horse. A
pré-candidatura tem sido atingida pelo temor de que ainda haja muito mais a ser
revelado. Além disso, o desentendimento com Michelle está afastando lideranças
femininas e evangélicos. A demora e tibieza da reação de Flávio Bolsonaro ao
grotesco vídeo de Paulo Figueiredo ofenderam até mulheres da política
fortemente identificadas com o bolsonarismo.
Afinal, o neto do último ditador, amigo
íntimo de Eduardo e Flávio Bolsonaro, falou que mulheres “estatisticamente” não
sabem votar, que as casadas acompanham os votos dos maridos. Paulo Figueiredo
no vídeo se aproxima da campanha pelo fim do voto feminino que avança na
ultradireita dos Estados Unidos e, no final da fala, usa uma expressão chula
para dizer que não se importa que as mulheres reclamem. É um nível neandertal
de misoginia.
A reação de Flávio Bolsonaro demorou dias e
veio primeiro através de uma nota da assessoria. Na esvaziada reunião de ontem
com as mulheres do PL, o pré-candidato, de novo, não foi convincente. A briga
familiar-partidária com a madrasta poderia ser contornada, se houvesse uma boa
estratégia, mas está escalando. Eles estão todos detonando pontes. Não é
definitivamente um bom momento para os Bolsonaro.
O presidente Lula vê a redução da pressão na
economia, que havia sido provocada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã.
O petróleo volta a visitar patamares de preços de antes do início do conflito.
Ontem mesmo fechou em US$ 71,13. Essa volta das cotações está permitindo o
início da retirada dos subsídios com os quais o governo tentou atenuar o efeito
da guerra na inflação.
Não é apenas uma conta aritmética. Tem muito
mais envolvido. Os preços do petróleo nos patamares de US$ 100 estavam
contratando uma crise de grandes proporções. O subsídio teria que ser maior
para tentar evitar alta mais forte da inflação. Com o índice pressionado, a
queda da taxa de juros é muito mais difícil. Os preços dos fertilizantes e a
falta de insumos agrícolas estrangularia o agronegócio na hora do plantio.
Quando a guerra começou, o Brasil tinha
plantado a sua safra e pôde esperar. Mas se a contenda passasse de julho seria
difícil. O que os economistas que acompanham o assunto dizem é que, em agosto,
o Brasil precisará dos fertilizantes para serem distribuídos no máximo até
outubro e assim garantir a próxima safra. Se o cenário fosse o de continuidade
da falta de produtos ou de sobrepreço haveria uma disparada de preços dos
alimentos, antecipando-se à escassez. Esse cenário de restrição e tensão
previsto para o segundo semestre na economia está se dissipando por causa do
acordo entre Estados Unidos e Irã e da retomada do tráfego no Estreito de
Ormuz. Por outro lado, o
governo calcula que arrecadará ao todo R$ 40 bilhões a mais pela alta das
receitas do petróleo durante o primeiro semestre.
Há, contudo, outros riscos à candidatura de
Lula que ele precisará administrar. A disparada de gastos eleitoreiros está
erodindo apoios de setores independentes e também minando a capacidade de
realização de um bom governo a partir do ano que vem, caso seja reeleito. Nem
tudo é campanha. O vitorioso terá um país altamente endividado e com muitas
demandas para administrar.

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