Agenda de austeridade é bem-vinda no Rio
Por O Globo
Governador interino propõe enxugar máquina,
sanear finanças e impor regras fiscais próprias
São sensatas e bem-vindas as medidas de austeridade defendidas pelo governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em entrevista ao GLOBO. O estado, frequentador assíduo de programas de recuperação fiscal, aderiu recentemente ao Propag, socorro federal a entes endividados. Certamente isso trará alívio necessário às contas estaduais. Mas a situação hoje é crítica. O Orçamento deste ano prevê um rombo de R$ 19,5 bilhões. São questão de bom senso o saneamento das finanças e o enxugamento da máquina pública promovidos por Couto.
Presidente do Tribunal de Justiça do Rio, ele
assumiu o governo depois da renúncia do então governador Cláudio Castro (PL),
ante as vacâncias do vice-governador Thiago Pampolha (nomeado para o Tribunal
de Contas do Estado) e do então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo
Bacellar, afastado (depois preso) sob acusação de ligação com o crime
organizado. Enquanto a intrincada sucessão no Rio está sob análise do Supremo
Tribunal Federal, que ainda decidirá sobre o mandato-tampão até a posse do novo
governador eleito em outubro, Couto faz bem em agir. Não há tempo a perder
diante das mazelas do estado.
A meta é cortar R$ 5 bilhões em despesas até
o fim do ano. Ele também defende, por sugestão do secretário de Fazenda,
Guilherme Mercês, a instauração de uma norma de responsabilidade fiscal própria
para o Rio, como já fazem outros estados. É positiva também a ideia de rever
contratos onerosos. Couto diz ter ficado estarrecido com os gastos. Cita a
restauração do teleférico do Morro do Alemão, sob investigação, o fretamento da
aeronave para uso exclusivo do governador e a contratação de 220 mil câmeras de
segurança.
A redução da máquina pública é fundamental
diante do descontrole. Couto diz que seu projeto é ficar com 22 ou 23
secretarias, em vez das atuais 35. É evidente o inchaço no serviço público
fluminense. Uma auditoria na folha do funcionalismo constatou situações inaceitáveis.
Em todos os órgãos da administração foram detectados funcionários que recebiam
sem trabalhar, os proverbiais funcionários fantasmas. Até o momento foram
exonerados 4.283 em cargos de comissão, ou 30% do total de 14.340. As
exonerações deverão, segundo ele, chegar a 6 mil. As secretarias funcionavam
como feudos de políticos. “A visão precisa ser técnica, com menos politização”,
diz Couto. “É preciso trazer servidores sem concurso público apenas quando há
necessidade efetiva, sem comprometer a ideia de estado prestacional — e
retirando a lógica de nomear quem não presta serviço.”
A profusão de secretarias, para acomodar
aliados, não tem se refletido em serviço melhor para a população. Ao contrário.
Chama a atenção que o Rio, segundo PIB da Federação, fique tão mal colocado em
rankings nacionais. No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
(Ideb), ocupava o penúltimo lugar, à frente apenas do Rio Grande do Norte. Em
vez de melhorar a qualidade do ensino, optou por facilitar a aprovação, na esperança
de aumentar artificialmente a nota. O percentual de alunos do ensino médio em
tempo integral também decepciona: o Rio ocupa o 20º lugar entre os 27 estados.
A situação da educação se espelha também em áreas como transportes, saúde ou
segurança. Para obter recursos e investir no que é necessário, é fundamental
acabar com o desperdício.
Não têm cabimento férias escolares durante
Copa do Mundo feminina
Por O Globo
Em 2014, não houve aulas em dias de jogo nas
cidades-sede ou quando o Brasil entrava em campo
É descabido o trecho da lei sobre a Copa do
Mundo feminina determinando férias escolares durante todo o evento, entre 24 de
junho e 25 de julho do ano que vem. Encaminhado pelo governo, o projeto para
atender a demandas da Fifa foi aprovado pelo Senado em maio e sancionado pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado.
Executivo e Legislativo deveriam ter
aprendido com a Copa do Mundo de 2014. Na época, uma lei determinou ajuste
semelhante nos calendários escolares, mas, em seguida, um parecer do Conselho
Nacional de Educação deu
autonomia às escolas e às redes de ensino para decidir o que fazer. Nas
cidades-sede em que houve atividade escolar durante o torneio, os alunos foram
liberados nos horários ou dias dos jogos do Brasil e das partidas jogadas no
local. O mesmo princípio deveria valer no ano que vem.
