quinta-feira, 9 de julho de 2026

Onde falta cair a ficha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política

No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.

Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.

Antes se associava corrupção (dos valores, das condutas, da moral, fora o roubo) aos “políticos”. Em todos os níveis no Executivo e, especialmente, no Legislativo. Hoje a percepção, nada subjetiva, é a de que o topo do Judiciário também não merece mais confiança.

É importante notar que, em conversas privadas, integrantes tanto do governo quanto de várias correntes de oposição convergem em dizer que “o Supremo, entregando dois ministros” (está subentendido que são os nomes envolvidos no escândalo Master), a coisa se resolve. Que coisa? A profunda dissolução da legitimidade das instituições? O destrutivo desequilíbrio na relação entre os Poderes? Como ganhar causas via parentes de integrantes de tribunais superiores?

A complexidade da situação que o País enfrenta se dá sobretudo por fatores que os agentes políticos já não controlam ou apenas em parte. Eles são demografia (impacta Previdência), estagnação na produtividade (impacta crescimento econômico), crime organizado (impacta não só autoridade do Estado) e vulnerabilidade externa (impacta defesa e potencializa choques geopolíticos).

Mas é um país beneficiado pela posição geográfica, pela extraordinária abundância de todo tipo de recursos, por um apreciável mercado interno, por capital humano que realizou a revolução da agricultura tropical e produziu excelentes resultados de inovação tecnológica na extração de petróleo e indústria aeronáutica, por exemplo. Por isso mesmo, paradoxalmente beneficiado por alguns aspectos da destruição da ordem internacional.

O debate público eleitoral, constrangido pela enfadonha polarização, não contempla nada disso – nem os dilemas nem as oportunidades. Ao contrário, não parece haver saída do confronto entre um governo desarticulado e com prazo de validade há muito vencido (sobretudo no campo das ideias) e um tipo de oposição comandada por um clã familiar de notável incompetência – para nem se falar de problemas morais.

Mas não caiu ainda a ficha de como é medíocre um tipo de populismo enfrentando o outro.

 

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