domingo, 26 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante cobertura vacinal global insuficiente

Por O Globo

Brasil tem se recuperado nos últimos anos, mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes

São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.

Para além dos percentuais, é importante ter a dimensão do problema a partir de números absolutos. Em 2025, um total de 13,5 milhões de crianças não recebeu nem uma dose de vacinação, ante 12,8 milhões em 2019. Cerca de 21 milhões de crianças não tomaram a primeira dose contra o sarampo. Eram aproximadamente 19 milhões há sete anos. A cobertura foi, em 2025, de 84%, insuficiente para prevenir surtos. Isso se explica em parte pelo crescimento populacional e também por dificuldades de acesso a serviços de saúde em diferentes partes do mundo.

Em várias outras vacinas, os percentuais continuam evoluindo e, mesmo que os níveis de cobertura em 2019 tenham sido ultrapassados, ainda se encontram muito distantes do ideal. No caso do HPV, a primeira dose para meninas chegou a 33% do público-alvo, bastante acima dos 17% da cobertura antes da pandemia, embora muito distante da meta de 90%.

Pelas pesquisas, utilizando como parâmetro a Tríplice Bacteriana, a América Latina e o Caribe, com 82% de cobertura das três doses, tiveram uma forte recuperação, 3 pontos percentuais acima dos 79% de 2019, mas ainda distante da meta de 90%.

Há muitas dificuldades para os agentes de saúde no Oriente Médio e no Norte da África, onde os 83% de cobertura da DTP representaram um avanço, e mesmo assim ficaram 6 pontos percentuais aquém do patamar de 2019. As barreiras são as mesmas na África Ocidental e Central, em que apenas 71% da população está vacinada, o nível mais baixo verificado na região. Esses dados demonstram como conflitos armados e insegurança generalizada afetam a saúde de populações.

No território da Palestina e particularmente Gaza, por serem áreas conflagradas, a imunização enfrenta enormes obstáculos. A guerra civil no Sudão danificou e fechou unidades de saúde pública. O resultado é que, de acordo com a OMS, desde 2019 o país é o que teve o maior aumento no número de crianças sem qualquer vacina. A situação se repete no Iêmen e na Síria.

O Brasil tem a vantagem de contar com um programa nacional de vacinação bem estruturado, o PNI, mas, como a cobertura já vinha caindo antes da pandemia, a recuperação que vem ocorrendo nos últimos anos ainda não atinge as metas em vários imunizantes, embora diversos índices já tenham superado os níveis de 2019. No ano passado, o percentual de vacinados com as três doses de DTP foi de 86%, distante da cobertura total conquistada há duas décadas. Ainda há muito a fazer para proteger a população, num momento em que, em várias partes do mundo, a vacinação é insuficiente, reduzindo, em alguma medida, a segurança da saúde pública em todos os continentes.

Tríplice Fronteira Amazônica precisa ser mais bem vigiada

Por O Globo

Região, também usada para escoar ‘supermaconha’ da Colômbia, tem policiamento limitado

Merece atenção o alerta do Ministério Público Federal (MPF) sobre o sucateamento da Delegacia de Polícia Federal de Tabatinga (AM), na Tríplice Fronteira Amazônica, região entre Brasil, Peru e Colômbia que tem sido usada como rota de narcotraficantes. Segundo o MPF, que protocolou ação contra a União, o esvaziamento da unidade compromete investigações numa área estratégica para enfrentar o crime, por concentrar facções como CV e PCC.

Entre as queixas que motivaram a ação, estão falta de pessoal, ausência de fiscalização permanente, dificuldade na preservação de provas em crimes relacionados ao tráfico de drogas e falta de cooperação com outros órgãos para monitoramento aéreo, o que favorece atividades como garimpo ilegal, narcotráfico e biopirataria. Para o MPF, a ausência de postos permanentes, como determinado em decisões judiciais, criou um “vácuo de soberania” ocupado por organizações criminosas.

A Tríplice Fronteira tem sido altamente visada por traficantes. Pelas rotas menos vigiadas da região é escoado um tipo de maconha colombiana de alta potência, conhecido como “supermaconha”. O esquema envolve integrantes do CV e dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que continuam atuantes, a despeito do acordo de paz firmado pelo grupo, como mostrou O GLOBO.

