quarta-feira, 29 de julho de 2026

O elogio a uma ditadura, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O promotor Gakiya deixou claro o que significa o modelo de El Salvador na Segurança Pública

Candidatos à Presidência da República à procura do voto de quem se sente inseguro no Brasil têm espalhado uma ideia: copiar o modelo de combate ao crime do salvadorenho Nayib Bukele, que governa há cinco anos seu país em estado de exceção. Bukele é um ditador como seu vizinho, o nicaraguense Daniel Ortega.

A lacração e o populismo que o vê como solução pouco se importam com a razão de Donald Trump nunca ter adotado tal modelo para os EUA, embora o defenda para os latino-americanos. Washington não chama a máfia americana de terrorista ou defende bombardear Little Italy. Mas a famiglia Gambino não vive no Rio. Afinal, por que americanos não podem ser mortos ou encarcerados sem acusação ou direito à defesa?

A bukelização da Segurança Pública é uma ameaça às liberdades, que só é possível com a instalação de uma ditadura no Brasil. É o que disse o promotor Lincoln Gakiya. Ameaçado de morte pelo PCC, ele afirmou isso em painel do Brasil Adiante, evento do Estadão. Gakiya deixou claro aquilo que pessoas que se dizem liberais fingem não entender. Ele esteve em El Salvador e conheceu o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), o megapresídio de Bukele.

Eis seu testemunho: “Uma unidade prisional com 40 mil presos é a receita certa para você criar ali um barril de pólvora, que vai explodir”. São Paulo teve durante 50 anos um barril de pólvora chamado Casa de Detenção. Chegou a abrigar 7 mil presos e serviu de palco para o massacre no Carandiru, o que provocou a criação do PCC.

Sem ela, a facção não teria se expandido para todo o sistema.

“É claro que você vai baixar a criminalidade. Mas a que preço? E quando seu filho, seu vizinho e amigo forem presos sem julgamento? No mês passado houve um julgamento coletivo em El Salvador: 300 pessoas foram julgadas. Não precisa de defesa; todos já estão condenados, e o cumprimento de pena se dá em condições medievais.”

Gakiya se insere na tradição de outro integrante do Ministério Público: Hélio Bicudo, que lutou contra o Esquadrão da Morte, o crime organizado dos anos 1960. Bicudo deixou seu depoimento em livro. Após o que viu em El Salvador, Gakiya não tem dúvida: não há bukelização sem ditadura e a comparou à China. O problema não é prender bandidos, mas como.

Ninguém discorda de que Marcola, Beira-Mar e os ladrões de celular devem pagar. Assim como os envolvidos com o Banco Master. Mas a ideologia extremista sempre pensa ter solução para tudo. Primo Levi dizia que lhe agradava mais o papel de testemunha do que o de juiz. Assim era Bicudo. Assim é Gakiya. Eles testemunham... Enfim, quantas testemunhas mais serão necessárias no século 21?

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