Discussão técnica é essencial para desfazer tarifaço
Por O Globo
Empresas trazem ao debate em Washington
elementos mais sólidos do que o oportunismo político
Tem trazido sensatez aos debates a presença
de representantes do empresariado e do meio acadêmico nas audiências públicas
realizadas em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados
Unidos (USTR) sobre o processo em que o Brasil é acusado pelo
governo Donald Trump de
práticas comerciais injustas e discriminatórias. No mês passado, o USTR sugeriu
a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Nesta
semana, os afetados puderam apresentar seus argumentos, como já havia ocorrido
depois do primeiro tarifaço.
Numa demonstração de como a questão tem implicações políticas, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, compareceu às audiências para tentar reverter ao menos em parte o estrago provocado pela ação desastrosa de seu irmão Eduardo e de seu grupo de bolsonaristas junto ao governo Trump. Por trazer elementos mais sólidos, porém, é a atuação das empresas que poderá surtir algum efeito sobre as autoridades americanas.
As entidades presentes nas audiências terão
cinco dias para enviar documentação complementar, em seguida o USTR fará sua
recomendação final. Em paralelo, o governo brasileiro negocia com os
americanos. Como sempre ocorre com Trump, a decisão deverá ter fundo político.
Mas a melhor estratégia à disposição do Brasil é a ação conjunta entre governo
e o empresariado. Noutras ocasiões, Trump já se mostrou suscetível a pressões e
recuou.
O USTR acusa o Brasil de práticas que
considera prejudiciais aos Estados Unidos: decisões arbitrárias da Justiça
contra plataformas digitais, o uso de um sistema de pagamento eletrônico
desfavorável a bandeiras de cartão de crédito (Pix), tarifas baixas que
beneficiam produtos de outros países em detrimento dos americanos, barreiras ao
etanol, negligência na proteção da propriedade intelectual, no combate à
corrupção e ao desmatamento ilegal. Noutra investigação, que se debruçou sobre
alegações de trabalho forçado e incluiu vários países, o USTR propôs mais 12,5%
de tarifa sobre produtos brasileiros.
No primeiro dia de audiência, representantes
brasileiros mostraram que elevar as tarifas aumentará os custos da indústria
americana, com impacto inflacionário. “As perguntas foram mais técnicas, mais
específicas e mais aprofundadas”, disse ao GLOBO Marcos Matos, diretor-geral do
Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. Desta vez, entidades dos dois
países trabalharam de forma mais colaborativa. Em carta, multinacionais como
Coca-Cola, Nestlé, Tesla e eBay alertaram sobre os impactos negativos das
tarifas para o consumidor americano. No painel sobre o Pix, depoentes
ressaltaram que Índia e Estados Unidos também têm sistemas de pagamento
digital.
Desde o tarifaço de 2025, Trump tenta usar
barreiras comerciais para interferir em assuntos domésticos do Brasil.
Candidato preferido de Trump, Flávio encaminhou documento ao USTR solicitando
que as tarifas sejam adiadas para depois das eleições, pois agora podem
fortalecer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. É um argumento ruim, que reflete um misto de desespero com oportunismo.
Quanto mais distante a política se mantiver do debate, melhor. O tarifaço
deveria ser cancelado por ter bases frágeis. A saída são negociações técnicas e
sensatas.
É deletéria para o futebol a sujeição da Fifa
aos desígnios de Trump
Por O Globo
Depois de sofrer pressão, entidade suspendeu
punição a craque da seleção americana
Para quem admitiu nem saber para que serve um
cartão vermelho, Donald Trump parece
ter aprendido rápido as piores práticas da cartolagem no futebol. Num
expediente frequente nos tapetões da Justiça desportiva brasileira, Trump fez
pressão sobre o presidente da Fifa,
Gianni Infantino, para que fosse suspensa a punição decorrente do cartão
vermelho recebido pelo jogador Folarin Balogun, artilheiro da seleção dos Estados
Unidos, no jogo de quarta-feira contra a Bósnia e Herzegovina. Assim
Balogun poderia entrar em campo na partida seguinte contra a Bélgica. Em gesto
de deferência descabida, Infantino cedeu, e Balogun pôde jogar. De nada
adiantou a manobra. Os belgas venceram por 4 a 1. O episódio deixou claro,
contudo, que nem a entidade máxima do futebol está imune à pressão política.
