O Estado de S. Paulo
Sem amigos sinceros, capazes de nos criticar,
apertamos parafusos sem saber quando parar
Guardem a ideia de que, para melhorar, por vezes chegamos ao excesso que coloca tudo a perder
Seu Walter veio instalar um filtro na parede da minha cozinha. A peça cilíndrica encaixa-se diretamente e deve ser girada até que a rosca fique bem vedada. Estava perto do fim da tarefa. Seria bom dar uma última volta para garantir vedação absoluta. É zelo. É prudência. Meia volta a mais e… tudo se estragou. Foi excessivo. A água jorrou. A tentativa de chegar à perfeição estragou tudo. A história foi real e ocorreu na minha cozinha, na Rua Cotoxó, bairro da Pompeia, em São Paulo.
Guardem a ideia de que, para melhorar, por
vezes chegamos ao excesso que coloca tudo a perder. Dei aula para uma simpática
senhora. Em determinado momento, ela decidiu fazer um preenchimento. Lábios
maiores, mais carnudos, costumam ser atributos de beleza. E lá foi ela. Surgiu
mais “labiosa”, abundante, e com um toque novo de vitalidade. Olhávamos... e
ela parecia melhor. Depois percebíamos o pequeno intumescimento da moldura da
boca. Foi elogiada. Animou-se. Decidiu dar mais “uma volta” no parafuso da estética.
Meses depois do primeiro passo do projeto, apareceu com um preenchimento mais
generoso. Já pipocavam olhares negativos. Por fim, no semestre seguinte, a
vontade de melhoria a fez “perder a mão”. O resultado foi considerado um
desastre pela maioria. Surgiu algo estranho no rosto. Parecia sempre que ela
fazia um enorme bico para mandar um beijo permanente aos habitantes da galáxia.
A boca chegava antes. A melhoria discreta a animou e pareceu fazer-lhe perder a
prudência. Todos conhecemos alguém que “perdeu a mão” com plásticas, acessórios
de carros, relógios ou silicones. O entusiasmo produz uma cegueira.
É muito importante ter um médico honesto e um
amigo sincero no seu círculo. O primeiro impõe limites ao próprio lucro com
procedimentos. O segundo é verdadeiro no olhar e diz diretamente que você
ultrapassou uma fronteira. Os dois me ajudam a escapar da quase universal
tendência de todo rei Lear que busca elogios fáceis: a falta de noção. O rei
shakespeariano confiava em adulações de filhas falsas. Desejava-as. Perdeu
tudo: o amor da única filha verdadei-* ra, o trono, os olhos e a razão. “Ficou
velho antes de ficar sábio”, como constatou seu bobo da corte.
O pior, minha querida leitora e meu estimado
leitor, é que nunca teremos certeza de que temos condições de uma volta extra
no parafuso do destino. Uma volta a menos e tudo fica frouxo. Uma volta a mais
e tudo arrebenta. Como saber? No mínimo, tendo amigos sinceros e fiéis, capazes
de me criticar com força, buscando meu bem. Quem não os possui fica apertando
parafusos sem saber quando parar. A sinceridade dos inimigos existe para me
destruir. A dos íntimos deseja meu equilíbrio e minha felicidade. Tenha bons
amigos, consulte médicos equilibrados, aperte parafusos com prudência, cuide-se
para não perder a sensatez. Entenda que o barro no carro indica que a trilha
foi uma aventura, como deve ser sua vida. Tudo aquilo que vivemos é imperfeito.
Carros reluzentes sempre indicam que ninguém os usou de verdade.
O equilíbrio nasce de um olhar analítico
sincero sobre si mesmo. Há outro dado: reconhecer o limite. Os japoneses
identificam o conceito de “wabi-sabi”: a beleza suave do que não é perfeito, a
aceitação da impermanência, a apreciação de uma beleza rústica sincera. Há
outro conceito admirável na terra do Sol Nascente: “kintsugi”. Trata-se, por
exemplo, de restaurar uma porcelana estilhaçada com ouro, fazendo da
“gambiarra” um resultado ainda melhor do que o original. O quebrado vira algo
superior. É uma lição de vida. Os dois conceitos mostram que a perfeição é um
ideal regulador, mas devemos aprender a lidar com limites e trabalhar com o
real. Coloque “kintsugi” no seu buscador, selecione imagens e faça essa
reflexão. A vontade de restaurar, de não perder o que foi partido, acaba
resultando em um item único e especial. Antes, era uma xícara bela e comum a
muitas outras. Nas fraturas, surge o objeto único. A peça deixa de ser
industrial e se torna biográfica.
Tudo merece ser restaurado com ouro? Depende
de muitos fatores, e ninguém pode indicar um manual de valor absoluto.
Relações, por exemplo, possuem fronteiras que, ultrapassadas, implicam reflexão
sobre uma segunda chance. Na minha visão, exclusivamente minha, a violência
física é um território que, uma vez atingido, torna complexo prosseguir. E a
traição? E a violência verbal? Daí entramos no caleidoscópio subjetivo em que
cada um deve refletir por si. Jamais conseguiria aconselhar alguém.
Mais radical do que os nipônicos, o Prêmio
Nobel Sully Prudhomme (1839-1907) escreveu Le Vase Brisé (O Vaso Partido), indicando
que mesmo o vaso de cristal, depois de rachado, não pode mais ser tocado (Il
est brisé, n’y touchez pas: está quebrado, não lhe toqueis). Consertar ou
descartar? O kintsugi japonês ou o vaso intocável de Prudhomme? Minha esperança
é que tenhamos consciência dos nossos limites e identifiquemos os motivos para
estar com uma pessoa. Se você não fizer isso, há chance de continuar aceitando
cacos cerâmicos em outra relação.
*LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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