É preocupante cobertura vacinal global insuficiente
Por O Globo
Brasil tem se recuperado nos últimos anos,
mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes
São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.
Para além dos percentuais, é importante ter a
dimensão do problema a partir de números absolutos. Em 2025, um total de 13,5
milhões de crianças não recebeu nem uma dose de vacinação, ante 12,8 milhões em
2019. Cerca de 21 milhões de crianças não tomaram a primeira dose contra o
sarampo. Eram aproximadamente 19 milhões há sete anos. A cobertura foi, em
2025, de 84%, insuficiente para prevenir surtos. Isso se explica em parte pelo
crescimento populacional e também por dificuldades de acesso a serviços de
saúde em diferentes partes do mundo.
Em várias outras vacinas, os percentuais
continuam evoluindo e, mesmo que os níveis de cobertura em 2019 tenham sido
ultrapassados, ainda se encontram muito distantes do ideal. No caso do HPV, a
primeira dose para meninas chegou a 33% do público-alvo, bastante acima dos 17%
da cobertura antes da pandemia, embora muito distante da meta de 90%.
Pelas pesquisas, utilizando como parâmetro a
Tríplice Bacteriana, a América Latina e o Caribe, com 82% de cobertura das três
doses, tiveram uma forte recuperação, 3 pontos percentuais acima dos 79% de
2019, mas ainda distante da meta de 90%.
Há muitas dificuldades para os agentes de
saúde no Oriente Médio e no Norte da África, onde os 83% de cobertura da DTP
representaram um avanço, e mesmo assim ficaram 6 pontos percentuais aquém do
patamar de 2019. As barreiras são as mesmas na África Ocidental e Central, em
que apenas 71% da população está vacinada, o nível mais baixo verificado na
região. Esses dados demonstram como conflitos armados e insegurança
generalizada afetam a saúde de populações.
No território da Palestina e particularmente
Gaza, por serem áreas conflagradas, a imunização enfrenta enormes obstáculos. A
guerra civil no Sudão danificou e fechou unidades de saúde pública. O resultado
é que, de acordo com a OMS, desde 2019 o país é o que teve o maior aumento no
número de crianças sem qualquer vacina. A situação se repete no Iêmen e na
Síria.
O Brasil tem a vantagem de contar com um
programa nacional de vacinação bem estruturado, o PNI, mas, como a cobertura já
vinha caindo antes da pandemia, a recuperação que vem ocorrendo nos últimos
anos ainda não atinge as metas em vários imunizantes, embora diversos índices
já tenham superado os níveis de 2019. No ano passado, o percentual de vacinados
com as três doses de DTP foi de 86%, distante da cobertura total conquistada há
duas décadas. Ainda há muito a fazer para proteger a população, num momento em
que, em várias partes do mundo, a vacinação é insuficiente, reduzindo, em
alguma medida, a segurança da saúde pública em todos os continentes.
Tríplice Fronteira Amazônica precisa ser mais
bem vigiada
Por O Globo
Região, também usada para escoar
‘supermaconha’ da Colômbia, tem policiamento limitado
Merece atenção o alerta do Ministério
Público Federal (MPF) sobre o sucateamento da Delegacia
de Polícia
Federal de Tabatinga (AM), na Tríplice Fronteira Amazônica,
região entre Brasil, Peru e Colômbia que tem sido usada como rota de
narcotraficantes. Segundo o MPF, que protocolou ação contra a União, o
esvaziamento da unidade compromete investigações numa área estratégica para
enfrentar o crime, por concentrar facções como CV e PCC.
Entre as queixas que motivaram a ação, estão
falta de pessoal, ausência de fiscalização permanente, dificuldade na
preservação de provas em crimes relacionados ao tráfico de drogas e falta de
cooperação com outros órgãos para monitoramento aéreo, o que favorece
atividades como garimpo ilegal, narcotráfico e biopirataria. Para o MPF, a
ausência de postos permanentes, como determinado em decisões judiciais, criou
um “vácuo de soberania” ocupado por organizações criminosas.
A Tríplice Fronteira tem sido altamente
visada por traficantes. Pelas rotas menos vigiadas da região é escoado um tipo
de maconha colombiana de alta potência, conhecido como “supermaconha”. O
esquema envolve integrantes do CV e dissidentes das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc) que continuam atuantes, a despeito do acordo
de paz firmado pelo grupo, como mostrou
O GLOBO.