Períodos de férias representam sempre um
desafio. Não apenas para crianças menores, que exigem mais atenção, mas também
para as que têm mais autonomia e não devem ser deixadas sem supervisão adulta.
Pais e mães sofrem com mudanças no calendário escolar. É necessário refazer
arranjos já estabelecidos com parentes ou cuidadores e alterar planos. Em
alguns estados, como o Rio, não é comum haver férias extensas no meio do ano. O
recesso costuma durar entre dez dias e três semanas. Se durar mais, pode ser
necessário repor aulas aos sábados ou em períodos em que as crianças e jovens
costumam estar fora da escola. De um jeito ou de outro, há estresse para
famílias e estudantes.
“Antecipar ou prorrogar o calendário escolar
é sempre muito custoso para as redes. Além dos problemas da escola, as famílias
precisariam se ajustar. Ninguém combinou com os empregadores”, disse ao GLOBO
Felipe Michel Braga, presidente do Fórum Nacional de Conselhos Estaduais e
Distrital de Educação. “Quem vai ficar com as crianças nesse período? E o Enem?
É no fim do ano para que os alunos tenham todos os conteúdos do 3º ano. Será
adiado?”
A Fifa tem razão em se preocupar com a
logística dos torneios que organiza. Na última Copa do Mundo feminina, na
Austrália e na Nova Zelândia em 2023, a taxa de ocupação nos estádios durante
as 64 partidas chegou a 87%, próxima à média de 100% da atual competição
masculina. Na final vencida pela Espanha, todos os 75.784 ingressos foram
vendidos. O fluxo de turistas, porém, foi pequeno. De acordo com o governo australiano,
86.654 estrangeiros vieram para o torneio, uma fração em comparação aos números
projetados para Estados Unidos, Canadá e México neste ano.
Não há razão para supor um fluxo gigantesco no ano que vem. A preocupação com aeroportos lotados e trânsito parado é exagerada. O Brasil tem plenas condições de organizar uma Copa do Mundo feminina que bata novos recordes de público, sem atrapalhar estudantes e seus familiares.
'Papagaiada' e hipocrisia eleitoral
Por Folha de S. Paulo
Lula debocha de restrições a campanhas, de
fato um tanto irrealistas, mas monitora publicações de governo
Troca de acusações com Flávio mobilizará o
TSE; petista pode acionar muito mais recursos e políticas públicas, como
Bolsonaro fez em 2022
Em seus arroubos retóricos diários, Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
já mostrou mais de uma vez seu desdém pelas restrições legais a atos de
campanha eleitoral fora dos prazos fixados.
Ainda no distante 2006, quando se preparava
para buscar a reeleição pela primeira vez e era questionado por suas viagens em
série pelo país, disse que um homem público faz campanha "da hora em que
acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano".
Bem mais recentemente, na semana passada, qualificou
de "papagaiada desgraçada" a norma que proíbe
candidatos de comparecer a inaugurações de obras públicas nos três meses que
precedem o pleito —vale dizer, o artigo 77 da lei 9.504, de 1997.
Não se pode negar que há base empírica no
deboche de Lula, já calejado por seis disputas presidenciais e rumo à sétima
—sem contar a de 2018, quando foi barrado por estar condenado e preso. Há, de
fato, um tanto de detalhismo, paternalismo e irrealismo na legislação eleitoral
brasileira, que, não por acaso, ora é driblada com desenvoltura, ora gera
punições controversas.
Pelo sim, pelo não, o petista deixa as
bravatas para os discursos e trata de se precaver nos atos de governo. Como
noticiou a Folha, o Palácio do Planalto passou a monitorar com
maior rigor as manifestações de autoridades e encarregou a
Advocacia-Geral da União (AGU) de
verificar o teor de postagens de ministros em redes sociais envolvendo o
presidente.
Até anúncios e reportagens antigas foram
retirados de páginas digitais de pastas e da Empresa Brasil de Comunicação
(EBC), estatal de mídia que não é reconhecida pela audiência nem pela
independência editorial.
Ao que parece, as nuances da legislação serão
exploradas com frequência inaudita neste ano. Levantamentos preliminares
indicam que o PT e o PL, de Flávio
Bolsonaro, já entupiram o Tribunal Superior Eleitoral de
representações no primeiro semestre.