Um oficial do Exército colombiano que atua no combate a dissidentes da guerrilha e participa de ações conjuntas com o Brasil diz que a aliança entre os grupos criminosos inclui compra de drogas, proteção a carregamentos, troca de informações e coordenação logística. Ele afirma ainda que as parcerias, envolvendo também o PCC, se estendem ao garimpo ilegal e à exploração de recursos minerais. Em geral, quadrilhas aliciam populações ribeirinhas para os negócios ilícitos, fracionam a droga em pequenas quantidades e a distribuem em várias embarcações.

Não surpreende que a quantidade de droga apreendida nos rios amazônicos tenha disparado nos últimos anos. Em 2016, foram 2,5 toneladas. Apenas nos cinco primeiros meses deste ano, somaram 23,3 toneladas, segundo os dados mais recentes da Polícia Federal.

Não há dúvida de que o crime organizado está incrustado em todos os cantos da Amazônia. Dos 772 municípios da região, quase metade (344) já registra a presença de facções, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado no ano passado — no levantamento anterior, de 2024, eram 260. A presença cada vez maior de narcotraficantes e as ligações com quadrilhas de países vizinhos são uma realidade que precisa ser enfrentada. Está claro que o Brasil sozinho não conseguirá resolvê-la, a despeito das operações das polícias e das Forças Armadas.

Para combater essas quadrilhas, é fundamental ampliar o policiamento permanente na região e buscar ou ampliar acordos de cooperação não só com países vizinhos, mas também com Estados Unidos e Europa, para onde parte da droga é exportada. Problemas comuns demandam soluções compartilhadas.

Datafolha mostra antagonismo eleitoral cego

Por Folha de S. Paulo

Quando escolhas são feitas por aversão, candidatos se eximem de propor soluções para os problemas do país

A irresponsabilidade de deixar os temas incômodos para depois da eleição cobrará um preço elevado de todos os 213 milhões de brasileiros

O retrato da corrida presidencial imediatamente anterior à homologação das candidaturas, segundo o Datafolha, não traz novidade em relação aos últimos meses. A rivalidade entre lulistas e bolsonaristas continua a mobilizar a preferência e sobretudo a repulsa de parcela majoritária do eleitorado.

Quando os pesquisadores apresentam os nomes dos postulantes no primeiro turno, mais de 7 em cada 10 eleitores afirmam que votariam no presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva (40%) ou no senador pelo PL Flávio Bolsonaro (32%). A terceira colocação, na qual empatam Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), nem sequer atinge 5% das menções.

Na simulação de segundo turno, Lula (48%) supera Flávio (43%) por margem estreita. A vantagem do candidato à reeleição sobre Caiado, de sete pontos percentuais, e sobre Zema, de oito pontos, mostra que a rejeição ao incumbente dá condições de competir a qualquer oposicionista que chegar à rodada final.

O painel das rejeições esclarece a situação. Indagados sobre em quem não votariam de jeito nenhum para presidente, 41% apontam o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e 39% indicam Lula. Como só 7% dos respondentes rejeitam ambos ao mesmo tempo, a ampla maioria dos brasileiros repele um ou outro.

O antagonismo cego, mecânico, que vertebrou as duas últimas disputas presidenciais persiste às vésperas da abertura do certame de 2026. Nesse ambiente, a escolha do candidato que vai governar o Brasil pelos próximos quatro anos responde mais ao instinto defensivo de evitar o mal maior do que à afinidade programática e pessoal com o postulante.

Não por acaso, os gravíssimos desajustes do país —a começar pelo descalabro do endividamento público, que enseja taxas de juros insustentáveis— deixam de ser discutidos com a seriedade que merecem na campanha. Quando a adesão se dá sobretudo pelo ódio ao adversário, não é preciso alimentar o eleitor com nada que seja propositivo.

Enquanto o Tesouro vive o drama de financiar a gastança federal tomando empréstimos que oneram o Orçamento com juros reais superiores a 8% ao ano, as principais campanhas tecem um universo paralelo, como se o muro da crise fiscal já não fosse visível. A guerra tarifária de Donald Trump torna-se pretexto para um empurrar a culpa ao outro, ao arrepio do interesse nacional que envolve milhões de empregos.