Um oficial do Exército colombiano que atua no
combate a dissidentes da guerrilha e participa de ações conjuntas com o Brasil
diz que a aliança entre os grupos criminosos inclui compra de drogas, proteção
a carregamentos, troca de informações e coordenação logística. Ele afirma ainda
que as parcerias, envolvendo também o PCC, se estendem ao garimpo ilegal e à
exploração de recursos minerais. Em geral, quadrilhas aliciam populações
ribeirinhas para os negócios ilícitos, fracionam a droga em pequenas
quantidades e a distribuem em várias embarcações.
Não surpreende que a quantidade de droga
apreendida nos rios amazônicos tenha disparado nos últimos anos. Em 2016, foram
2,5 toneladas. Apenas nos cinco primeiros meses deste ano, somaram 23,3
toneladas, segundo os dados mais recentes da Polícia Federal.
Não há dúvida de que o crime organizado está
incrustado em todos os cantos da Amazônia.
Dos 772 municípios da região, quase metade (344) já registra a presença de
facções, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado no
ano passado — no levantamento anterior, de 2024, eram 260. A presença cada vez
maior de narcotraficantes e as ligações com quadrilhas de países vizinhos são
uma realidade que precisa ser enfrentada. Está claro que o Brasil sozinho não
conseguirá resolvê-la, a despeito das operações das polícias e das Forças
Armadas.
Para combater essas quadrilhas, é fundamental ampliar o policiamento permanente na região e buscar ou ampliar acordos de cooperação não só com países vizinhos, mas também com Estados Unidos e Europa, para onde parte da droga é exportada. Problemas comuns demandam soluções compartilhadas.
Datafolha mostra antagonismo eleitoral cego
Por Folha de S. Paulo
Quando escolhas são feitas por aversão,
candidatos se eximem de propor soluções para os problemas do país
A irresponsabilidade de deixar os temas
incômodos para depois da eleição cobrará um preço elevado de todos os 213
milhões de brasileiros
O retrato da corrida presidencial
imediatamente anterior à homologação das candidaturas, segundo o Datafolha,
não traz novidade em relação aos últimos meses. A rivalidade entre lulistas e
bolsonaristas continua a mobilizar a preferência e sobretudo a repulsa de
parcela majoritária do eleitorado.
Quando os pesquisadores apresentam os nomes
dos postulantes no primeiro turno, mais de 7 em cada 10 eleitores afirmam que
votariam no presidente petista Luiz Inácio Lula da
Silva (40%) ou no senador pelo PL Flávio
Bolsonaro (32%). A terceira colocação, na qual empatam Ronaldo
Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo)
e Renan Santos (Missão),
nem sequer atinge 5% das menções.
Na simulação de segundo turno, Lula (48%)
supera Flávio (43%) por margem estreita. A vantagem do candidato à reeleição
sobre Caiado, de sete pontos percentuais, e sobre Zema, de oito pontos, mostra
que a rejeição ao incumbente dá condições de competir a qualquer oposicionista
que chegar à rodada final.
O painel das rejeições esclarece a situação.
Indagados sobre em quem não votariam de jeito nenhum para presidente, 41%
apontam o filho do ex-presidente Jair
Bolsonaro e 39% indicam Lula. Como só 7% dos respondentes
rejeitam ambos ao mesmo tempo, a ampla maioria dos brasileiros repele um ou
outro.
O antagonismo cego, mecânico, que vertebrou
as duas últimas disputas presidenciais persiste às vésperas da abertura do
certame de 2026. Nesse ambiente, a escolha do candidato que vai governar o
Brasil pelos próximos quatro anos responde mais ao instinto defensivo de evitar
o mal maior do que à afinidade programática e pessoal com o postulante.
Não por acaso, os gravíssimos desajustes do
país —a começar
pelo descalabro do endividamento público, que enseja taxas de juros
insustentáveis— deixam de ser discutidos com a seriedade que merecem na
campanha. Quando a adesão se dá sobretudo pelo ódio ao adversário, não é
preciso alimentar o eleitor com nada que seja propositivo.
Enquanto o Tesouro vive o drama de financiar
a gastança federal tomando empréstimos que oneram o Orçamento com juros reais
superiores a 8% ao ano, as principais campanhas tecem um universo paralelo,
como se o muro da crise fiscal já não fosse visível. A guerra
tarifária de Donald Trump torna-se pretexto para um empurrar a
culpa ao outro, ao arrepio do interesse nacional que envolve milhões de
empregos.