Não foi a primeira vez que Infantino e a Fifa
se desdobraram em mesuras a Trump. Infantino o agraciou com um insólito Prêmio
da Paz da Fifa, simulacro do Nobel da Paz de que Trump se considerava
merecedor. Também cedeu à exigência para que a seleção do Irã — cujos jogadores
nada têm a ver com os crimes do regime dos aiatolás — tivesse de voltar ao
México depois de jogar nos Estados Unidos. E não reclamou quando o governo
americano, com base em regras imigratórias abstrusas, negou entrada no país ao
somali Omar Abdulkadir Artan, eleito melhor juiz da África em 2025, impedindo-o
de atuar na Copa do Mundo.
Também não foi a primeira vez que houve
pressão política pela suspensão de punição numa Copa. Em 1962, para que
Garrincha pudesse participar da final entre Brasil e Tchecoslováquia, a Fifa
relevou sua expulsão no jogo anterior. O então primeiro-ministro Tancredo Neves,
incentivado pelo presidente João Goulart, enviou mensagem para que não fosse
punido. A Fifa se rendeu ao argumento de que o lance não constava da súmula.
Garrincha jogou, fez dois gols, e o Brasil se sagrou campeão.
O caso de Balogun foi além de uma simples
mensagem. Mobilizou a cúpula do governo americano. O secretário de Comércio,
Howard Lutnick, e o diretor executivo do grupo da Copa do Mundo na Casa Branca,
Andrew Giuliani, convocaram advogados para ajudar a Federação Americana de
Futebol a formular o recurso. A Fifa atendeu a Trump com base no artigo 27 do
Código Disciplinar, que lhe permite “suspender total ou parcialmente” qualquer
medida punitiva. Algo semelhante ao “efeito suspensivo” frequente no Brasil.
Balogun voltará a ser punido no período de 12 meses, caso cometa a mesma falta
que provocou sua expulsão. Mas isso não redime a Fifa nem atenua os danos à
imagem do futebol.
É natural que dirigentes da Fifa tentem cultivar bom relacionamento com políticos. Mas a proximidade não pode interferir no que acontece em campo. O árbitro tem de ser a autoridade máxima dentro das quatro linhas do gramado. Como prega o próprio slogan da Fifa, o futebol deve unir os povos. A sujeição a qualquer demanda política ou ideológica é nociva ao espírito do esporte e deve ser repudiada.
Governo deveria pôr em prática sua tese
contra tarifas
Por Folha de S. Paulo
Em documento à gestão Trump, Itamaraty aponta
que sanções comerciais prejudicarão empresas e consumidores
Brasil e PT também fariam bem em rever
políticas protecionistas; Flávio Bolsonaro tenta dissociar-se da eventual
elevação das tarifas
dê Enquanto Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
e Flávio
Bolsonaro (PL) politizam a ameaça de
um novo tarifaço de Donald Trump,
o governo brasileiro apresentou ao americano argumentos técnicos e sensatos
contra a medida protecionista. Tão sensatos que o próprio Brasil deveria
levá-los mais em conta em suas políticas comerciais.
Em documento
enviado ao USTR, responsável pela gestão do comércio exterior nos
EUA, o Itamaraty contesta
os motivos elencados pelo órgão para recomendar impostos de 25% sobre uma série
de produtos do Brasil —as alegações incluem decisões judiciais contra
plataformas digitais, desmatamento ilegal, enfraquecimento do combate à
corrupção e até o Pix, entre outros.
Além de tratar de cada um desses temas, o
texto também cuida de apontar, com propriedade, as perdas para a economia
americana. Relata que 43 empresas e associações daquele país pediram exceções
ao tarifaço, devido à ausência de substitutos locais e ao risco de os custos
serem passados aos consumidores.
Nas palavras do Itamaraty, seriam afetadas
"empresas, cadeias produtivas, investidores e consumidores de ambos os
lados".
Trata-se de um reconhecimento singelo de que
o protecionismo comercial, historicamente praticado por populistas de esquerda
e direita a título de defesa da economia nacional, prejudica o bem-estar das
sociedades.
Seria desejável que tal entendimento também
pautasse uma revisão de velhas práticas protecionistas do país e das
administrações petistas —mas não convém alimentar maiores esperanças, ainda que
o Mercosul, em reação à ofensiva de Trump, esteja buscando novas parcerias.
Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a tarifa
média aqui é de 12%, bem acima do padrão do mundo desenvolvido e mesmo de
emergentes como México (8,5%)
e Chile (6%).
De acordo com o Banco Mundial, nossas importações equivalem a apenas 17,5%
do PIB,
uma das menores taxas do mundo.
Mantém-se há décadas a proteção à indústria
automobilística, hoje com taxação de 35% sobre importados, e a máquinas e
equipamentos em geral. Ainda neste ano, o governo Lula promoveu uma alta
generalizada de tarifas sobre produtos de informática, só recuando
parcialmente por temer desagradar eleitores.