O confronto entre candidatos fartamente rejeitados propaga o anestésico das rivalidades clubísticas. Como no futebol, a emoção acaba num domingo à noite. Na manhã seguinte, a realidade fria baterá à porta ainda mais desafiadora, pois os problemas não se terão deixado de avolumar.

A irresponsabilidade de relegar os temas e os debates incômodos para depois da eleição vai cobrar um preço elevado não do candidato que vencer, mas de todos os 213 milhões de brasileiros.

Tecnologia a serviço de todos

Por Folha de S. Paulo

Poder público não deveria transformar inovações digitais em obstáculos ao exercício da cidadania

Estudo mostra que a taxa de erros no reconhecimento facial é de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos e 5% entre as que têm mais de 70

Foram os avanços tecnológicos que retiraram a humanidade da miséria generalizada que predominava antes do surgimento da agricultura. Se, nos primórdios, os efeitos das inovações se faziam sentir lentamente, no ritmo dos séculos e das gerações, hoje eles se propagam com muito mais velocidade e podem ser percebidos pelos próprios indivíduos ao longo da vida.

Boa parte da população atual cresceu antes da popularização da internet e só teve contato com um celular na idade adulta. Em áreas como a inteligência artificial, avanços relevantes ocorrem na escala de meses.

Não se deve subestimar o quanto as tecnologias da informação facilitam o cotidiano. O acesso a serviços públicos e privados tornou-se muito mais simples.

Filas de banco praticamente desapareceram. Hoje é possível assinar documentos sem sair de casa e, em um futuro talvez não tão distante, votar pelo celular ou participar de outras decisões cívicas, ampliando a participação popular na democracia.

É preciso, porém, evitar que esse entusiasmo se converta em exclusão social. Alguns grupos, especialmente os idosos, não lidam com a mesma facilidade com a lógica de aparelhos e aplicativos. Não é razoável que essa dificuldade se transforme em barreira ao acesso a serviços. Mas é justamente o que vem ocorrendo.

Um exemplo é o das validações por reconhecimento facial. Existe a necessidade de garantir segurança e combater fraudes, mas essa solução não pode ser a única alternativa oferecida ao cidadão.

Embora funcione bem para rostos jovens em celulares modernos, seu desempenho piora com faces envelhecidas. Estudo nos EUA mostrou que a taxa de erros, de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos, sobe para 5% entre as com mais de 70. Em aparelhos antigos ou tablets, as falhas tornam-se ainda mais frequentes.

No caso do INSS, o problema assume contornos especialmente graves. A prova de vida, da qual depende o pagamento de benefícios, vem sendo canalizada para o reconhecimento facial. O público atendido pelo instituto é majoritariamente idoso, muitas vezes com dificuldades de locomoção ou déficits cognitivos.

Se há um órgão que precisa oferecer alternativas viáveis, é justamente a Previdência Social. E elas não podem se resumir a mandar o cidadão a uma agência.

A tecnologia continuará evoluindo, como já ocorreu na identificação de rostos de negros e de mulheres. Mas não é aceitável deixar milhões de idosos num limbo digital até que os engenheiros aperfeiçoem esses sistemas.

Inteligência artificial sem ideologia

Por O Estado de S. Paulo

Brasil entra na organização de cooperação em IA liderada pela China e formada basicamente por ditaduras sem que estejam claros os termos dessa adesão. O selo de ‘Sul Global’ não basta

A criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês), liderada pela China, marca uma nova etapa da disputa tecnológica.

Chips, modelos avançados, centros de dados e energia continuarão no centro da corrida. Ao lado deles, porém, surgem organismos internacionais e coalizões diplomáticas destinados a influenciar as regras que governarão a inteligência artificial (IA). A China sabe que liderança tecnológica também se constrói nas instituições.