O confronto entre candidatos fartamente rejeitados
propaga o anestésico das rivalidades clubísticas. Como no futebol, a emoção
acaba num domingo à noite. Na manhã seguinte, a realidade fria baterá à porta
ainda mais desafiadora, pois os problemas não se terão deixado de avolumar.
A irresponsabilidade de relegar os temas e os
debates incômodos para depois da eleição vai cobrar um preço elevado não do
candidato que vencer, mas de todos os 213 milhões de brasileiros.
Tecnologia a serviço de todos
Por Folha de S. Paulo
Poder público não deveria transformar
inovações digitais em obstáculos ao exercício da cidadania
Estudo mostra que a taxa de erros no
reconhecimento facial é de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos e 5% entre as
que têm mais de 70
Foram os avanços tecnológicos que retiraram a
humanidade da miséria generalizada que predominava antes do surgimento da
agricultura. Se, nos primórdios, os efeitos das inovações se faziam sentir
lentamente, no ritmo dos séculos e das gerações, hoje eles se propagam com
muito mais velocidade e podem ser percebidos pelos próprios indivíduos ao longo
da vida.
Boa parte da população atual cresceu antes da
popularização da internet e só teve contato com um celular na idade adulta. Em
áreas como a inteligência
artificial, avanços relevantes ocorrem na escala de meses.
Não se deve subestimar o quanto as
tecnologias da informação facilitam o cotidiano. O acesso a serviços públicos e
privados tornou-se muito mais simples.
Filas de banco praticamente desapareceram.
Hoje é possível assinar documentos sem sair de casa e, em um futuro talvez não
tão distante, votar pelo celular ou participar de outras decisões cívicas,
ampliando a participação popular na democracia.
É preciso, porém, evitar que esse entusiasmo
se converta em exclusão social. Alguns grupos, especialmente os idosos, não
lidam com a mesma facilidade com a lógica de aparelhos e aplicativos. Não é
razoável que essa dificuldade se transforme em barreira ao acesso a serviços.
Mas é justamente o que vem ocorrendo.
Um exemplo é o das validações por
reconhecimento facial. Existe a necessidade de garantir segurança e combater
fraudes, mas essa solução não pode ser a única alternativa oferecida ao
cidadão.
Embora funcione bem para rostos jovens em
celulares modernos, seu desempenho piora com faces envelhecidas. Estudo nos EUA
mostrou que a taxa de erros, de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos, sobe para 5%
entre as com mais de 70. Em aparelhos antigos ou tablets, as falhas
tornam-se ainda mais frequentes.
No caso do INSS,
o problema assume contornos especialmente graves. A prova de vida, da qual
depende o pagamento de benefícios, vem
sendo canalizada para o reconhecimento facial. O público atendido
pelo instituto é majoritariamente idoso,
muitas vezes com dificuldades de locomoção ou déficits cognitivos.
Se há um órgão que precisa oferecer
alternativas viáveis, é justamente a Previdência
Social. E elas não podem se resumir a mandar o cidadão a uma
agência.
A tecnologia continuará evoluindo, como já ocorreu na identificação de rostos de negros e de mulheres. Mas não é aceitável deixar milhões de idosos num limbo digital até que os engenheiros aperfeiçoem esses sistemas.
Inteligência artificial sem ideologia
Por O Estado de S. Paulo
Brasil entra na organização de cooperação em
IA liderada pela China e formada basicamente por ditaduras sem que estejam
claros os termos dessa adesão. O selo de ‘Sul Global’ não basta
A criação da Organização Mundial para
Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês), liderada
pela China, marca uma nova etapa da disputa tecnológica.
Chips, modelos avançados, centros de dados e
energia continuarão no centro da corrida. Ao lado deles, porém, surgem
organismos internacionais e coalizões diplomáticas destinados a influenciar as
regras que governarão a inteligência artificial (IA). A China sabe que
liderança tecnológica também se constrói nas instituições.