A judicialização se faz acompanhar da
hipocrisia. Afinal, pode-se questionar tanto a presença de Lula num desfile de
escola de samba em sua homenagem, no mês de fevereiro, quanto a de
Flávio em ato na avenida Paulista contra o governo e o Supremo Tribunal Federal
(STF),
em 1º de março.
Os dois políticos têm pretensões óbvias, e
todos os seus atos miram o mesmo objetivo —Lula, com a máquina federal na mão,
pode mobilizar muito mais recursos e políticas públicas, como o pai de Flávio
fez à farta em 2022. No entanto ainda são apenas pré-candidatos e não podem
pedir votos abertamente. A propaganda
eleitoral só começa oficialmente em 16 de agosto.
A lei pode ser revista em prol de mais
flexibilidade e realismo, além de novas questões, como o uso da inteligência
artificial para exaltar uns e caluniar outros. Isso não exime candidatos,
pré-candidatos ou protocandidatos de agir com autocontenção e respeito à gestão
pública, mesmo porque não se pode ludibriar o eleitor por tempo indeterminado.
O mito militar na educação
Por Folha de S. Paulo
Escolas ligadas às Forças ou às PMs vão bem
no Enem, mas selecionam alunos e têm mais verbas
A melhora do aprendizado se dará com alocação
técnica e racional dos recursos, não com atuação disciplinar de militares nas
escolas
O debate em torno da aplicação da disciplina
da caserna na educação brasileira
ganhou força quando Jair
Bolsonaro (PL) criou, no seu primeiro
ano de governo, o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares —revogado por
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
em 2023.
Desde lá, o bom desempenho dos alunos de
escolas vinculadas diretamente às Forças
Armadas ou às Polícias Militares em avaliações de aprendizagem
tem sido usado como argumento em defesa do modelo cívico-militar (escolas da
rede estadual e municipal em que atuam militares, em geral da reserva).
Trata-se, contudo, de justificativa
superficial. A disciplina rígida da formação militar não é o fator, ao menos
não o principal, que explica resultados exitosos dessas instituições de ensino.
Segundo levantamento realizado pela Folha,
das 30 escolas públicas com as maiores notas no Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem)
de 2025, 12 são
militares, 16 são escolas de aplicação (vinculadas a
universidades federais ou estaduais), duas são técnicas e todas contam com
processo seletivo dos alunos.
Peneirar os estudantes produz melhores
indicadores de aprendizagem, mas não é só isso que eleva a qualidade do ensino.
Escolas militares e de aplicação têm
financiamento diferenciado, o que impacta infraestrutura,
qualificação de professores e quantidade de profissionais.
As verbas das primeiras vêm da Defesa e são
executadas pela Força correspondente, ou de arranjos entre secretarias de
Educação e de Segurança no caso dos colégios ligados às PMs; pode haver, ainda,
contribuições das famílias.
Já os recursos das segundas fazem parte dos
orçamentos das universidades públicas. Escolas de aplicação funcionam como
laboratório pedagógico para formação de professores, estágio de licenciandos,
pesquisa em educação e extensão universitária.
Mesmo assim, a abordagem cívico-militar se
expande pelo país. O número de unidades de ensino sob esse modelo saltou de 265
em 2019 para 1.578 em 2026, segundo pesquisa da USP deste
ano. Pior ainda, o que seria uma opção educacional tem restringido o acesso ao
modelo regular.
Em Cuiabá,
por exemplo, 71,8% das matrículas do ensino médio estão em escolas
militarizadas; em 60
municípios, a cifra chega a 100% em ao menos uma etapa da
educação básica.
Governantes precisam aprender a lição. A melhora do aprendizado se dará com alocação técnica e racional dos recursos, não com atuação disciplinar de militares nas escolas.
Desmoralização institucional
Por O Estado de S. Paulo
Ao cobrar de presidentes de tribunais o
cumprimento de um teto que ele mesmo derrubou, o STF expõe a hipocrisia de uma
Corte que se julga imune à Constituição que deveria fazer cumprir
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Alexandre de Moraes ameaçou os presidentes de sete Tribunais de Justiça –
Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte
e Rondônia – com afastamento do cargo, além de responsabilização penal, civil e
disciplinar, caso não comprovem que o pagamento de penduricalhos autorizados
por eles entre abril e julho deste ano respeitou o teto constitucional.
Recuperado o fôlego, o leitor decerto poderá se perguntar: mas a que teto se
refere Sua Excelência? Porque o próprio STF, lembremos, desmoralizou aquele que
a Constituição define em português legível no artigo 37, inciso XI.