Muitos países em desenvolvimento têm pouca capacidade computacional, escassez de especialistas, acesso limitado a financiamento e quase nenhuma influência sobre normas definidas em Washington, Bruxelas ou pelos grandes conglomerados tecnológicos. Ao propor cooperação, treinamento e maior representação do Sul Global, Pequim ocupa um espaço que as potências ocidentais deixaram aberto. Em tese, o Brasil tem razões legítimas para participar dessa conversa e interesse em ampliar suas opções.

A questão está nos termos dessa participação. O governo assinou, como fundador, o acordo que criou a Waico. A nota dos Ministérios das Relações Exteriores, da Ciência e Tecnologia e da Gestão enumerou objetivos atraentes: desenvolvimento seguro da IA, redução das desigualdades de acesso e fortalecimento da cooperação internacional. Disse muito pouco, contudo, sobre o conteúdo concreto da decisão.

O País ainda não conhece satisfatoriamente a estrutura de poder da organização, o sistema de votação, os critérios de escolha de seus dirigentes ou as obrigações financeiras ou administrativas dos membros. Tampouco foram detalhadas as salvaguardas relativas a dados, propriedade intelectual, concorrência entre fornecedores ou liberdade regulatória.

A organização foi concebida e articulada pela China, terá sede em seu território e integra o esforço de Pequim para converter capacidade tecnológica em liderança institucional. Entre os 29 fundadores predominam regimes autoritários. Nenhuma das grandes democracias tecnológicas participou de sua criação.

A composição não condena irrevogavelmente a entidade, nem autoriza previsões fáceis sobre censura, vigilância ou submissão aos interesses chineses. Mas revela o ambiente político em que as regras serão discutidas – e ele é inquietante. Transparência algorítmica, proteção da privacidade, liberdade de expressão e limites ao uso estatal de dados não podem ser dissociados da natureza dos governos que ajudam a definir essas normas.

A governança multissetorial da internet brasileira, desenvolvida em torno do CGI.br, procura combinar Estado, empresas, academia e sociedade civil. A participação na Waico poderia servir para levar essa experiência a uma instituição ainda em formação. Também pode ocorrer o inverso: a presença brasileira pode conferir legitimidade e aparência de pluralidade a uma arquitetura cujo desenho permaneça concentrado em Pequim.

O governo lulopetista costuma atribuir valor estratégico a quaisquer fóruns apresentados como expressão do “Sul Global”. Essa inclinação não torna a adesão necessariamente equivocada. Mas exige que o Planalto demonstre, com particular cuidado, que agiu segundo uma avaliação nacional de custos, benefícios e riscos, em vez de acompanhar por reflexo uma iniciativa coerente com as preferências geopolíticas de Pequim.

Autonomia tecnológica não exige distância da China, assim como não recomenda dependência dos Estados Unidos. O Brasil precisa cooperar com vários polos, participar de diferentes fóruns e evitar que fornecedores ou governos estrangeiros adquiram poder excessivo sobre sua infraestrutura. A diversificação só produz liberdade estratégica quando cada compromisso preserva a capacidade de escolher.

A adesão à Waico até pode vir a se revelar útil. Mas justamente porque a inteligência artificial se tornou um tema central para a soberania, a inovação e a competitividade, ela precisa ser tratada como política de Estado, não como extensão das preferências diplomáticas de um governo. Até agora, o Planalto detalhou as aspirações da nova organização, mas ainda deve uma explicação convincente sobre as regras aceitas, os compromissos assumidos, a influência obtida e as salvaguardas preservadas.

Os riscos fiscais ignorados na campanha

Por O Estado de S. Paulo

A situação de empresas estatais e de Estados pode exigir ainda mais recursos do Tesouro no futuro, o que torna promessas de campanha de Lula e Flávio Bolsonaro verdadeiramente risíveis

A mais recente edição do Relatório de Acompanhamento Fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI) expõe dois dos principais riscos a que as contas públicas da União estarão sujeitas nos próximos anos: a saúde financeira das empresas estatais federais e o programa de renegociação de dívidas estaduais. Um olhar mais detido sobre cada um deles evidencia um cenário preocupante, que não pode ser menosprezado nem ignorado pelos candidatos que disputarão a Presidência da República neste ano.

