Folha de S. Paulo
Partido tem longo histórico de empurrar para
terceiros a responsabilidade por seus erros
Se bastava uma canetada para limitar
publicidade de bets, por que esperaram tanto?
Numa coisa os petistas são imbatíveis:
empurrar a responsabilidade de seus erros para outros. Um histórico completo da
tendência estouraria os limites físicos desta coluna, de modo que me limito a
pincelar casos notórios.
Na visão do partido, o julgamento do mensalão não passou de uma farsa orquestrada pelo STF, pela oposição e pela mídia para enfraquecer a agremiação, que não havia feito nada que outras legendas não fizessem, que era utilizar-se dos tais "recursos não contabilizados", o popular caixa 2. A crise econômica gestada por Dilma Rousseff não foi mais do que o resultado da retração do preço das commodities apimentada pelas pautas-bombas da oposição. O próprio petrolão foi descrito por Lula como uma mancomunação entre elites brasileiras e o Departamento de Justiça dos EUA, que queria destruir a Petrobras.
Mais recentemente, o PT tentou empurrar a
conta do escândalo
do INSS para o governo Bolsonaro. Não há dúvida de que a gestão
anterior tem seu quinhão de responsabilidade, mas não dá para ignorar que os
descontos indevidos ganharam enorme tração nos dois primeiros anos do governo
Lula, registrando crescimento de 253%. E isso apesar dos múltiplos alertas de
que coisas erradas estavam acontecendo.
Petistas também tentaram pular fora das
cobranças pela profusão da propaganda de
bets. Quase me enganaram. É verdade que Temer e Bolsonaro têm muita
culpa aí, por não ter regulamentado a publicidade. A gestão Lula, ao contrário
das anteriores, se mexeu. Mas se mexeu mal.
Minha fé na narrativa petista começou a
desmilinguir quando li reportagem
da Folha mostrando que foi um funcionário do Ministério da
Justiça de Lula que redigiu emenda que reduziu as restrições à publicidade no
processo de regulamentação. A desilusão mesmo veio quando descobri que bastava
uma portaria, isto é, a assinatura de um ministro, para limitar
consideravelmente o espaço para abusos. Se não era necessário mais do que uma
canetada, por que esperaram quase até o fim da Copa para tomar uma atitude?
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