Em março, usurpando uma competência do
Legislativo, o plenário do STF criou parâmetros para o pagamento das chamadas
“verbas indenizatórias” que, na prática, elevaram o limite remuneratório dos
servidores do Judiciário e do Ministério Público de R$ 46,4 mil, correspondente
ao salário dos ministros da Corte, para até R$ 78,8 mil. Ou seja, o STF
transformou em piso o que os constituintes definiram como teto da remuneração
de todo o funcionalismo público. Além de inconstitucional, a decisão foi
acintosa.
Três meses depois, sob as brumas do
julgamento virtual – do qual já tratamos nesta página (ver editorial É assim que nascem os privilégios,
1/7/2026) –, os ministros Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e
Gilmar Mendes, seguidos por quase toda a Corte, flexibilizaram ainda mais essas
regras, em resposta a embargos de declaração interpostos pelas guildas das
categorias. Não é de espantar, portanto, que tribunais País afora tenham olhado
para o descalabro praticado em Brasília e se sentido à vontade para seguir
ignorando a Constituição e reclassificando comarcas e funções a fim de
justificar o pagamento de penduricalhos que extrapolam, e muito, o teto de R$
46,4 mil.
Para piorar, ninguém menos que o corregedor
nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, o guardião da moralidade interna
do Judiciário, deu de ombros para o STF e autorizou o pagamento retroativo, com
juros e correção monetária, do famigerado quinquênio, extinto em 2006. Nada
poderia ilustrar melhor o desmoronamento institucional do Judiciário
brasileiro. Supostos passivos acumulados por 20 anos, corrigidos, significarão
para muitos magistrados um prêmio de loteria. Malgrado o sr. Campbell não ter
apontado o custo da benesse, um cálculo do Tribunal de Contas da União (TCU),
feito em 2023, já estimava que a conta passará fácil da casa do bilhão de
reais.
Aqui é preciso separar as coisas. A revolta
de parcela cada vez maior da sociedade brasileira com o Judiciário não decorre
de decisões judiciais legítimas, das quais se pode discordar, mas sempre têm de
ser respeitadas. Decorre, isto sim, da constatação de que o Judiciário, desde a
cúpula, simplesmente se colocou acima das leis e dos demais cidadãos e criou
para si um regime de exceção remuneratória imune ao texto claro da Constituição
e ao escrutínio público, aos quais os outros Poderes estão sujeitos nesta
república.
Ao ameaçar presidentes de tribunais com a
destituição do cargo por suposto descumprimento de um teto de que o próprio
Supremo fez letra morta, os ministros, deliberadamente, ignoram sua parcela de
responsabilidade por essa desmoralização.
Esse comportamento antirrepublicano, é
forçoso dizer, tem um preço que vai muito além do buraco nos cofres públicos.
Cada penduricalho autorizado ao arrepio da Constituição, cada laje nesse teto
reinventado, cada retroativo bilionário autorizado à socapa alimenta o discurso
de aventureiros que prometem purgar o País de uma vez. Não é retórica. O risco
é real para as instituições republicanas. Se o Supremo não consegue respeitar o
que está escrito na Lei Maior e não impõe limites ao próprio Judiciário e ao
Ministério Público, por que a sociedade não acreditaria que terceiros podem
fazê-lo por outros meios?
Este jornal não crê que seja isso o que Suas
Excelências pretendem. Mas a tibieza do Supremo para cumprir sua missão
precípua não deixa margem para dúvida de que um ambiente favorável à disrupção
está criado.
Renúncia fiscal sem explicação
Por O Estado de S. Paulo
Ao recorrer a argumentos tão mambembes para
defender o aumento do teto do MEI, governo Lula aceita arcar com rombo de R$
8,1 bi e corre o risco de ter de engolir o reajuste do Simples
O governo enviou ao Legislativo um projeto de
lei complementar para elevar o limite do faturamento anual para enquadramento
no programa Microempreendedor Individual (MEI) dos atuais R$ 81 mil anuais para
R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. A proposta embute uma renúncia fiscal
de R$ 8,1 bilhões nos próximos três anos, uma perda considerável, mas que o
governo diz ser capaz de absorver.
O texto é bastante semelhante a outro que
tramita na Câmara, já aprovado pelo Senado, mas a principal diferença entre
eles é que o do Legislativo, além de reajustar o teto do MEI, aumenta os
limites do Simples Nacional, algo que geraria uma perda bem maior, da ordem de
R$ 50 bilhões.