Segundo a IFI, as 17 estatais federais que dependem de recursos do Tesouro para se sustentar consumiram R$ 30,2 bilhões no ano passado. Várias delas tiveram piora significativa em seus indicadores financeiros desde 2018, sobretudo no fluxo de caixa operacional, o que pode indicar vários problemas, como falta de liquidez, descontrole de custos, insuficiência de receitas próprias, dívidas acumuladas e/ou atrasos no pagamento de fornecedores.

Sete delas já registram patrimônio líquido negativo, ou seja, passivos superiores a todos os ativos que possuem, inclusive a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Isso significa que, mais cedo ou mais tarde, o governo terá de fazer aportes adicionais para reequilibrar o balanço dessas empresas e impedir que parem de funcionar ou sofram execuções judiciais.

Não é um problema trivial, considerando que o Orçamento Geral da União é um só e que essas empresas terão de disputar espaço e recursos com áreas tão relevantes quanto saúde, educação e segurança pública. Alguns dos serviços que elas prestam certamente poderiam ser oferecidos pela iniciativa privada com menos custo e mais eficiência, diminuindo o ônus para o contribuinte e deixando ao Estado a responsabilidade por cuidar de áreas realmente prioritárias – como, aliás, está na Constituição.

A situação das estatais não dependentes não é muito melhor. Há vários casos de empresas com margem operacional negativa, um indicador que mede a relação entre o lucro operacional e a receita líquida e que sinaliza se a empresa é economicamente viável. O caso mais crítico é o dos Correios, que acabaram de contratar um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de bancos com garantia da União, negociam uma nova operação de crédito de R$ 7 bilhões neste ano e ainda dependerão de um aporte de R$ 6 bilhões da União até o fim de 2027.

O Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) merece um capítulo à parte. Trata-se da mais recente tentativa de renegociação de dívidas que se acumulam desde a década de 1990. Cada nova iniciativa lançada desde então resultou em condições ainda mais benéficas para os Estados e mais custosas para a União, e nem assim elas foram plenamente quitadas.

O Propag, no entanto, foi o primeiro a oferecer a possibilidade de zerar as taxas de juros do principal sem exigir uma contrapartida crível para garantir que as parcelas sejam honradas, como reformas estruturais ou privatizações de estatais. Pelo contrário: os Estados devem gastar mais em áreas tão vastas como educação, infraestrutura, segurança pública, transportes ou adaptação a mudanças climáticas.

Por óbvio, 22 dos 27 Estados decidiram aderir ao programa, dos mais encalacrados àqueles que não tinham qualquer dificuldade para pagar as contas em dia; na melhor das hipóteses, a União abrirá mão de R$ 190,7 bilhões em receitas nos próximos 30 anos, segundo o IFI. Mas as poucas ausências são suficientes para sinalizar que esta não será a última renegociação de dívidas estaduais. Entre elas figura o Distrito Federal, cada vez mais enredado na crise do BRB e sob suspeita de atrasar pagamentos em saúde e educação para manter recursos no caixa do banco – acusação negada por ambos.

A IFI mostra que tanto a situação de empresas estatais quanto a dos Estados podem exigir ainda mais recursos da União no futuro. Isso torna não apenas economicamente inviáveis, mas verdadeiramente risíveis promessas de campanha como a tarifa zero no transporte público, do presidente Lula (PT), e de distribuição gratuita de celulares para mulheres de baixa renda, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Talvez possam até render votos, mas que ninguém se deixe enganar. O que o País realmente precisa é de um ajuste fiscal no ano que vem – assunto aparentemente proibido na campanha.

Campanha remunerada

Por O Estado de S. Paulo

Quarentena contra conflitos de interesse acaba financiando candidatos com dinheiro público

A quarentena remunerada, criada para impedir conflitos de interesse entre o Estado e a iniciativa privada, está financiando, com recursos públicos, candidatos que deixam o governo para a disputa.

A lógica da quarentena é conhecida. O Estado impede que determinadas autoridades, quando deixam o governo, passem imediatamente a atuar em atividades privadas potencialmente relacionadas às funções que exerciam. Nesse período, são remuneradas como forma de compensação. O problema surge quando essa mesma autoridade deixa o cargo não para ingressar na iniciativa privada, mas para concorrer a um mandato eletivo.