Muitos países em desenvolvimento têm pouca
capacidade computacional, escassez de especialistas, acesso limitado a
financiamento e quase nenhuma influência sobre normas definidas em Washington,
Bruxelas ou pelos grandes conglomerados tecnológicos. Ao propor cooperação,
treinamento e maior representação do Sul Global, Pequim ocupa um espaço que as
potências ocidentais deixaram aberto. Em tese, o Brasil tem razões legítimas
para participar dessa conversa e interesse em ampliar suas opções.
A questão está nos termos dessa participação.
O governo assinou, como fundador, o acordo que criou a Waico. A nota dos
Ministérios das Relações Exteriores, da Ciência e Tecnologia e da Gestão
enumerou objetivos atraentes: desenvolvimento seguro da IA, redução das
desigualdades de acesso e fortalecimento da cooperação internacional. Disse
muito pouco, contudo, sobre o conteúdo concreto da decisão.
O País ainda não conhece satisfatoriamente a
estrutura de poder da organização, o sistema de votação, os critérios de
escolha de seus dirigentes ou as obrigações financeiras ou administrativas dos
membros. Tampouco foram detalhadas as salvaguardas relativas a dados, propriedade
intelectual, concorrência entre fornecedores ou liberdade regulatória.
A organização foi concebida e articulada pela
China, terá sede em seu território e integra o esforço de Pequim para converter
capacidade tecnológica em liderança institucional. Entre os 29 fundadores
predominam regimes autoritários. Nenhuma das grandes democracias tecnológicas
participou de sua criação.
A composição não condena irrevogavelmente a
entidade, nem autoriza previsões fáceis sobre censura, vigilância ou submissão
aos interesses chineses. Mas revela o ambiente político em que as regras serão
discutidas – e ele é inquietante. Transparência algorítmica, proteção da
privacidade, liberdade de expressão e limites ao uso estatal de dados não podem
ser dissociados da natureza dos governos que ajudam a definir essas normas.
A governança multissetorial da internet
brasileira, desenvolvida em torno do CGI.br, procura combinar Estado, empresas,
academia e sociedade civil. A participação na Waico poderia servir para levar
essa experiência a uma instituição ainda em formação. Também pode ocorrer o
inverso: a presença brasileira pode conferir legitimidade e aparência de
pluralidade a uma arquitetura cujo desenho permaneça concentrado em Pequim.
O governo lulopetista costuma atribuir valor
estratégico a quaisquer fóruns apresentados como expressão do “Sul Global”.
Essa inclinação não torna a adesão necessariamente equivocada. Mas exige que o
Planalto demonstre, com particular cuidado, que agiu segundo uma avaliação
nacional de custos, benefícios e riscos, em vez de acompanhar por reflexo uma
iniciativa coerente com as preferências geopolíticas de Pequim.
Autonomia tecnológica não exige distância da
China, assim como não recomenda dependência dos Estados Unidos. O Brasil
precisa cooperar com vários polos, participar de diferentes fóruns e evitar que
fornecedores ou governos estrangeiros adquiram poder excessivo sobre sua
infraestrutura. A diversificação só produz liberdade estratégica quando cada
compromisso preserva a capacidade de escolher.
A adesão à Waico até pode vir a se revelar útil. Mas justamente porque a inteligência artificial se tornou um tema central para a soberania, a inovação e a competitividade, ela precisa ser tratada como política de Estado, não como extensão das preferências diplomáticas de um governo. Até agora, o Planalto detalhou as aspirações da nova organização, mas ainda deve uma explicação convincente sobre as regras aceitas, os compromissos assumidos, a influência obtida e as salvaguardas preservadas.
Os riscos fiscais ignorados na campanha
Por O Estado de S. Paulo
A situação de empresas estatais e de Estados
pode exigir ainda mais recursos do Tesouro no futuro, o que torna promessas de
campanha de Lula e Flávio Bolsonaro verdadeiramente risíveis
A mais recente edição do Relatório de
Acompanhamento Fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI) expõe dois dos
principais riscos a que as contas públicas da União estarão sujeitas nos
próximos anos: a saúde financeira das empresas estatais federais e o programa
de renegociação de dívidas estaduais. Um olhar mais detido sobre cada um deles
evidencia um cenário preocupante, que não pode ser menosprezado nem ignorado
pelos candidatos que disputarão a Presidência da República neste ano.