A essa altura, um acordo parece improvável, e
o assunto deve ser retomado somente após o fim do recesso parlamentar. Impedir
que esse rombo se materialize já seria bastante difícil para um governo que não
conta com maioria no Legislativo, especialmente em um ano eleitoral. Mas, para
piorar, os argumentos do Executivo para defender a aprovação de seu projeto são
frágeis e só desmoralizam suas pretensas preocupações fiscais.
Impressiona a facilidade com que o governo
aceita abrir mão de receitas quando o projeto é de sua autoria. O ministro do
Empreendedorismo, Paulo Pereira, afirmou ao Estadão que “não tem
renúncia fiscal porque é uma recomposição inflacionária”.
Já a exposição de motivos da proposta,
assinada no dia 23 de junho pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda,
Rogério Ceron, apresenta o impacto orçamentário, mas não detalha medidas para
compensar essas perdas, amparada no fato de que basta incluir a renúncia no
Orçamento dos próximos anos para que a medida não seja inconstitucional,
segundo a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
É improvável que o governo consiga vencer a
disputa recorrendo a esse tipo de justificativa, que só exacerba o uso de dois
pesos e duas medidas quando se trata de gasto público. Ora, não faz nem três
anos que o Executivo recorreu a esses mesmos dispositivos da LRF para embasar o
veto presidencial de Lula ao projeto de lei que estendia a desoneração da folha
de pagamento a 17 setores da economia.
E não se completou nem um mês desde que o
ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em jogada
aparentemente combinada com o governo, apresentou uma proposta de súmula
vinculante para proibir leis e atos que criem despesas ou concedam benefícios
fiscais sem estimativa de impacto orçamentário e financeiro ou sem a indicação
de medidas compensatórias.
O alvo da súmula, obviamente, é o Congresso,
de quem o governo se queixa por aprovar subsídios e abocanhar parte do Orçamento
por meio de emendas parlamentares. De fato, o ônus do eventual descumprimento
da meta fiscal fica apenas para o Executivo, mas seu discurso cai por terra
toda vez que suas práticas escancaram tanta incoerência.
Estudo do economista Rogério Nagamine,
publicado pelo Observatório de Política Fiscal da Fundação Getulio Vargas (FGV)
no ano passado, estimava o déficit atuarial do MEI em R$ 1,9 trilhão nas
próximas sete décadas. Isso se deve ao fato de que a contribuição dos
microempresários para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) corresponde
a apenas 5% do salário mínimo, bem menor que a patronal e a dos empregados
celetistas.
O governo, no entanto, não fez qualquer
menção ao impacto que o aumento do limite causará na Previdência Social.
Questionado pelo jornal Valor,
o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, por sua vez, disse que o
reajuste do MEI é uma questão de justiça social. “É melhor ele pagar 5% do que
não pagar nada”, afirmou.
Passados tantos anos de sua criação, está
claro que o MEI nem de longe cumpriu os objetivos a que se propunha, como a
redução da informalidade e a ampliação da cobertura previdenciária, mas seu
custo-benefício é cada vez mais questionado. Se o governo tivesse algum juízo,
deveria propor a reestruturação do regime ou, no mínimo, elevar a contribuição
dos microempreendedores. Compactuar com um teto ainda maior, e com argumentos
tão mambembes, só aumenta a chance de ter de engolir o reajuste do Simples.
TST e a lei da marra
Por O Estado de S. Paulo
Sem base legal, tribunal multa empresa por
não ter nenhuma mulher em cargo de chefia
A Terceira Turma do Tribunal Superior do
Trabalho (TST) condenou a fabricante de colchões Ortobom ao pagamento de uma indenização
por danos morais coletivos no valor de R$ 300 mil. A infração da empresa,
segundo a mais alta instância da Justiça do Trabalho, foi não ter promovido
nenhuma mulher para ocupar seus 22 cargos de gerência e 2 de subgerência na
unidade fabril de Arapongas, no norte do Paraná.
Ao ajuizar a ação civil pública, o Ministério
Público do Trabalho (MPT) argumentou que houve discriminação de gênero e
violação do princípio da igualdade. De recurso em recurso, o caso chegou a
Brasília, onde o relator no TST, ministro Alberto Balazeiro, achou por bem não
só manter a condenação, como também apresentar seus argumentos – criativos, por
sinal.
É óbvio que a sociedade brasileira espera que
as empresas, assim como os órgãos públicos, tenham mais mulheres em postos estratégicos.
