O Globo
Transformamos problemas de saúde, álcool e
drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais
Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.
Essa cena ajuda a entender por que o debate
sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado.
Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas,
educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois,
discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência
permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como
se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também
se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a
maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das
maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices
elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa
realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por
superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou
fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios
encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se
expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais
da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas,
saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento
às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela
resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria
cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei
recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias
são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o
diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar
experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos
que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela
desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como
responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre
educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo,
cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez
de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a
presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia
respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas
públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar
as causas.

Exato.
ResponderExcluirSim, é bem isto!
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