De modo análogo, a proximidade de eleições também
nos EUA parece ser o melhor trunfo brasileiro contra a cruzada insana de Trump.
Como efeito secundário, o republicano prejudica ainda o aliado Flávio
Bolsonaro, que tenta pateticamente dissociar-se
das eventuais sanções americanas, a ele associadas pelo rival
petista.
É fato que o tarifaço de 2025, posteriormente
abrandado, foi apresentado pela Casa Branca como uma represália à então
iminente condenação de Jair
Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado. Desta vez,
entretanto, o obscurantismo protecionista tem novos pretextos.
Europa arde com atraso na adaptação climática
Por Folha de S. Paulo
Com terceira onda de calor, OMS alerta para
aumento de mortes; continente precisa adequar construções
O aquecimento global intensifica eventos
climáticos; estudo aponta que, há 50 anos, uma onda de calor como a de junho
teria 3,5°C a menos
Uma terceira
onda de calor ronda a Europa. Altas temperaturas já haviam acendido
um alerta em maio e causado estragos entre 20 e 28 de junho. Segundo relatório
recente do World Weather Attribution, essa segunda onda de calor foi a mais
severa desde 1950 em 18 das 19 capitais analisadas.
Em 2003, fenômeno similar matou cerca de 70
mil pessoas na região. O aquecimento global, causado pela queima de
combustíveis fósseis, tem intensificado os eventos climáticos.
O estudo da WWA aponta que, há 50 anos, uma
onda de calor como a do final de junho teria 3,5°C a menos; e, há 23 anos, as
chamadas noites tropicais —quando os termômetros se mantêm acima dos 20°C após
o pôr do sol— que viraram rotina em Reino Unido, Espanha e França teriam
um centésimo da probabilidade atual.
O evento de 2003 incentivou conscientização
popular e mobilização governamental, mas há muito a ser feito para que o
continente acostumado ao frio se adapte a temperaturas que, em alguns países,
superaram 40ºC.
As temperaturas na Europa subiram cerca de
0,56°C por década nos últimos 30 anos, mais que o dobro da média global. Mesmo
assim, estima-se que apenas 20% das edificações da região tenham ar-condicionado;
no Reino Unido, não se chega a 5%.
A Espanha registrou 1.029 mortes em excesso
no mês passado atribuíveis ao calor; França, Holanda e Bélgica somaram
em torno de 3.700 óbitos adicionais.
A Organização Mundial da Saúde alertou,
nesta terça (7), que a Europa pode
enfrentar "semanas mais mortais" e que menos da
metade dos seus Estados que são membros da entidade têm planos em vigor para
lidar com o calor.
O modelo espanhol, que oferece centros de
resfriamento em prédios como museus e repartições públicas, é elogiado por
especialistas. Mas é necessária uma grande revisão urbanística para adaptar as
construções europeias —casas, escolas, locais de trabalho e hospitais— ao clima atual,
o que envolve debates, inclusive políticos, sobre custos, demanda energética e
desigualdades.
Além de perdas de vidas e danos à saúde, o
calor extremo afeta o meio ambiente ao
contribuir para o ressecamento de áreas verdes que, assim, ficam mais
inflamáveis. No domingo (5), cerca de 17
mil hectares foram devastados por incêndios florestais em
França, Espanha e Portugal.
Agora, resta aos países europeus compartilhar suas experiências exitosas no combate aos efeitos fatais do calor extremo e acelerar a adaptação para um mundo cada vez mais quente.
Trump e a Fifa emporcalham o futebol
Por O Estado de S. Paulo
Escandaloso episódio da interferência do
presidente americano para anular a suspensão de um jogador dos EUA na Copa
conspurca a crença de que as regras do jogo valem para todos
Em poucos meses, sem muita dificuldade, o
presidente dos EUA, Donald Trump, arruinou a ordem mundial que os americanos e
seus aliados ocidentais levaram décadas para construir após a 2.ª Guerra. Logo,
não seria difícil para Trump arruinar também o arcabouço institucional que dava
ao futebol a sensação de que, pelo menos em campo, as regras valem para todos.
Bastou um telefonema.
Trump, como se sabe, ligou para o presidente
da Fifa, Gianni Infantino, para reclamar da suspensão, por cartão vermelho, de
um dos principais atletas da seleção dos EUA na Copa do Mundo. Para ele, não
era justo que o melhor jogador do seu time fosse excluído – e sobrou até para o
árbitro do jogo, o brasileiro Raphael Claus, qualificado de “suspeito” por
Trump a partir de um dossiê produzido pela Casa Branca com informações
distorcidas e teorias da conspiração.