Para isso, além de mudanças culturais, existem leis como a de igualdade
salarial e políticas públicas de valorização da força de trabalho feminina,
como a proteção da maternidade. Mas não será à base da canetada do Judiciário
que a sociedade será transformada.
Balazeiro foi bastante convincente, sendo
seguido por unanimidade pelos colegas – todos homens. Ele destacou que “há a
ausência completa de mulheres em posições gerenciais sem explicação objetiva
plausível, em cenário no qual se esperaria diversidade compatível com a
presença feminina na força de trabalho e com os deveres de igualdade material
impostos pelo sistema jurídico”. Afirmou que, segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), a população de Arapongas é formada, em sua
maioria, por mulheres (51,4%). E defendeu a aplicação da Resolução 492/23 do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que inova ao instituir o julgamento com
“perspectiva de gênero” – que exige que juízes, ao tomar suas decisões,
reconheçam as desigualdades históricas e as relações de poder entre homens e
mulheres.
Não se sabe quais são os diplomas legais que
exigem das empresas uma “explicação objetiva plausível” sobre seus critérios de
promoção, que autorizam a adoção de critérios demográficos como fundamentos
jurídicos e que transformam resoluções de conselhos em leis. Nada disso
encontra amparo em legislação que tenha sido discutida e aprovada no Congresso,
tratando-se de uma intervenção indevida do Judiciário na iniciativa privada.
São flagrantes as inconstitucionalidades, a começar pela violação do princípio
da livre iniciativa, que, ao lado do valor social do trabalho, é um dos
fundamentos da República.
Antes de cobrar das empresas privadas o fim da desigualdade entre homens e mulheres, sem que isso esteja amparado nas leis, o TST deveria observar o que acontece dentro do próprio tribunal, onde, dos 26 atuais ministros, apenas 7 são mulheres – e apenas uma delas presidiu a corte.
Escassez de diesel se agrava com conflitos
com Irã e Ucrânia
Por Valor Econômico
O Brasil provavelmente terá de reexaminar o
plano de suspender o subsídio a venda do diesel para evitar a disparada de
preços
As bombas voltaram a cair no Oriente Médio,
com militares dos EUA realizando 90 ataques na infraestrutura do Irã na
quarta-feira, enquanto os iranianos lançavam drones e mísseis em bases
americanas de Catar, Bahrein e Kuwait. A origem da retomada dos conflitos foi a
decisão do regime dos aiatolás de atacar navios petroleiros na segunda-feira,
porque não seguiram a rota por ele designada. É impossível prever se a guerra
será retomada com força total ou se o episódio é mais um de uma longa série de
uma trégua mal negociada e ambígua. Há certeza, porém, de que o tráfego no
Estreito de Ormuz, que escoa 20% do petróleo e gás natural do mundo, foi
interrompido sem ter ao menos voltado a seu fluxo normal em nenhum momento
desde 28 de fevereiro, quando o presidente Donald Trump deu início a uma
aventura militar irresponsável, que agora não sabe como acabar.
A interrupção de Ormuz encontra a economia
global com estoques de petróleo baixos, consumidos para suprir a demanda nos
meses de guerra aberta. As cotações do Brent caíram ontem para US$ 75 o barril,
refletindo expectativas que olham para o passado e que indicam que aos EUA não
interessa o recrudescimento do confronto, enquanto as declarações contraditórias
de Trump sancionam tanto ataques devastadores como a continuação das conversas.
Trump está acuado por eleições de meio de mandato que podem torná-lo um
presidente sem poderes se os democratas tomarem o controle de Câmara e do
Senado, e não tem boas opções para escapar da armadilha em que se meteu. Os
mercados, por enquanto, refreiam apostas de que o estrangulamento da oferta se
prolongará muito e as cotações finalmente explodirão.
O aumento da escassez é um fato óbvio,
agravado agora pelos dissabores enfrentados por outro presidente autoritário
metido em uma guerra de mais de quatro anos, sem fim à vista: o russo Vladimir
Putin — e sua invasão da Ucrânia. A Ucrânia bombardeou desde abril as 10
maiores refinarias de petróleo do segundo maior produtor mundial de óleo e
diesel. Em junho, o governo russo começou a limitar vendas de gasolina, e na
quarta-feira suspendeu as exportações de diesel. O diesel é vital para a
agricultura, a indústria, parte do transporte terrestre de mercadorias e, no
caso russo, para o vital abastecimento de tanques e veículos militares em suas
linhas em solo ucraniano.