Segundo a IFI, as 17 estatais federais que
dependem de recursos do Tesouro para se sustentar consumiram R$ 30,2 bilhões no
ano passado. Várias delas tiveram piora significativa em seus indicadores
financeiros desde 2018, sobretudo no fluxo de caixa operacional, o que pode indicar
vários problemas, como falta de liquidez, descontrole de custos, insuficiência
de receitas próprias, dívidas acumuladas e/ou atrasos no pagamento de
fornecedores.
Sete delas já registram patrimônio líquido
negativo, ou seja, passivos superiores a todos os ativos que possuem, inclusive
a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Isso significa que,
mais cedo ou mais tarde, o governo terá de fazer aportes adicionais para
reequilibrar o balanço dessas empresas e impedir que parem de funcionar ou
sofram execuções judiciais.
Não é um problema trivial, considerando que o
Orçamento Geral da União é um só e que essas empresas terão de disputar espaço
e recursos com áreas tão relevantes quanto saúde, educação e segurança pública.
Alguns dos serviços que elas prestam certamente poderiam ser oferecidos pela
iniciativa privada com menos custo e mais eficiência, diminuindo o ônus para o
contribuinte e deixando ao Estado a responsabilidade por cuidar de áreas
realmente prioritárias – como, aliás, está na Constituição.
A situação das estatais não dependentes não é
muito melhor. Há vários casos de empresas com margem operacional negativa, um
indicador que mede a relação entre o lucro operacional e a receita líquida e
que sinaliza se a empresa é economicamente viável. O caso mais crítico é o dos
Correios, que acabaram de contratar um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um
consórcio de bancos com garantia da União, negociam uma nova operação de
crédito de R$ 7 bilhões neste ano e ainda dependerão de um aporte de R$ 6
bilhões da União até o fim de 2027.
O Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos
Estados (Propag) merece um capítulo à parte. Trata-se da mais recente tentativa
de renegociação de dívidas que se acumulam desde a década de 1990. Cada nova
iniciativa lançada desde então resultou em condições ainda mais benéficas para
os Estados e mais custosas para a União, e nem assim elas foram plenamente
quitadas.
O Propag, no entanto, foi o primeiro a
oferecer a possibilidade de zerar as taxas de juros do principal sem exigir uma
contrapartida crível para garantir que as parcelas sejam honradas, como
reformas estruturais ou privatizações de estatais. Pelo contrário: os Estados
devem gastar mais em áreas tão vastas como educação, infraestrutura, segurança
pública, transportes ou adaptação a mudanças climáticas.
Por óbvio, 22 dos 27 Estados decidiram aderir
ao programa, dos mais encalacrados àqueles que não tinham qualquer dificuldade
para pagar as contas em dia; na melhor das hipóteses, a União abrirá mão de R$
190,7 bilhões em receitas nos próximos 30 anos, segundo o IFI. Mas as poucas
ausências são suficientes para sinalizar que esta não será a última
renegociação de dívidas estaduais. Entre elas figura o Distrito Federal, cada
vez mais enredado na crise do BRB e sob suspeita de atrasar pagamentos em saúde
e educação para manter recursos no caixa do banco – acusação negada por ambos.
A IFI mostra que tanto a situação de empresas estatais quanto a dos Estados podem exigir ainda mais recursos da União no futuro. Isso torna não apenas economicamente inviáveis, mas verdadeiramente risíveis promessas de campanha como a tarifa zero no transporte público, do presidente Lula (PT), e de distribuição gratuita de celulares para mulheres de baixa renda, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Talvez possam até render votos, mas que ninguém se deixe enganar. O que o País realmente precisa é de um ajuste fiscal no ano que vem – assunto aparentemente proibido na campanha.
Campanha remunerada
Por O Estado de S. Paulo
Quarentena contra conflitos de interesse acaba
financiando candidatos com dinheiro público
A quarentena remunerada, criada para impedir
conflitos de interesse entre o Estado e a iniciativa privada, está financiando,
com recursos públicos, candidatos que deixam o governo para a disputa.
A lógica da quarentena é conhecida. O Estado
impede que determinadas autoridades, quando deixam o governo, passem
imediatamente a atuar em atividades privadas potencialmente relacionadas às
funções que exerciam. Nesse período, são remuneradas como forma de compensação.
O problema surge quando essa mesma autoridade deixa o cargo não para ingressar
na iniciativa privada, mas para concorrer a um mandato eletivo.
