sábado, 25 de julho de 2026

O recuo de Flávio, o avanço de Michelle, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Michelle Bolsonaro pavimenta sua relevância no campo da direita mais extremada e cria o cenário para, em 2026, congregar políticas mulheres eleitas ou não que ela ajudou a projetar ou fortalecer

A candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta sinais de esgotamento. Esta semana, que antecede as convenções partidárias, foi especialmente amarga para o filho do ex-presidente. Desafios em múltiplos flancos contribuíram para o quadro: as revelações relacionadas ao caso Master, a querela com Michelle Bolsonaro e a inabilidade em costurar alianças viáveis com os partidos do Centrão.

Não se pode estabelecer um paralelo entre as eleições de 2018 e as de 2026: mais dependente de apoio, o filho de Jair Bolsonaro não pode se permitir os excessos que levaram seu pai à presidência. Há dois dias, depois da notícia de que seu escritório de advocacia recebeu uma quantia significativa de empresas ligadas ao Banco Master, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo, pedindo desculpas públicas à ex-primeira-dama.

A mudança de tom é evidente: se antes o enteado se mostrava arredio diante da madrasta queixosa, deixando por conta dela qualquer iniciativa de conciliação, no vídeo publicado em suas redes sociais, vemos um Flávio fragilizado, evidenciando um desespero típico de quem está à espera de uma catástrofe. Para Michelle, o custo de publicar, horas depois, um vídeo de perdão foi muito menor. Ela só ganha com o episódio, comprovando que o recuo tático representado pelo afastamento do PL Mulher foi muito inteligente e a fortaleceu.

É bem provável que a ex-primeira-dama saia das eleições com um mandato no Senado Federal e com um capital político muito robusto junto à base do eleitorado evangélico. Ela pavimenta sua relevância no campo da direita mais extremada e cria o cenário para congregar políticas mulheres eleitas ou não que ela ajudou a projetar ou fortalecer. Reafirma, com as eleições, uma identidade bem resolvida e um campo fértil para trabalho futuro. Já Flávio, corre risco de terminar o ano sem foro privilegiado e sem o espólio, cada vez mais etéreo, do pai. Para Michelle, pensando sob uma ótica de projeto pessoal, é até vantajoso ver o enteado derrotado nas eleições.

Os efeitos da fragilidade de Flávio já são perceptíveis no Ceará. Ciro Gomes declarou a possibilidade de votar em Ronaldo Caiado ou Renan Santos para a presidência. O pré-candidato o fez na mesma semana em que o apoio do PL à sua candidatura foi confirmado. Tenho reafirmado que a contradição nas alianças de Gomes torna o trabalho de qualquer marqueteiro muito difícil. Não por outra razão, Michelle Bolsonaro, sempre que pode, chama atenção para a falta de lealdade do político cearense com o bolsonarismo, que não convive bem com o pragmatismo de ocasião.

Pensando no futuro, Michelle é bastante ciente de quem deseja salvar e de quem é melhor deixar pelo caminho para se apagar como contradição e memória.

*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará.

Nenhum comentário:

Postar um comentário