O gargalo da oferta agora se estreitou ainda
mais. Embora as cotações do petróleo bruto tenham recuado para a casa dos US$
70 o barril após 17 de junho, quando foi assinado o memorando de entendimento
entre EUA e Irã, as cotações do diesel permaneceram nas alturas, em US$ 135 o
barril (FT, ontem). O anúncio da suspensão das exportações russas elevou as
cotações em 13% na quarta-feira.
A saída da Rússia do mercado global de diesel
causará mais problemas ao Brasil, o maior cliente russo, que, em 2025, importou
cerca de 64% do total exportado pelo país. As dificuldades de garantir o
abastecimento levaram Moscou a reduzir exportações do derivado em maio, e em
junho o Brasil buscou ampliar as compras dos EUA e da Índia. Entretanto, a
maior disputa pelo produto tende a sustentar os preços. A Europa, que teve seu
abastecimento de energia severamente comprometido após a invasão da Ucrânia, e
que foi buscar novos mercados para escapar da dependência russa, terá seu
fornecimento abalado pela demanda de mais países por um diesel mais escasso.
Ao subsidiar a venda do diesel e planejar
suspendê-la logo, o Brasil terá de reexaminar a questão e provavelmente manter
os incentivos para evitar a disparada de preços. Problemas com o diesel se
somam a outros que tendem a encarecer a oferta de alimentos da próxima safra, a
ser plantada agora, como o da alta dos preços dos fertilizantes, que o FMI
calcula em 26% após a eclosão do conflito. O El Niño, que deverá ser forte,
pode acrescentar outro item nas desventuras em série que podem se abater sobre
a agricultura brasileira nos próximos meses.
Os esforços bélicos da Ucrânia estão
conseguindo reduzir o papel da Rússia do mapa do fornecimento global, e não só
de diesel. O governo de Kiev calcula que sua ofensiva contra refinarias cortou
43% da oferta russa de derivados e petróleo cru. Analistas privados têm
cálculos que variam de 20% a 40%, de qualquer forma quantias suficientes para
abalar ainda mais a equação da oferta global. Além disso, em três dias, o
governo ucraniano diz ter atacado 21 navios tanques russos e 19 navios da frota
fantasma que transporta óleo russo.
Um acordo para por fim ao conflito não está próximo. O ataque arbitrário e improvisado ao Irã fortaleceu a linha dura do regime, que agora exige na mesa de negociações o que nunca teve em tempos de paz: o controle do Estreito de Ormuz. Navios foram atacados na segunda-feira por não seguirem as “disposições” do regime ditatorial iraniano, que incluem no futuro, ao que tudo indica, cobrança de pedágio na rota do estreito. Até agora, ao que parece, não houve um único avanço no entendimento após um memorando que permitiu ao Irã fazer mais exigências e conseguir abrir parte do cerco que os EUA lhe impuseram.
Quando o lar vira perigo
Por Correio Braziliense
Comemorar as duas décadas do Estatuto da
Criança e do Adolescente exige honestidade para admitir o abismo entre o texto
da lei e a dinâmica da realidade
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
completa 20 anos na próxima segunda-feira. Dois casos recentes mostram que ele
ainda está longe de cumprir o que se propunha. No Rio Grande do Sul, um menino
de 3 anos morreu espancado pelo pai por não dar "bom dia" para a
família. No Paraná, uma menina foi chutada pelo próprio pai numa calçada, à luz
do dia, diante de quem passava. As imagens tomaram conta do noticiário — e
deveriam tomar conta da consciência do país.
Há casos que não pedem análise imediata.
Pedem silêncio primeiro. Não são metáforas, não são estatísticas. São crianças
com nome, com rosto e com a infelicidade de terem nascido na casa errada. Só
depois do peso disso assentar é que cabe perguntar: como chegamos aqui depois
de 20 anos de lei, e por que continuamos chegando?
Dados do Ministério dos Direitos Humanos
destroem qualquer ilusão de que o perigo esteja exclusivamente das portas para
fora. O verdadeiro risco, para milhares de crianças, dorme no quarto ao lado. A
casa onde residem vítima e agressor segue sendo o principal palco das
ocorrências. As meninas formam a maioria das vítimas, e a faixa etária mais
castigada concentra-se entre os 4 e 8 anos — a fase de maior dependência física
e emocional. Esse perfil não minimiza a incidência em outras idades, mas
cristaliza a lógica da agressão doméstica: a exploração da assimetria de forças
dentro de um ambiente fechado ao escrutínio público.