Como mostrou reportagem de O Globo, os ex-ministros Márcio
França (PSB-SP) e Rui Costa (PT-BA) deixaram o governo para disputar as
eleições deste ano, mas comunicaram à Comissão de Ética da Presidência terem
recebido propostas de trabalho na iniciativa privada, o que lhes garantiu o
enquadramento na quarentena remunerada. Cada um poderá receber até R$ 278 mil,
levando em conta o salário de ministro por seis meses.
A desincompatibilização existe para afastar o
candidato da máquina pública e impedir que as prerrogativas do cargo
influenciem a disputa eleitoral. A quarentena existe para afastar a autoridade
do setor privado e evitar conflitos de interesse. O encontro das duas regras
produziu um efeito que ninguém parece ter antecipado.
Existe aí uma lacuna normativa. A legislação
disciplinou a passagem do setor público para a iniciativa privada, mas ignora a
situação de autoridades que deixam o governo para disputar eleições. O
resultado é que dois regimes jurídicos concebidos para proteger a lisura da
administração acabam produzindo um efeito colateral incompatível com a
finalidade de ambos.
O paradoxo é ainda maior porque a campanha
eleitoral já dispõe de mecanismos próprios de financiamento. O Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) acaba de estabelecer limites de gastos que chegam a R$
133,4 milhões para candidatos à Presidência e a R$ 40 milhões para candidatos
ao governo de São Paulo, oriundos de um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. A
remuneração compensatória da quarentena jamais foi concebida para integrar esse
sistema de financiamento político.
Há ainda outro aspecto que causa desconforto.
Para justificar a quarentena, é preciso demonstrar a intenção de assumir uma atividade
privada que possa gerar conflitos de interesse. Mas se o próprio interessado
sustenta que dedicará os meses seguintes à campanha eleitoral, é inevitável
perguntar qual é a efetiva consistência dessas propostas de trabalho e em que
medida elas representam uma perspectiva profissional concreta ou apenas um
requisito formal para obtenção do benefício. Não se trata de presumir má-fé dos
candidatos, mas de reconhecer que o modelo cria incentivos pouco compatíveis
com a finalidade para a qual foi concebido.
Em um sistema que já reserva bilhões de reais para financiar campanhas eleitorais, é difícil justificar que a remuneração criada para evitar conflitos de interesse também acabe servindo para garantir renda pública aos candidatos durante a disputa.
O
Estado está mais lento que o crime
Por
O Estado de S. Paulo
Terceiro
encontro do ‘Brasil Adiante’ debateu como conter facções que já afrontam o
Estado de forma mais ágil e com maior alcance
O
crime organizado avança no Brasil com uma vantagem que nenhuma força policial,
hoje, parece capaz de conter: a agilidade. Foi essa a síntese do terceiro
encontro do Brasil Adiante,
iniciativa do Estadão que
reúne especialistas para transformar diagnósticos conhecidos em propostas
concretas a serem entregues, em novembro, a quem vencer a eleição presidencial.
Nesta
rodada, dedicada à segurança pública, o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério
Público de São Paulo (MPSP), resumiu o problema com precisão: “O crime
organizado não está mais preparado que o Estado. Só é mais ágil, mais rápido
que o Estado ao enxergar as lacunas, os setores de opacidade, de falta de
fiscalização e de regulamentação legal”.
A
frase explica por que o PCC e o Comando Vermelho deixaram de ser quadrilhas
locais e hoje disputam, com espantosa desenvoltura, espaços na Faria Lima e na
administração pública, além, claro, do domínio territorial que exercem em quase
todas as regiões do País. Como lembrou Gakiya, “hoje é mais fácil perguntar onde
o crime organizado não está”.
Diante
dessa afronta, os painelistas convergiram para uma pauta que este jornal
defende há tempos: a criação de uma agência nacional antimáfia, nos moldes da
experiência italiana, capaz de coordenar a Polícia Federal e as polícias
estaduais sob comando único e mandato definido. Não se trata de um fetiche
institucional. É reconhecer, de uma vez por todas, que PCC e Comando Vermelho
são organizações de caráter mafioso – com hierarquia, poder bélico e financeiro
e presença em ao menos 28 países – e que só um órgão com essa natureza jurídica
pode enfrentá-las.
A
economista Cristina Pinotti apresentou outro ponto fundamental. Uma agência de
Estado, permanente, com participação da sociedade civil, estaria blindada
contra a mudança de ventos da política. É a mesma lógica que deveria orientar a
integração das três esferas da administração pública no combate ao crime.