O próprio presidente americano relatou sua
iniciativa a jornalistas, sem qualquer constrangimento – palavra que, afinal,
não existe no léxico trumpista. Para Trump, o tal atleta havia sido expulso
injustamente e deveria ser autorizado a jogar a partida seguinte, anulando-se a
suspensão automática imposta pelas regras da Fifa.
Trump alega que não mandou a Fifa fazer nada,
apenas reclamou, e que a decisão de reabilitar o jogador a despeito das regras
foi da entidade, corrigindo o que, em sua opinião, era um erro flagrante. E ele
tem razão: a responsabilidade por permitir que o jogador atuasse mesmo contra
as regras cabe inteiramente à Fifa. Com a mesma dose de cinismo, Infantino
alegou que a anulação da punição ao tal jogador foi uma decisão “técnica”
tomada por organismos da Fifa sobre os quais ele não tem controle. Ora, se
assim fosse, a punição teria que ter sido necessariamente mantida, porque a
regra é clara: jogador expulso tem de cumprir pelo menos um jogo de suspensão,
mesmo que a expulsão tenha sido injusta.
Pode-se argumentar que seria muito difícil
para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, recusar-se a levar em consideração
uma reclamação de Donald Trump, que não só é o presidente do país mais poderoso
do mundo, como já deixou clara sua vocação de chefe mafioso – para quem a
lealdade e a submissão contam mais do que leis e regulamentos. Portanto, era
preciso realmente uma certa dose de coragem para enfrentar Trump e fazer valer
o que está escrito nas regras.
Ocorre que a Fifa nunca foi um exemplo nem de
coragem nem de lisura. Pelo contrário: jactando-se de ter mais filiados do que
o total de países-membros da ONU, a Fifa sempre se pautou pela flexibilidade
moral. A escolha das sedes, por exemplo, costuma ter como critério não apenas
aspectos técnicos, mas também o peso político e econômico das candidatas e o
quanto esses fatores interessam para os projetos de poder da Fifa.
Está longe de ser casual que países árabes
sem a menor tradição no futebol, mas com amplo poderio financeiro, como Catar e
Arábia Saudita, tenham sido escolhidos recentemente para receber a Copa.
Abundam denúncias de corrupção nesses e em outros casos, mas, como o futebol
costuma ser tratado como um universo paralelo, no qual certas leis do mundo
real não se aplicam, fica tudo por isso mesmo. O que vale é a satisfação da
paixão popular.
Assim, não é estranho que Gianni Infantino
tenha cedido à pressão de Trump, mesmo que a Fifa tenha leis muito claras
contra interferência política no futebol. Pelo contrário, estranho seria se o
presidente da Fifa traísse a natureza da entidade e delicadamente lembrasse ao
presidente dos EUA que as regras foram feitas para todos e que ele não poderia
fazer nada no caso do jogador americano suspenso.
A despeito de tudo isso, não se pode tratar
esse episódio com naturalidade. Mesmo considerando-se que a Fifa é o que é, o
futebol em si mesmo ainda preservava um território ético intocado, no qual
todos os envolvidos – jogadores, torcedores, técnicos – acreditavam que o jogo
era disputado em condições de igualdade tais que, mesmo diante de um eventual
abismo técnico entre os times, qualquer um poderia vencer. Agora, depois da
bem-sucedida intervenção de Trump na Copa do Mundo, esse território foi
conspurcado, e talvez o mundo do futebol nunca mais volte a ser o mesmo.
Delírio fiscal
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto os economistas do País preveem um
inevitável e duro ajuste fiscal em 2027, o esperançoso ministro do Planejamento
prevê superávit sem aumentar impostos nem cortar gastos
Os principais economistas e especialistas em
contas públicas preveem que o País terá de fazer um brutal choque de gastos no
ano que vem para evitar o colapso das contas públicas semelhante ao que vimos
em 2015 e 2016, durante o governo Dilma Rousseff. Mas o esperançoso ministro do
Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, garantiu ao Estadão que o País vai
atingir um superávit primário em 2027, sem que para isso seja preciso aumentar
impostos ou promover um drástico corte de despesas.
Não parece algo minimamente crível, mas é
exatamente o que diz o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) que o
governo enviou ao Congresso Nacional em abril. E será com base nele que o
Executivo pretende apresentar o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) em
agosto.