Como mostrou reportagem de O Globo, os ex-ministros Márcio França (PSB-SP) e Rui Costa (PT-BA) deixaram o governo para disputar as eleições deste ano, mas comunicaram à Comissão de Ética da Presidência terem recebido propostas de trabalho na iniciativa privada, o que lhes garantiu o enquadramento na quarentena remunerada. Cada um poderá receber até R$ 278 mil, levando em conta o salário de ministro por seis meses.

A desincompatibilização existe para afastar o candidato da máquina pública e impedir que as prerrogativas do cargo influenciem a disputa eleitoral. A quarentena existe para afastar a autoridade do setor privado e evitar conflitos de interesse. O encontro das duas regras produziu um efeito que ninguém parece ter antecipado.

Existe aí uma lacuna normativa. A legislação disciplinou a passagem do setor público para a iniciativa privada, mas ignora a situação de autoridades que deixam o governo para disputar eleições. O resultado é que dois regimes jurídicos concebidos para proteger a lisura da administração acabam produzindo um efeito colateral incompatível com a finalidade de ambos.

O paradoxo é ainda maior porque a campanha eleitoral já dispõe de mecanismos próprios de financiamento. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acaba de estabelecer limites de gastos que chegam a R$ 133,4 milhões para candidatos à Presidência e a R$ 40 milhões para candidatos ao governo de São Paulo, oriundos de um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. A remuneração compensatória da quarentena jamais foi concebida para integrar esse sistema de financiamento político.

Há ainda outro aspecto que causa desconforto. Para justificar a quarentena, é preciso demonstrar a intenção de assumir uma atividade privada que possa gerar conflitos de interesse. Mas se o próprio interessado sustenta que dedicará os meses seguintes à campanha eleitoral, é inevitável perguntar qual é a efetiva consistência dessas propostas de trabalho e em que medida elas representam uma perspectiva profissional concreta ou apenas um requisito formal para obtenção do benefício. Não se trata de presumir má-fé dos candidatos, mas de reconhecer que o modelo cria incentivos pouco compatíveis com a finalidade para a qual foi concebido.

Em um sistema que já reserva bilhões de reais para financiar campanhas eleitorais, é difícil justificar que a remuneração criada para evitar conflitos de interesse também acabe servindo para garantir renda pública aos candidatos durante a disputa.

O Estado está mais lento que o crime

Por O Estado de S. Paulo

Terceiro encontro do ‘Brasil Adiante’ debateu como conter facções que já afrontam o Estado de forma mais ágil e com maior alcance

O crime organizado avança no Brasil com uma vantagem que nenhuma força policial, hoje, parece capaz de conter: a agilidade. Foi essa a síntese do terceiro encontro do Brasil Adiante, iniciativa do Estadão que reúne especialistas para transformar diagnósticos conhecidos em propostas concretas a serem entregues, em novembro, a quem vencer a eleição presidencial.

Nesta rodada, dedicada à segurança pública, o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), resumiu o problema com precisão: “O crime organizado não está mais preparado que o Estado. Só é mais ágil, mais rápido que o Estado ao enxergar as lacunas, os setores de opacidade, de falta de fiscalização e de regulamentação legal”.

A frase explica por que o PCC e o Comando Vermelho deixaram de ser quadrilhas locais e hoje disputam, com espantosa desenvoltura, espaços na Faria Lima e na administração pública, além, claro, do domínio territorial que exercem em quase todas as regiões do País. Como lembrou Gakiya, “hoje é mais fácil perguntar onde o crime organizado não está”.

Diante dessa afronta, os painelistas convergiram para uma pauta que este jornal defende há tempos: a criação de uma agência nacional antimáfia, nos moldes da experiência italiana, capaz de coordenar a Polícia Federal e as polícias estaduais sob comando único e mandato definido. Não se trata de um fetiche institucional. É reconhecer, de uma vez por todas, que PCC e Comando Vermelho são organizações de caráter mafioso – com hierarquia, poder bélico e financeiro e presença em ao menos 28 países – e que só um órgão com essa natureza jurídica pode enfrentá-las.

