quarta-feira, 22 de julho de 2026

O sincericídio de Gabrielli, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Coordenador do programa de Lula, ex-presidente da Petrobras cita controle de capitais e é enquadrado

A disputa pelos rumos de um eventual quarto mandato do presidente Lula tem provocado atritos na cúpula da campanha petista. As principais divergências estão na seara econômica e há mal-estar no PT e na Fazenda com declarações de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula.

Na sexta-feira, por exemplo, Gabrielli se reuniu com representantes do mercado financeiro, em São Paulo, e defendeu o controle de capitais, além do aumento do salário mínimo para estimular a saída dos beneficiários do Bolsa Família.

Nada que o PT não pregasse antes, mas que, numa campanha agressiva como a atual, se tornou um “sincericídio”. Não é só: serviu para deixar a Faria Lima – mesmo aquele pedaço que rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) – com a pulga cada vez mais atrás da orelha.

Antes desse encontro, Gabrielli já havia destacado, em entrevistas, temas incômodos para a Fazenda, como a necessidade de mudanças no arcabouço fiscal para ampliar investimentos e gastos sociais.

Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, não gostou dessa abordagem.

Dario Durigan, atual titular da pasta, também não. Durigan, aliás, terá várias reuniões com o mercado nos próximos dias.

De qualquer forma, após o ruído com a Faria Lima, o Palácio do Planalto enquadrou o expresidente da Petrobras. Procurado, ele não quis se manifestar.

“Nós não precisamos de uma nova Carta ao Povo Brasileiro”, disse à coluna o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo, numa referência ao documento lançado pelo então candidato do PT, em 2002, para garantir que não era um bichopapão e acalmar o mercado.

Questionado sobre a queda de braço nas fileiras do PT, Marco Aurélio afirmou que Lula não tem porta-voz e só ele fala sobre o seu programa. “Mas nós não daremos um cavalo de pau na economia nem faremos nada pirotécnico”, observou o advogado, que também coordena o grupo Prerrogativas.

O embate na cúpula do PT sobre a condução da economia não é de hoje. No primeiro mandato de Lula ficaram famosas as alfinetadas entre José Dirceu, então ministro da Casa Civil, e Antônio Palocci, à época titular da Fazenda. Em 2023, com Gleisi Hoffmann à frente do PT, o partido batizou o arcabouço de “austericídio fiscal”.

Nos bastidores, o coro que faz mais barulho no PT ainda assina embaixo dessa avaliação. Mas o Planalto editou a medida provisória do silêncio e nada disso aparecerá na plataforma de Lula. Se o presidente for reeleito, aí, sim, a briga terá novos capítulos. Todos com desfecho imprevisível.

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