sexta-feira, 17 de julho de 2026

PT é imbatível em tirar o corpo fora, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Partido tem longo histórico de empurrar para terceiros a responsabilidade por seus erros

Se bastava uma canetada para limitar publicidade de bets, por que esperaram tanto?

Numa coisa os petistas são imbatíveis: empurrar a responsabilidade de seus erros para outros. Um histórico completo da tendência estouraria os limites físicos desta coluna, de modo que me limito a pincelar casos notórios.

Na visão do partido, o julgamento do mensalão não passou de uma farsa orquestrada pelo STF, pela oposição e pela mídia para enfraquecer a agremiação, que não havia feito nada que outras legendas não fizessem, que era utilizar-se dos tais "recursos não contabilizados", o popular caixa 2. A crise econômica gestada por Dilma Rousseff não foi mais do que o resultado da retração do preço das commodities apimentada pelas pautas-bombas da oposição. O próprio petrolão foi descrito por Lula como uma mancomunação entre elites brasileiras e o Departamento de Justiça dos EUA, que queria destruir a Petrobras.

Mais recentemente, o PT tentou empurrar a conta do escândalo do INSS para o governo Bolsonaro. Não há dúvida de que a gestão anterior tem seu quinhão de responsabilidade, mas não dá para ignorar que os descontos indevidos ganharam enorme tração nos dois primeiros anos do governo Lula, registrando crescimento de 253%. E isso apesar dos múltiplos alertas de que coisas erradas estavam acontecendo.

Petistas também tentaram pular fora das cobranças pela profusão da propaganda de bets. Quase me enganaram. É verdade que Temer e Bolsonaro têm muita culpa aí, por não ter regulamentado a publicidade. A gestão Lula, ao contrário das anteriores, se mexeu. Mas se mexeu mal.

Minha fé na narrativa petista começou a desmilinguir quando li reportagem da Folha mostrando que foi um funcionário do Ministério da Justiça de Lula que redigiu emenda que reduziu as restrições à publicidade no processo de regulamentação. A desilusão mesmo veio quando descobri que bastava uma portaria, isto é, a assinatura de um ministro, para limitar consideravelmente o espaço para abusos. Se não era necessário mais do que uma canetada, por que esperaram quase até o fim da Copa para tomar uma atitude?

 

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