A economista Cristina Pinotti apresentou outro ponto fundamental. Uma agência de Estado, permanente, com participação da sociedade civil, estaria blindada contra a mudança de ventos da política. É a mesma lógica que deveria orientar a integração das três esferas da administração pública no combate ao crime. Enquanto a Polícia Federal não conversa com as polícias estaduais, as facções operam sem fronteiras internas, como mostrou a Operação Carbono Oculto.

No evento, também se tratou do vácuo de governança cibernética no País como novo front do combate ao crime organizado, ameaça também mapeada pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE) sobre a qual tratamos recentemente (ver o editorial Sobra informação, falta ação, 22/7/2026). Fábio Diniz, do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime, alertou que a fragmentação entre órgãos como GSI e ANPD deixa o Brasil exposto a ataques contra os sistemas elétrico, financeiro e hídrico – outra frente em que faltam inteligência e capacidade de antecipação, não apenas reação a crimes já consumados.

Nenhuma dessas medidas, porém, terá efeito duradouro se o Estado não se depurar por dentro. Este jornal tem insistido: por mais bem formulada que seja, qualquer política de segurança pública fracassará enquanto houver policiais, promotores ou magistrados dispostos a vender seus serviços ao crime organizado. Como mostrou a Operação Janus, do MPSP, há graves suspeitas de que coronéis da cúpula da Polícia Militar paulista teriam se associado a membros do núcleo financeiro do PCC. Não há agência nacional antimáfia, por mais poderosa que seja, que sobreviva a corregedorias tíbias e espírito de corpo.

O Brasil Adiante não prega revoluções, mas saídas possíveis. O crime organizado não é maior nem mais poderoso que o Estado, apenas se aproveita de suas falhas. Destruí-lo, portanto, exige presença estatal permanente, integração federativa genuína e coragem e espírito público para expurgar os frutos podres do Estado. Por fim, é preciso um senso de urgência nacional. A agenda a ser entregue ao presidente eleito não valerá o papel em que for escrita se não vier acompanhada de liderança política para engajar os brasileiros em torno de sua implementação.

Barbárie contra as brasileiras

Por Correio Braziliense

A cada dia, quatro brasileiras perdem a vida pelo simples fato de serem mulheres.

O retrato da violência contra as mulheres no Brasil ganhou uma atualização na última semana. E o cenário é devastador. Pelo quarto ano consecutivo, o país bateu recorde em casos de feminicídio. Em 2025, foram 1.571 episódios registrados, em um aumento de 4% em relação a 2024, quando houve 1.504 ocorrências. Os dados fazem parte do Anuário da Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os números não deixam dúvida: vivemos em um país que odeia mulheres. A cada dia, quatro brasileiras perdem a vida pelo simples fato de serem mulheres. No intervalo de 10 anos, a frequência de feminicídio aumentou em uma proporção gravíssima. Esse delito foi tipificado em 2015 na legislação brasileira. Desde então, até o ano passado, os casos de feminicídio mais do que triplicaram. Passaram de 449 registros para as 1.571 ocorrências identificadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em parte, essa curva ascendente se deve à maior precisão no registro policial, que passou a tipificar o crime de feminicídio. Mas especialistas alertam que, fosse apenas isso, haveria uma estabilização na quantidade de casos. O que, se observa, no entanto, é um crescimento constante de vidas ceifadas pela brutalidade masculina — só na última semana, houve episódios bárbaros no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Para corroborar a gravidade da situação das mulheres, o Anuário da Segurança Pública aponta um aumento generalizado de outras formas de violência contra o gênero feminino: tentativa de feminicídio (6%); agressões decorrentes de violência doméstica (2,6%); violência psicológica (17%); ameaças ( 0,5%); descumprimento de medida protetiva (17%); stalking ( 30%).

Está claro, pois, que é preciso intensificar os esforços para combater a misoginia estrutural na sociedade brasileira, fruto de uma cultura patriarcal e machista mantida há séculos. Urge aplicar todos os dispositivos previstos na legislação para frear a bestialidade masculina, bem como adotar as medidas necessárias para combater o preconceito, a desigualdade e o pacto de silêncio que muitas vezes cerca a violência contra a mulher.