A julgar pela entrevista de Moretti, tudo
será diferente a partir de agora, e o Executivo, enfim, perseguirá o centro de
meta em 2027 – o que nunca fez desde que propôs e aprovou o arcabouço fiscal –
e alcançará um saldo positivo de R$ 73,22 bilhões entre receitas e despesas, o
equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para chegar a esse resultado – insuficiente
para estabilizar a trajetória da dívida pública, mas ambicioso para o padrão
fiscal dos governos lulopetistas –, bastarão “instrumentos” de gestão do
Orçamento, como gatilhos para conter gastos com pessoal e benefícios
tributários, assegurou o ministro.
Difícil acreditar nas previsões do ministro
quando o próprio Tesouro Nacional trabalha com um cenário bem diferente. Na
edição mais recente do Relatório de Projeções Fiscais, o órgão prevê que o País
encerrará o ano de 2027 com déficit de 0,1% do PIB, e só conseguirá atingir o
piso da meta, de 0,25%, considerando todas as despesas que podem ser excluídas
do cálculo, como precatórios.
Se o objetivo for cumprir o centro da meta,
ou seja, 0,5% do PIB, será preciso adotar medidas adicionais para aumentar a
arrecadação ou contingenciar despesas equivalentes a 0,2% do PIB, de acordo com
as projeções do Tesouro Nacional. Não é algo trivial, mas, para o período entre
2028 e 2030, esse esforço teria de ser ainda maior, da ordem de 1,2% do PIB,
diz o relatório.
O otimismo de Moretti é calculado – afinal,
números dizem qualquer coisa, sobretudo quando eles vêm da Junta de Execução
Orçamentária em um ano eleitoral. A questão é que as variáveis macroeconômicas
e fiscais com as quais o Executivo trabalha parecem boas demais para ser
verdade, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado.
De acordo com o Relatório de Acompanhamento
Fiscal da IFI, “isso influenciaria as projeções futuras de despesas e receitas,
gerando um cenário de resultados primários pouco factíveis sem ajustes fiscais
relevantes, afetando, consequentemente, as estimativas para a dívida pública”.
Para estabilizá-la, calcula a IFI, seria necessário gerar um superávit de 2,1%
do PIB, a cada ano.
Moretti prefere tapar o Sol com a peneira a
reconhecer que o governo não tem feito um esforço fiscal compatível para esse
objetivo. “Nosso papel é demonstrar a potência dessa agenda, demonstrar como
nós vamos evoluir no processo de consolidação fiscal até para trazer a valor
presente uma confiança capaz de afetar os preços dos ativos financeiros”,
disse.
A equipe econômica do governo Lula defende a
meta fiscal como se ela fosse um fim em si mesmo e culpa as taxas de juros pelo
aumento da dívida. De fato, é mais fácil assumir essa tese do que admitir que a
política fiscal foi expansionista desde que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva foi eleito e antes mesmo que ele tomasse posse.
“Não concordo que a gestão fiscal seja o
ponto central ou o único ponto para explicar o juro elevado”, afirmou o
ministro, que prefere atribuir a piora das expectativas de inflação a questões
climáticas, à expectativa do El Niño e ao choque do petróleo causado pela
guerra no Oriente Médio. A verdade é que nem os números nem o discurso do
ministro convencem. E se Lula for reeleito e insistir nessa tese, o País terá
de se preparar para tempos ainda mais difíceis.
O fim de uma indecência
Por O Estado de S. Paulo
Primeira Turma do STF finalmente acaba com a
aposentadoria compulsória como pena para maus juízes
Depois de demolir o teto remuneratório para o
Judiciário e o Ministério Público e referendar a validade dos supersalários
para a elite das carreiras jurídicas, o Supremo Tribunal Federal (STF) deu um
prêmio de consolação à sociedade ao dar fim à indecente aposentadoria
compulsória como pena administrativa máxima para juízes que cometam infrações e
crimes. A decisão se deu em uma ação movida por um juiz estadual de Mangaratiba
(RJ) que tentava reverter sua aposentadoria compulsória, determinada pelo
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após a descoberta de irregularidades pela
Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
O julgamento foi concluído no dia 30 passado,
quando a Primeira Turma do STF rejeitou recurso da Procuradoria-Geral da
República (PGR) e acompanhou a tese do relator, ministro Flávio Dino. Coube ao
ministro e ex-senador da República lembrar aos colegas que a “aposentadoria com
subsídios ou proventos proporcionais ao tempo de serviço” deixou de existir
enquanto “punição” em 12 de novembro de 2019, data em que a reforma da Previdência
foi promulgada pelo Congresso.
A existência da aposentadoria compulsória por
si só já era um escárnio, mas a forma como ela foi mantida foi um desrespeito
com o Congresso Nacional. A despeito da decisão do Legislativo, o CNJ continuou
a aplicá-la nos últimos seis anos com base em dispositivo da Lei Orgânica da
Magistratura Nacional (Loman), de 1979, e amparada em uma interpretação
elástica da Constituição, segundo a qual os parlamentares, ao suprimirem o
termo “aposentadoria” no inciso VIII do artigo 93 da Constituição, que trata do
Judiciário, não a proibiram. Parece piada, mas é assim que a Justiça funciona
no País.
Por meio de embargos de declaração, a PGR
argumentou que a decisão esvaziava o princípio da vitaliciedade assegurado aos
magistrados no artigo 95 da Constituição. Dino, corretamente, reafirmou que
vitaliciedade não era o mesmo que imunidade ou impunidade. Com a decisão,
magistrados que cometerem faltas graves serão alvo de ação judicial de
iniciativa da Advocacia-Geral da União (AGU) propondo a perda do cargo perante
o STF após decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O processo garantirá
amplo direito de defesa, e os magistrados só perderão o cargo depois de
encerrados todos os recursos cabíveis.
A decisão trouxe um mínimo de alento ao País,
e não foi coincidência que ela tenha saído no mesmo dia em que o plenário do
STF manteve tantas regalias para as carreiras jurídicas, inclusive o retorno do
antigo quinquênio. A aposentadoria compulsória sem dúvida era um privilégio,
mas se configurava mais como exceção. Dados do próprio CNJ mostram que apenas
126 juízes e desembargadores foram punidos com a aposentadoria compulsória nos
últimos 20 anos.
Já os penduricalhos são a regra e continuarão a engordar o contracheque de todos os magistrados, procuradores, promotores e defensores públicos de todo o País. Perto de tantas benesses, abrir mão da aposentadoria compulsória para garantir os supersalários certamente valeu a pena para a categoria.
Déficit dos EUA aumenta em meio a escalada
protecionista
Por Valor Econômico
As consequências de um ano e meio de protecionismo foram adversas aos Estados Unidos, como se previa
O comércio mundial driblou as tarifas do
presidente Donald Trump, que está novamente empenhado em aumentá-las.
Estatísticas oficiais divulgadas ontem — no mesmo dia da última audiência
pública antes de o Representante Comercial decidir se aplicará mais 25% de
sobretaxas sobre US$ 14,9 bilhões de vendas brasileiras ao país — mostraram que
a receita protecionista dos EUA continua não dando certo. O déficit comercial
americano em mercadorias aumentou para US$ 106,5 bilhões em maio. O superávit
em serviços fez o resultado total da balança ser negativo em US$ 77,6 bilhões,
42,2% maior que o de abril.
O governo Trump, depois que teve sua ofensiva
tarifária iniciada em 2 de abril de 2025 derrubada pela Suprema Corte,
estabeleceu taxas de 10% sobre as importações de quase todos os países,
enquanto busca aumentá-las de forma ampla de duas maneiras. Pela seção 301 da
lei de comércio de 1974, quer punir práticas e políticas consideradas lesivas
às empresas americanas, além de procurar sobretaxação adicional, de 10% a
12,5%, de 59 países (inclusive Brasil) e a União Europeia por terem falhado em
coibir importações de bens que utilizam trabalho escravo. A sobrecarga
brasileira seria das maiores: 25% no primeiro caso e 12,5% no segundo, em total
de 37,5%.
As consequências de um ano e meio de
protecionismo foram adversas aos Estados Unidos, como se previa. O país consome
15% das importações mundiais, e o impacto no comércio mundial foi pequeno se
comparado aos temores com o choque inicial. Os principais países atingidos
redirecionaram suas vendas; vários deles, como a China fez com o Vietnã, para
ter acesso indireto ao mercado americano. Outros, como o Brasil, ampliaram o
esforço exportador em várias direções.
Esse esforço tornou-se bem-sucedido em boa
parte porque as trocas globais de mercadorias aumentaram para 5,5% nos 12 meses
encerrados em julho, segundo a Oxford Economics, mesmo com o choque do
petróleo. Um ator de peso permitiu isso: a inteligência artificial. Os enormes
investimentos nela, em especial nos EUA, levaram os bens relacionados à IA a
somar um quarto das importações totais do país, ante apenas 9% em 2024. Os
países asiáticos e o México foram os principais beneficiários da demanda
americana.