Enquanto a Polícia Federal não conversa com as polícias estaduais, as facções
operam sem fronteiras internas, como mostrou a Operação Carbono Oculto.
No
evento, também se tratou do vácuo de governança cibernética no País como novo front do combate ao
crime organizado, ameaça também mapeada pelo Centro de Inteligência do Exército
(CIE) sobre a qual tratamos recentemente (ver o editorial Sobra informação, falta ação,
22/7/2026). Fábio Diniz, do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime,
alertou que a fragmentação entre órgãos como GSI e ANPD deixa o Brasil exposto
a ataques contra os sistemas elétrico, financeiro e hídrico – outra frente em
que faltam inteligência e capacidade de antecipação, não apenas reação a crimes
já consumados.
Nenhuma
dessas medidas, porém, terá efeito duradouro se o Estado não se depurar por
dentro. Este jornal tem insistido: por mais bem formulada que seja, qualquer
política de segurança pública fracassará enquanto houver policiais, promotores
ou magistrados dispostos a vender seus serviços ao crime organizado. Como
mostrou a Operação Janus, do MPSP, há graves suspeitas de que coronéis da
cúpula da Polícia Militar paulista teriam se associado a membros do núcleo
financeiro do PCC. Não há agência nacional antimáfia, por mais poderosa que
seja, que sobreviva a corregedorias tíbias e espírito de corpo.
O Brasil Adiante não prega revoluções, mas saídas possíveis. O crime organizado não é maior nem mais poderoso que o Estado, apenas se aproveita de suas falhas. Destruí-lo, portanto, exige presença estatal permanente, integração federativa genuína e coragem e espírito público para expurgar os frutos podres do Estado. Por fim, é preciso um senso de urgência nacional. A agenda a ser entregue ao presidente eleito não valerá o papel em que for escrita se não vier acompanhada de liderança política para engajar os brasileiros em torno de sua implementação.
Barbárie contra as brasileiras
Por Correio Braziliense
A cada dia, quatro brasileiras perdem a vida
pelo simples fato de serem mulheres.
O retrato da violência contra as mulheres no
Brasil ganhou uma atualização na última semana. E o cenário é devastador. Pelo
quarto ano consecutivo, o país bateu recorde em casos de feminicídio. Em 2025,
foram 1.571 episódios registrados, em um aumento de 4% em relação a 2024,
quando houve 1.504 ocorrências. Os dados fazem parte do Anuário da Segurança
Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os números não deixam dúvida: vivemos em um
país que odeia mulheres. A cada dia, quatro brasileiras perdem a vida pelo
simples fato de serem mulheres. No intervalo de 10 anos, a frequência de
feminicídio aumentou em uma proporção gravíssima. Esse delito foi tipificado em
2015 na legislação brasileira. Desde então, até o ano passado, os casos de
feminicídio mais do que triplicaram. Passaram de 449 registros para as 1.571
ocorrências identificadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em parte, essa curva ascendente se deve à
maior precisão no registro policial, que passou a tipificar o crime de
feminicídio. Mas especialistas alertam que, fosse apenas isso, haveria uma
estabilização na quantidade de casos. O que, se observa, no entanto, é um
crescimento constante de vidas ceifadas pela brutalidade masculina — só na
última semana, houve episódios bárbaros no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
Para corroborar a gravidade da situação das mulheres, o Anuário da Segurança
Pública aponta um aumento generalizado de outras formas de violência contra o
gênero feminino: tentativa de feminicídio (6%); agressões decorrentes de
violência doméstica (2,6%); violência psicológica (17%); ameaças ( 0,5%);
descumprimento de medida protetiva (17%); stalking ( 30%).
Está claro, pois, que é preciso intensificar
os esforços para combater a misoginia estrutural na sociedade brasileira, fruto
de uma cultura patriarcal e machista mantida há séculos. Urge aplicar todos os
dispositivos previstos na legislação para frear a bestialidade masculina, bem
como adotar as medidas necessárias para combater o preconceito, a desigualdade
e o pacto de silêncio que muitas vezes cerca a violência contra a mulher.