Na última sexta-feira, a questão da violência de gênero ganhou uma nova frente. O presidente Lula sancionou a lei que autoriza a venda de spray de pimenta para mulheres acima de 18 anos. Entre as regras definidas para a aquisição do equipamento, chama a atenção o veto presidencial ao dispositivo que permitia a venda do spray para jovens a partir de 16 anos. No momento em que brasileiras de 16 anos podem votar e o país debate a redução da maioridade penal, é questionável impedir uma adolescente de conter o avanço de um agressor.

Há outros pontos que merecem uma reflexão sobre esse instrumento de autodefesa. Especialistas alertam para o risco de o spray de pimenta potencializar uma reação ainda mais violenta do criminoso. Em novembro do ano passado, Beatriz Munhos, 20 anos, morreu com um tiro na cabeça ao reagir a um assalto utilizando um spray de pimenta. Analistas em segurança pública consideram o aerosol um aliado importante para a importunação sexual, mas alertam que pode ampliar o risco de mais violência quando o agressor está armado com faca ou revólver.

Há, ainda, de se considerar a utilidade do spray de pimenta em um contexto de violência doméstica. A maior parte das agressões contra as mulheres ocorre dentro de casa e é cometida pelo companheiro ou ex-companheiro. Será preciso coletar mais informações para saber se instrumentos como aerossol serão ferramentas importantes em um ambiente de tensão familiar e privado.

O que permanece incontestável é o estado de violência permanente contra a mulher no Brasil. A sociedade e o poder público têm o dever de combater essa chaga social que pune o gênero feminino, provoca tragédias e causa profundo sofrimento para milhões de famílias.

Menos assassinatos, mais feminicídios

Por O Povo (CE)

Na contramão do registro do menor patamar de mortes violentas em geral em mais de uma década, a quantidade de feminicídios bateram recorde em 2025 no Brasil. Ao longo de todo o ano passado, foram registrados 1.571 feminicídios, o que significa uma alta de 4% em relação aos 1.504 crimes registrados em 2024. O número representa 4 mulheres mortas por dia. É a maior quantidade de registros desde a criação desse tipo penal, que ocorreu no ano de 2015. Os dados foram divulgados na semana que passou e publicados pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública no Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O número de vítimas de feminicídio em 2025 é o maior número da série histórica, conforme o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O total representa uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres. Ou seja, isso consolida a tendência de crescimento desse tipo de crime no País e ratifica o quarto recorde consecutivo do indicador.

Esse lamentável aumento no número dos feminicídios contrasta com a redução dos demais indicadores de violência letal. O Brasil registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais em 2025 - uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior e a menor taxa da série histórica: 19,1 mortes por 100 mil habitantes. Além disso, o País antecipou em dois anos a meta nacional de redução dos homicídios prevista na Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social para 2027. Mesmo com esse índice, os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades de mortes violentas que cresceram no período.

Quando se observam os números por estado, percebe-se que o Amapá registrou um crescimento de 347,7% na taxa de feminicídios entre 2024 e 2025. Assim, alcançou 2,2 vítimas para cada 100 mil mulheres, o maior aumento percentual do País. Ficou à frente do Acre (que apresentou alta de 74,3% e taxa de 3,2) e de Rondônia (com alta de 66% e taxa de 2,9).

O estado amapaense registrou também o índice mais alarmante de sobreviventes da violência de gênero. Teve 14,9 tentativas de feminicídio para cada 100 mil mulheres em 2025, um volume quase quatro vezes superior à média brasileira.

O crime de feminicídio não pode ser entendido - pelos órgãos de segurança e pela sociedade em geral - como um fato isolado. Há diversas violências que ocorrem antes da morte. Para cada feminicídio registrado em 2025, houve 501,9 registros de ameaça, 182,2 ocorrências de agressão física, 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência, 78,8 casos de perseguição e 38,7 registros de violência psicológica. A violência de gênero continua crescendo no País e se manifestando de forma escalar. Não começa pelo ato mais grave em geral, mas há uma tendência de progressão ao longo do tempo. É preciso continuar noticiando que a crueldade de cada caso, mas é necessário também investir sempre e cada vez mais em proteção para as mulheres. 

Nenhum comentário: