O Globo
Putin concluiu que só pode triunfar por meio
de uma capitulação política dos EUA e da Europa
A revista The Economist publicou, há pouco, um texto de Andrey Melnichenko, magnata russo dos fertilizantes cujas fábricas participam da economia de guerra destinada a sustentar a invasão da Ucrânia. A revista o apresenta como “o homem que mudaria a Rússia” e interpreta seu artigo como “alerta de fadiga ou descontentamento” oriundo da oligarquia econômica russa. Trata-se de um raro equívoco de leitura de um veículo que não pode ser acusado de ingenuidade. De fato, Melnichenko dirige ao Ocidente — aos governos e à opinião pública — uma mensagem cifrada do Kremlin.
A moldura é o fracasso da ofensiva de
primavera no Donbass. Barradas pela “zona da morte” dos drones ucranianos, as
forças russas quase não conseguem avançar em Donetsk. A Crimeia ocupada,
península geográfica, vai se convertendo em ilha geopolítica, cada vez mais
isolada pelos drones de média distância. Já os drones de longo alcance atingem
refinarias e depósitos de combustível nas profundezas do território russo.
A guerra exibe-se à sociedade russa sob a
forma de filas intermináveis nos postos de gasolina. Há “fadiga” e
“descontentamento”. Por isso, Melnichenko delineia uma proposta de paz aureolada
por um alerta de catástrofe.
Seu argumento: uma Rússia “quebrada” é “ruim
para o mundo”. O magnata recusa-se a enxergar a invasão imperial de uma nação
soberana. Descreve a guerra como conflito entre um Ocidente agressivo e uma
Rússia em busca de segurança. Invoca a palavra “soberania” nada menos que 31 vezes
— mas para referir-se à soberania russa, não à ucraniana. Segundo ele, o
Ocidente concebe a “segurança ucraniana” como negação das “prerrogativas
soberanas” da Rússia. Cada um desses conceitos deita raízes nos discursos de
Putin.
Melnichenko atribui ao Kremlin um “objetivo
original” que, em princípio, nada tem a ver com a Ucrânia: “uma nova ordem de
segurança europeia na qual a Rússia seja participante, ao invés de objeto
administrado”. Curiosamente, porém, a tal “nova ordem” exigiria a subordinação
ucraniana à esfera de influência russa — ou seja, a supressão da soberania da
Ucrânia.
“O atual discurso ocidental sobre a Rússia
após a guerra (...) almeja uma coisa: a destruição ou radical limitação de sua
soberania” e sua incorporação ao “mundo liderado pelo Ocidente”, tal como
ocorreu com a Alemanha e o Japão no pós-1945. Seria esse, de acordo com o
mensageiro do Kremlin, o fruto de uma paz baseada no respeito às fronteiras
ucranianas de 1994, reconhecidas em tratado pela Rússia, e na admissão de que a
Ucrânia é soberana para ingressar na União Europeia e na Otan.
Dessa plataforma, Melnichenko extrai o
“resultado aceitável” para a Rússia: a) “reconhecimento dos territórios que a
Rússia agora reivindica sob sua constituição” — ou seja, a Crimeia e as quatro
províncias do leste e sul que Moscou declarou anexadas mesmo sem controle
militar integral; b) “proteção legal para as populações russófonas”, fórmula
plena de ambiguidade; c) “um compromisso formal de neutralidade ucraniana”, o
que poderia significar a proibição de adesão à Otan e mesmo à UE. No fundo, é a
proposta de Putin para o encerramento, ao menos provisório, da invasão militar.
A proposta reproduz o “acordo de cavalheiros”
articulado no Alasca entre Putin e Trump, em 2025, sem a presença do governo
ucraniano. O pacto das potências esbarrou, porém, na incansável resistência
ucraniana, mais ou menos amparada pelos vacilantes líderes europeus. A Ucrânia
rejeitou a “paz imperial” quando se encontrava acuada no teatro de guerra. Não
a aceitará mais de um ano depois, em posição militar fortalecida, apesar do
corte da ajuda dos Estados Unidos.
A ameaça escolta a proposta. Para Melnichenko,
“o presente formato não pode prosseguir indefinidamente” e dará lugar a uma
“forma mais direta de confrontação” ou um “acordo político”. A escolha,
explica, apresenta-se como “questão existencial” devido à presença de “armas
nucleares”. Putin concluiu que só pode triunfar por meio de uma capitulação
política dos Estados Unidos e da Europa. Como recurso extremo, usa um boneco de
ventríloquo para gritar “fogo na floresta!”. Há desespero, aí.

Nenhum comentário:
Postar um comentário