Na última sexta-feira, a questão da violência
de gênero ganhou uma nova frente. O presidente Lula sancionou a lei que
autoriza a venda de spray de pimenta para mulheres acima de 18 anos. Entre as
regras definidas para a aquisição do equipamento, chama a atenção o veto
presidencial ao dispositivo que permitia a venda do spray para jovens a partir
de 16 anos. No momento em que brasileiras de 16 anos podem votar e o país
debate a redução da maioridade penal, é questionável impedir uma adolescente de
conter o avanço de um agressor.
Há outros pontos que merecem uma reflexão
sobre esse instrumento de autodefesa. Especialistas alertam para o risco de o
spray de pimenta potencializar uma reação ainda mais violenta do criminoso. Em
novembro do ano passado, Beatriz Munhos, 20 anos, morreu com um tiro na cabeça
ao reagir a um assalto utilizando um spray de pimenta. Analistas em segurança
pública consideram o aerosol um aliado importante para a importunação sexual,
mas alertam que pode ampliar o risco de mais violência quando o agressor está
armado com faca ou revólver.
Há, ainda, de se considerar a utilidade do
spray de pimenta em um contexto de violência doméstica. A maior parte das
agressões contra as mulheres ocorre dentro de casa e é cometida pelo
companheiro ou ex-companheiro. Será preciso coletar mais informações para saber
se instrumentos como aerossol serão ferramentas importantes em um ambiente de
tensão familiar e privado.
O que permanece incontestável é o estado de violência permanente contra a mulher no Brasil. A sociedade e o poder público têm o dever de combater essa chaga social que pune o gênero feminino, provoca tragédias e causa profundo sofrimento para milhões de famílias.
Menos assassinatos, mais feminicídios
Por O Povo (CE)
Na contramão do registro do menor patamar de
mortes violentas em geral em mais de uma década, a quantidade de feminicídios
bateram recorde em 2025 no Brasil. Ao longo de todo o ano passado, foram
registrados 1.571 feminicídios, o que significa uma alta de 4% em relação aos
1.504 crimes registrados em 2024. O número representa 4 mulheres mortas por
dia. É a maior quantidade de registros desde a criação desse tipo penal, que
ocorreu no ano de 2015. Os dados foram divulgados na semana que passou e
publicados pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública no Fórum Brasileiro de
Segurança Pública.
O número de vítimas de feminicídio em 2025 é
o maior número da série histórica, conforme o 20º Anuário Brasileiro de
Segurança Pública. O total representa uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100
mil mulheres. Ou seja, isso consolida a tendência de crescimento desse tipo de
crime no País e ratifica o quarto recorde consecutivo do indicador.
Esse lamentável aumento no número dos
feminicídios contrasta com a redução dos demais indicadores de violência letal.
O Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais em 2025 - uma queda de
8,2% em relação ao ano anterior e a menor taxa da série histórica: 19,1 mortes
por 100 mil habitantes. Além disso, o País antecipou em dois anos a meta
nacional de redução dos homicídios prevista na Política Nacional de Segurança
Pública e Defesa Social para 2027. Mesmo com esse índice, os feminicídios e as
mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades de
mortes violentas que cresceram no período.
Quando se observam os números por estado,
percebe-se que o Amapá registrou um crescimento de 347,7% na taxa de
feminicídios entre 2024 e 2025. Assim, alcançou 2,2 vítimas para cada 100 mil
mulheres, o maior aumento percentual do País. Ficou à frente do Acre (que
apresentou alta de 74,3% e taxa de 3,2) e de Rondônia (com alta de 66% e taxa
de 2,9).
O estado amapaense registrou também o índice
mais alarmante de sobreviventes da violência de gênero. Teve 14,9 tentativas de
feminicídio para cada 100 mil mulheres em 2025, um volume quase quatro vezes
superior à média brasileira.
O crime de feminicídio não pode ser entendido - pelos órgãos de segurança e pela sociedade em geral - como um fato isolado. Há diversas violências que ocorrem antes da morte. Para cada feminicídio registrado em 2025, houve 501,9 registros de ameaça, 182,2 ocorrências de agressão física, 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência, 78,8 casos de perseguição e 38,7 registros de violência psicológica. A violência de gênero continua crescendo no País e se manifestando de forma escalar. Não começa pelo ato mais grave em geral, mas há uma tendência de progressão ao longo do tempo. É preciso continuar noticiando que a crueldade de cada caso, mas é necessário também investir sempre e cada vez mais em proteção para as mulheres.

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