Comemorar as duas décadas do ECA exige
honestidade para admitir o abismo entre o texto da lei e a dinâmica da
realidade. O Brasil tem um arcabouço jurídico rigoroso na teoria, mas opera com
grave deficit de execução na prática. A rede de proteção formada por conselhos
tutelares, assistência social, escolas e polícias trabalha asfixiada pela falta
de estrutura e coordenação. O resultado é um Estado reativo, que quase sempre
chega tarde demais, acionado apenas quando a violência já produziu danos
permanentes ou tragédias que estampam o noticiário.
Romper esse ciclo exige o abandono da
indignação passageira e a adoção de posturas pragmáticas. O Estado precisa
intervir de forma imediata à menor evidência de abuso, superando travas
burocráticas para cessar o risco iminente. É preciso sepultar a premissa de que
a família é uma entidade inviolável mesmo quando sua dinâmica interna se
converte em instrumento de agressão. O direito à privacidade dos pais termina
exatamente onde começa a violação da integridade de uma criança.
A sociedade civil precisa assumir sua cota de vigilância. Calar-se diante de sinais no apartamento vizinho ou ignorar hematomas em uma criança sob a desculpa de "não se meter em briga de família" deixou de ser discrição para se tornar cumplicidade. Enquanto o Estado for leniente na fiscalização e o cidadão omisso na denúncia, o ECA continuará sendo o que não deveria ser: uma lei que existe no papel e chega tarde demais na vida real.
O atoleiro de Trump
Por O Povo (CE)
A ofensiva americana criou um problema
inexistente antes do conflito, a liberdade de navegação do estreito de Ormuz
O cessar-fogo de 60 dias, acertado entre os
Estados Unidos e o Irã, período no qual seria negociado o fim da guerra entre
os dois países, foi rompido no seu vigésimo segundo dia de vigência.
Na quarta-feira (8/7), os EUA lançaram novos
bombardeios contra o Irã, após o presidente americano, Donald Trump, ter
afirmado que iria atingir o país persa "com força".
Como sempre acontece em casos assim, um lado
acusa o outro de ter rompido o acordo e recomeçado os ataques. Segundo os
Estados Unidos, os iranianos teriam atacado embarcações comerciais no estreito
de Ormuz. Para Teerã, os EUA haviam feito ataques militares primeiro.
O fato é que prevaleceram as análises mais
pessimistas daqueles especialistas no assunto, que apontaram a fragilidade do
Memorando de Entendimento. O documento foi assinado no dia 16 de junho, 108
dias após o início do conflito, que já matou mais de dez mil pessoas, a maioria
no Irã e no Líbano.
Donald Trump imaginava que uma intervenção
rápida desmontaria o governo dos aiatolás. Sua percepção contrariava a análise
praticamente unânime de especialistas no assunto e, possivelmente, de pessoas
de sua própria equipe, com mais juízo e mais experiência em relações
internacionais.
Talvez o modelo ao qual Trump quis seguir, ao
atacar o Irã, foi o da Venezuela. Mas esqueceu-se de considerar as grandes
diferenças entre um país e outro, principalmente na forma como cada governo se
organiza.
Chegou-se a um impasse que pode levar ao
prolongamento da guerra em um conflito de baixa intensidade, no qual as escaramuças
continuam, sem que nenhum lado consiga derrotar o oponente. Uma situação assim
pode perdurar por anos seguidos, como aconteceu no Iraque, por exemplo.
A alternativa à continuidade do conflito
seria os países voltarem à mesa de negociação, pois não interessa a nenhum dos
lados a continuidade do conflito. Mas, para isso, seria preciso encontrar uma
saída para que ambas as partes possam dizer que saíram vitoriosas do confronto.
Para Trump isso é mais difícil pois, no
máximo, o que ele poderia conseguir seria voltar a uma situação pré-guerra, sem
grandes avanços nas propostas que motivaram os ataques, como frear programa
nuclear e derrubar o regime teocrático iranano.
Além do mais, a ofensiva americana criou um
problema inexistente antes do conflito, a liberdade de navegação do estreito de
Ormuz que, mesmo com o fim do conflito, tende a continuar sob o controle do
Irã.
Em resumo, Trump meteu-se em atoleiro do qual tem imensa dificuldade de sair sem arranhões. E, pior, a inconsequência de seu ato levou o prejuízo a alastrar-se por todo o mundo.

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