As importações de bens de capital pelo
mercado americano, que incluem computadores, semicondutores e outros
componentes, cresceram 42% em 12 meses até maio. China e países asiáticos foram
responsáveis por 80% do crescimento do comércio desses itens. A balança
comercial de maio dos EUA ilustra essa dependência de importações. Houve
déficit de US$ 20,6 bilhões com o Vietnã, US$ 20 bilhões com o México, US$ 19,4
bilhões com Taiwan e até mesmo com a China (US$ 14,5 bilhões).
A primeira onda de tarifas elevou os preços,
que foram inflados na sequência pelo choque de petróleo motivado pelos ataques
dos EUA e de Israel ao Irã. A inflação subiu bastante, quase tanto quanto caiu
a aprovação de Trump nas pesquisas — 36%, segundo a Reuters-Ipsos. O índice de
preços ao consumidor (CPI) fechou maio em 4,2% anuais, pouco acima dos 4,1% dos
gastos pessoais de consumo, e dos 3,4% do núcleo desses gastos, a medida
predileta do Federal Reserve. Os índices estão bem acima dos 2% da meta de
inflação, e os investidores temem agora que o Fed irá em algum momento elevar
os juros, o contrário do que Trump desejaria que ocorresse quando escolheu o
novo presidente do banco, Kevin Warsh.
O saldo da balança comercial brasileira, por
seu lado, sobe a cada nova estimativa. No ano, até a primeira semana de julho,
chegou a US$ 44,6 bilhões, ante US$ 37,1 bilhões no mesmo período de 2025.
Segundo a Câmara Americana de Comércio, as vendas dos itens tarifados em 10%
pelos EUA recuaram 25,9%, e as dos incluídos na seção 232, como semiacabados de
ferro, madeira, caminhões e cobre, caíram 6,7%. Mas o Brasil elevou exportações
em 21,9% para a China e em 12,8% para a UE.
Nas audiências de anteontem e ontem nos EUA
para discutir a taxação, empresários brasileiros e americanos (Coca-Cola, Tesla
e e-Bay) foram didáticos ao mostrar que as tarifas são prejudiciais aos
consumidores americanos. Primeiro, porque 62% das importações vindas do Brasil
são de bens intermediários para produção doméstica, segundo a Confederação
Nacional da Indústria, e a taxação encarecerá os produtos finais
significativamente, elevará a inflação e reduzirá a competitividade das
empresas americanas.
O maior argumento contra a punição foi ignorado pelos EUA, o de que o Brasil tem déficit comercial e de serviços com o país e que a tarifa média incidente sobre bens americanos é de apenas 2,6%. O governo brasileiro e as empresas têm razão em qualificar a ameaça de tarifação de 37,5% de injusta, arbitrária e nociva aos dois países. O Planalto escolheu acertadamente a via da negociação, não da retaliação, e colocou sobre a mesa proposta para negociação em fases com redução de alíquotas brasileiras para bens de setores em que os EUA dominam o mercado. Trump tende, assim mesmo, a punir o Brasil. O veredito do USTR, a ser dado em 15 de julho, não o obriga a aplicar as tarifas e, muito menos, imediatamente. Se a janela das negociações se reabrir, há chances de o Brasil aliviar a supertaxação.
O preço da interferência
Por Correio Braziliense
O que o setor produtivo brasileiro precisa é
de previsibilidade e segurança jurídica, ativos que desaparecem quando o debate
técnico é substituído pela súplica partidária em tribunais estrangeiros
A audiência pública realizada ontem em
Washington expôs uma ferida que o pragmatismo diplomático costuma tentar
mascarar: o uso de decisões de Estado estrangeiras como combustível para as
urnas brasileiras. Ao apelar diretamente ao governo de Donald Trump para que
cancele a imposição de novas tarifas ao Brasil sob a justificativa de que a
medida beneficiaria o presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro admitiu
a instrumentalização do cenário econômico como arma eleitoral.
Independentemente da decisão a ser tomada pela Casa Branca, a questão é
estratégica para as campanhas.
E o erro de diagnóstico é compartilhado. Ao
rebaixar o debate técnico de barreiras alfandegárias a um cálculo de
conveniência partidária, as lideranças nacionais abrem mão da altivez
institucional. Se os Estados Unidos recuarem para evitar o fortalecimento do
atual governo, estarão interferindo; se avançarem com o protecionismo agressivo
da doutrina Trump ignorando o apelo, moldarão a percepção do eleitorado pelo
sufocamento econômico. De qualquer forma, o comércio bilateral e seus efeitos
diretos no bolso do brasileiro se tornam variáveis dependendo de um cálculo que
não foi feito em Brasília.
O custo dessa contaminação já é tangível.
