O Estado de S. Paulo
A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política
No futebol a ficha para o Brasil caiu logo,
pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau
resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do
futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa
mediocridade.
Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.
Antes se associava corrupção (dos valores,
das condutas, da moral, fora o roubo) aos “políticos”. Em todos os níveis no
Executivo e, especialmente, no Legislativo. Hoje a percepção, nada subjetiva, é
a de que o topo do Judiciário também não merece mais confiança.
É importante notar que, em conversas
privadas, integrantes tanto do governo quanto de várias correntes de oposição
convergem em dizer que “o Supremo, entregando dois ministros” (está
subentendido que são os nomes envolvidos no escândalo Master), a coisa se
resolve. Que coisa? A profunda dissolução da legitimidade das instituições? O
destrutivo desequilíbrio na relação entre os Poderes? Como ganhar causas via
parentes de integrantes de tribunais superiores?
A complexidade da situação que o País
enfrenta se dá sobretudo por fatores que os agentes políticos já não controlam
ou apenas em parte. Eles são demografia (impacta Previdência), estagnação na
produtividade (impacta crescimento econômico), crime organizado (impacta não só
autoridade do Estado) e vulnerabilidade externa (impacta defesa e potencializa
choques geopolíticos).
Mas é um país beneficiado pela posição
geográfica, pela extraordinária abundância de todo tipo de recursos, por um
apreciável mercado interno, por capital humano que realizou a revolução da
agricultura tropical e produziu excelentes resultados de inovação tecnológica
na extração de petróleo e indústria aeronáutica, por exemplo. Por isso mesmo,
paradoxalmente beneficiado por alguns aspectos da destruição da ordem
internacional.
O debate público eleitoral, constrangido pela
enfadonha polarização, não contempla nada disso – nem os dilemas nem as
oportunidades. Ao contrário, não parece haver saída do confronto entre um
governo desarticulado e com prazo de validade há muito vencido (sobretudo no
campo das ideias) e um tipo de oposição comandada por um clã familiar de
notável incompetência – para nem se falar de problemas morais.
Mas não caiu ainda a ficha de como é medíocre
um tipo de populismo enfrentando o outro.

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