sexta-feira, 10 de julho de 2026

Lições da Copa, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão

Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores. No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.

A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.

Tudo é feito para nos dividir, a começar da política e dos poderes. É uma de nossas características antropológicas de nascimento. Mero ajuntamento de escravidões em nome de uma iníqua concepção de riqueza e de acumulação de riqueza, estamos divididos e separados por essas escravidões que não terminam nem se supera. Mesmo onde ela já não existe está lá, na mentalidade que persiste e insiste. Não sabemos lidar e vivenciar a liberdade possível, o direito que deveria assegurá-la. Somos vítimas de nossas conquistas, que supomos grandes mesmo quando as apequenamos.

Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, antropologicamente diz: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Rosa colheu concepções populares sobre a vida nas situações mais inesperadas da realidade brasileira. De “Os sertões”, de Euclides da Cunha, incorporou a lógica dos jagunços e sertanejos, carregada de certezas indecisas, nas respostas aos interrogatórios truculentos de oficiais do Exército. “E eu, sei?”

Foi contestação frequente nas perguntas baseadas unicamente em pressupostos militares, como se as vítimas fossem de teóricos da guerra. Como a jagunça que, após essa resposta a um oficial, foi ali mesmo degolada à vista do próprio Euclides da Cunha.

Resposta de quem está no meio da travessia, nem na saída de um partir nunca nem na chegada de um nunca chegar. A síntese de Riobaldo é sociológica e explicativa do que não somos, sendo para não ser. A realidade é processo, movimento, mesmo no caminhar calculado, como numa partida de futebol.

O único brasileiro jogador de futebol que ganhou sempre e sempre se superou foi Pelé. Começou adolescente, jogando pelo Santos, no primeiro estádio brasileiro de futebol, num jogo em Paranapiacaba, no Alto da Serra, em São Paulo, com o apelido de “Gasolina”, porque era preto.

Venceu o racismo e os racismos. Ganhou vida própria, com identidade própria. Diferentemente do que tantos fizeram, os que se entregaram às tentações fáceis da fama e do dinheiro, superou-se cada dia e todos os dias.

Foi ministro do governo FHC. Fez parte da equipe do governo em visita oficial à Inglaterra. A rainha cumprimentou protocolarmente o presidente brasileiro e, antes de cumprimentar os ministros, perguntou: “Onde está o famoso Pelé?”.

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão. Porque as verdadeiras vitórias do povo brasileiro, e são muitas, nos vários campos de atividade e da vida, são de todos nós. Mas desde criancinhas somos ensinados que são dos outros, dos que mandam e dos que podem. Somos um povo que está sempre devendo favores a quem tem poder de mandar e de enganar.

O futebol foi uma das poucas sobras de êxitos possíveis, que capturamos, aperfeiçoando a cópia, no futebol de várzea. Cada terreno baldio, em todas as regiões, foi ocupado como lugar de afirmação identitária de uma prática em que se ganha podendo perder.

Aprendemos a ganhar, mas não a perder. Temos dificuldade para compreender que perder é parte constitutiva do ganhar. Se não há a possibilidade de perder, não há a possibilidade do futebol. Como de nenhum outro esporte.

A única versão do futebol em que só se podia ganhar ocorreu entre os índios Terena. Um aluno de pós-graduação em antropologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, decidiu fazer seu mestrado sobre essa população indígena.

Entre os apetrechos de seu equipamento levou uma bola de futebol, para mostrar o uso aos anfitriões. Ensinou-lhes a jogar, organizou dois times. Para sua surpresa, os 22 índios dos dois times não se enfrentavam, jogavam juntos. O adversário era a bola, contra a qual todos jogavam. Ela era a caça. Ali o futebol era impossível porque sociedade desprovida da concepção de competição, de vitória e de derrota. A bola perdeu.

Fico pensando no monumental Mané Garrincha, um índio fulni-ô, de Pernambuco. Fala-se muito no seu futebol desconcertante. Desconcertante por quê? Muito provavelmente porque Garrincha jogava futebol, um esporte inglês, com “sotaque” terena, lógica terena. O adversário não podia entender-lhe o jogo.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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