Empresários que dependem do mercado americano não sabem se planejam estoques,
contratos e investimentos para um Brasil com ou sem tarifas. O câmbio oscila
não apenas por fundamentos macroeconômicos, mas por declarações de senadores em
audiências estrangeiras. O setor exportador, que deveria estar negociando
prazos e volumes, está de olho em bastidores diplomáticos que não controlam e
nos quais não têm voz.
O comércio entre as duas maiores economias do
hemisfério não pode flutuar ao sabor de pesquisas de intenção de voto ou da
afinidade ideológica entre dinastias políticas. O que o setor produtivo
brasileiro precisa é de previsibilidade e segurança jurídica, ativos que
desaparecem quando o debate técnico é substituído pela súplica partidária em
tribunais estrangeiros. Concessões feitas com base em alinhamentos automáticos
cobram um preço alto e entregam poucos resultados práticos. A história recente
das relações internacionais está cheia desse tipo de conta.
Cabe às instituições brasileiras tentar
isolar ao máximo os efeitos colaterais dessa disputa. Flutuações de preços,
pressões cambiais e restrições de mercado decorrentes do embate em Washington
não podem ser digeridas pelo eleitor como peças de propaganda de nenhum lado. A
estabilidade do processo democrático depende da capacidade das instituições de
blindar o debate público do contágio externo e de deixar claro que as decisões
tomadas em Washington não têm o poder de definir quem governa o Brasil.
A escolha do próximo ocupante do Planalto diz respeito unica e exclusivamente aos cidadãos brasileiros. O protecionismo americano, disfarçado ou não de conveniência política, não deve se sobrepor à autodeterminação de um parceiro estratégico. E governantes e candidatos precisam entender que o resultado de outubro, afinal, não pode depender de negociações nos bastidores estrangeiros.
Flávio faz acenos aos Estados Unidos em
discurso
Por O Povo (CE)
O pré-candidato prometeu libertar o Brasil
das "amarras do Mercosul" e também impor limites ao Pix
ois dias do Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, pela sigla em inglês) concluiu-se ontem, em
Washington. O propósito do encontro foi discutir a sobretaxa de 25% sobre
produtos brasileiros, marcada para vigorar a partir do dia 15 deste mês. O
encontro não teve caráter decisório, pois o papel do USTR é investigar supostas
práticas comerciais desleais adotadas pelo Brasil.
Assim, a audiência pública cumpre o propósito
de ouvir empresários e a sociedade civil sobre o assunto. O governo brasileiro
enviou apenas observadores da embaixada brasileira em Washington ao evento,
pois a negociação sobre as tarifas é realizada bilateralmente, entre equipes de
técnicos dos dois países, que estão se reunindo regularmente. Mas o
pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursou no evento.
Além da questão técnica, o assunto tornou-se
tema da política, desde que o tarifaço de 50%, em 2025, foi justificado pelos
Estados Unidos por exigências que iam além da questão comercial, como anistia
para Jair Bolsonaro e sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF), medidas apoiadas por Eduardo e Flávio, filhos do ex-presidente.
No decorrer do tempo, principalmente depois
de se tornar pré-candidato a presidente da República, Flávio passou a fazer
reparos à sua posição inicial, culminando com mudanças no discurso, como
apresentado na audiência pública do USTR, quando defendeu o
"cancelamento" das novas tarifas e abertura de negociações. Ele
argumentou que esse seria "o pior momento possível" para aplicar as
tarifas, pois "o cenário político vai estar diferente em 90 dias",
aparentemente uma referência à sua suposta vitória na eleição presidencial de
outubro.
Até mesmo gigantes da economia estadunidense,
como Coca-Cola, Tesla e eBay (plataforma de comércio eletrônico), pedem a
retirada das tarifas ou a ampliação de setores isentos da sobretaxa. As
empresas alegam que esta nova tarifa pode trazer ônus em curto prazo nas
cadeias de produção e, além disso, destacam que a medida prejudica os
consumidores americanos.
O pré-candidato fez um discurso o qual
procurou agradar ao governo americano, afirmando que é preciso buscar acordos
bilaterais com os Estados Unidos para libertar o Brasil das "amarras do
Mercosul". Além disso, a proposta de Flávio é impor limites ao Pix,
prometendo não conectar o sistema brasileiro a meios de pagamento instantâneo
internacionais não ocidentais — e, ainda, desonerar o segmento de cartões de
crédito, o que beneficiaria grandes empresas dos EUA.
Portanto, o Brasil deve continuar negociando; no entanto, é preciso traçar alguns limites, mantendo a altivez, a defesa dos interesses brasileiros e a defesa da soberania nacional. As negociações seguem até o dia 15 deste mês, quando algum resultado deverá ser anunciado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário