Por Luciana Casemiro – O Globo
"Quem enxerga nas tarifas aplicadas pelo governo Donald Trump o protagonismo do embate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro assistiu apenas o trailer desse filme", diz o analista de relações internacionais Uriã Fancelli. Ele afirma que a relação de Trump com as tarifas é muito anterior ao Brasil e antecede até mesmo sua vida política. Para Fancelli, o que mudou neste segundo mandato foi a finalidade da ferramenta. Segundo ele, Trump passou a usar as tarifas para forçar submissão, sobretudo na América Latina, e essa estratégia virou documento oficial. A Estratégia de Defesa publicada em janeiro determina a aplicação do que a Casa Branca batizou de Corolário Trump à Doutrina Monroe, com o objetivo de restaurar a preeminência americana no hemisfério. O analista observa ainda que o próprio presidente americano adotou o apelido criado pela imprensa para essa estratégia: "Doutrina Donroe".
— Digo submissão, e não alinhamento
ideológico, por uma razão simples. Washington convive
muito bem com Delcy
Rodríguez, na Venezuela, hoje talvez a maior representante da continuidade
do chavismo no continente, porque ela entrega obediência. O Telegraph mostrou
que aliados de Trump venceram todas as sete eleições presidenciais realizadas
na região desde a sua posse. Nesse tabuleiro, acredito que a submissão do
Brasil é o prêmio mais valioso disponível. Estamos falando da maior economia da
América Latina, de um país com protagonismo no Brics,
que criou o Pix e enfrentou os americanos na OMC no debate sobre economia
digital. Um país desse tamanho decidindo sozinho é justamente o que essa
doutrina não tolera.
Na avaliação do analista, esse contexto
desmonta a narrativa do secretário de Estado americano, Marco
Rubio, que atribuiu o tarifaço ao ego de Lula.
— E o detalhe saboroso é que quem desmente o
secretário é o próprio governo dele, por meio do parecer técnico publicado pelo
USTR, que abre afirmando que as práticas brasileiras prejudicam os Estados
Unidos há décadas. Décadas abrangem os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Jair
Bolsonaro. Basta olhar cada um dos alvos para entender. O Pix, formalmente
acusado de ser gratuito demais, foi criado em 2020, ainda no governo anterior.
As decisões do Judiciário que tanto incomodam Washington não mudam com
eleições, porque nossas instituições são independentes. A presença do Brasil na
lista americana de observação sobre propriedade intelectual existe desde 2007,
cinco presidentes atrás. E os acordos do Mercosul com México e Índia levaram
décadas para ser negociados. Ou seja, o documento descreve essencialmente
políticas de Estado, por mais questionáveis que possam ser. Nenhum desses alvos
nasceu no governo atual, e nenhum deles desaparecerá quando houver mudança de
governo.
A pergunta que fica, diz Fancelli, é: por que
personalizar tudo em Lula? Na visão do analista, a resposta é que essa
personalização blinda Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo
tarifaço, enquanto Washington entende que a submissão que procura sairia mais
barata com ele no Planalto.
— Foi o próprio Flávio Bolsonaro quem
afirmou, em carta, ter uma equipe de transição à disposição de Trump. A família
dele comemorou o tarifaço do ano passado antes de calcular o custo político
desse gesto. E foi ele quem abraçou publicamente a hipótese de operações
militares americanas na Baía de Guanabara. No fim, a lógica se fecha sozinha.
Se cada um dos alvos das tarifas sobrevive a qualquer troca de governo, o
motivo delas precisa estar em outro lugar. Está no tamanho do Brasil e no
incômodo que esse tamanho causa.
Fancelli lembra que, em 1987, quando ainda
era apenas um empresário, Trump pagou anúncios de página inteira nos principais
jornais americanos acusando os aliados dos Estados Unidos de enriquecerem à
sombra da proteção militar americana. Desde então, passou décadas repetindo, em
entrevistas, que taxar importações resolveria esse problema. O analista afirma
ainda que a convicção de Trump em relação às tarifas permaneceu inalterada,
apesar do acúmulo de evidências sobre os efeitos negativos dessa estratégia
para a economia americana.
— Tarifa é imposto de importação. Ela é recolhida na alfândega americana e diluída no preço pago pelo consumidor. Uma análise do Cato Institute, um centro de pesquisa liberal que ninguém acusaria de antitrumpismo, encontrou repasse de até 96% desse custo ao consumidor americano. Eu acredito, inclusive, que a paixão dele pelo instrumento é genuína. O problema é que se trata de uma paixão comprovadamente ineficiente, cuja fatura acaba chegando ao carrinho de compras do próprio eleitor que ele jura proteger.

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