Folha de S. Paulo
A direita aclimatada ao jogo democrático perde primazia para populistas
Populismo de direita torna imponderável o
futuro do sistema representativo
"Bolsonaro tem os votos", constatou
o presidente do PL, Valdemar
Costa Neto, ao avaliar a importância da carta na qual o ex-presidente, em
prisão domiciliar, reiterou seu apoio à candidatura do primogênito. A
declaração vale para o momento, mas também retrata a dependência das forças da
direita tradicional da musculatura eleitoral de sua expressão política mais
extremada.
A mudança do centro de gravidade do campo direitista nesse rumo não é peculiaridade brasileira. A extrema direita avança no Ocidente, observa Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em lúcido artigo publicado em O Estado de S. Paulo, na segunda-feira (13).
Por toda parte, a direita aclimatada ao jogo
democrático vai perdendo primazia para partidos e lideranças populistas que desdenham
das regras do sistema. Nos Estados
Unidos, chegaram ao poder com Donald Trump,
depois de tomar de assalto o Partido Republicano. Na Europa, a extrema direita
governa a Itália e
participa das coalizões governantes na Finlândia, na Croácia e na Eslováquia.
Já se transformou na segunda força em nada menos que sete países: Espanha,
Portugal, Alemanha, França, Áustria, Bélgica e Suécia.
Na vizinhança, populistas de direita levaram
a melhor, neste ano, no Equador, no
Peru e na Colômbia –não bastassem as vitórias precedentes no Chile, na Bolívia
e na Argentina.
A Venezuela, embora invadida pelos Estados Unidos, continua nas mãos do
establishment chavista, uma variante de esquerda do populismo. Só o Uruguai e
o Brasil —além da Guiana e do Suriname— continuam sob governos plenamente fiéis
aos valores e regras da democracia representativa.
Seria um engano ver no ciclo eleitoral do
entorno apenas a recorrente alternância no poder entre esquerda e direita, por
meio da qual frustrados eleitores desalojam os incumbentes e premiam seus
opositores. Pois faz toda a diferença de que opositores se trata.
A ascensão dos populismos extremistas
inaugura uma situação de incerteza, diferente daquela que caracteriza os
sistemas democráticos. Estes funcionam quando suas instituições asseguram que a
disputa eleitoral não seja um jogo de cartas marcadas cujo resultado, por
suposto, é sabido de antemão —daí a incerteza. E a eleição de populistas
extremados torna imponderável o futuro da própria democracia.
Levados ao governo pelo voto, líderes
populistas têm dois caminhos: Podem aferrar-se ao poder manipulando as regras
do jogo —no limite solapando a democracia. Essa foi a escolha de Jair
Bolsonaro, que, derrotado nas urnas, quis dar um golpe de Estado e fracassou.
Liquidar a democracia representativa parece ser também a trilha que vai
seguindo Donald Trump.
Mas não está excluído que líderes de extrema
direita se adaptem às instituições democráticas; no poder, abandonem suas
promessas mais radicais e optem por políticas de direita, que, mesmo
regressivas, são compatíveis com o regime liberal representativo.
Esse parece ser o caso da primeira-ministra
da Itália, Giorgia
Meloni. Ainda não há exemplos suficientes para entender o que pode levar a
um ou outro desenlace. Melhor não saber, torcendo para que os populistas
extremados percam eleições.

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