Valor Econômico
Produtores rurais americanos tornaram-se vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump
O governo Trump 2.0 tem se caracterizado pelo
uso explícito da força no comércio internacional. A imposição unilateral de
tarifaços contra o resto do mundo e de acordos ditos recíprocos, nos quais sai
sempre como o grande vencedor, rompeu o sistema multilateral baseado em regras
comuns.
Agora, na presidência do G20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes em busca de cooperação na governança econômica global, o governo Trump elaborou uma agenda comercial para trabalhar com os demais membros do grupo “no estabelecimento de uma ordem comercial global baseada em um comércio justo, recíproco e equilibrado”.
O primeiro ponto que os EUA dizem querer
denunciar é a “armamentização” (weaponization) do comércio internacional de
alimentos. De fato, a instrumentalização dos alimentos como arma atingiu níveis
geopolíticos. Diante do atual enfraquecimento das regras internacionais,
pode-se esperar um uso mais frequente e abrangente de restrições às exportações
de determinados produtos, da manipulação da ajuda alimentar, da exploração da
insegurança alimentar ou de ataques à infraestrutura agrícola, por exemplo.
Mas uma característica da presidência
americana do G20 é a dificuldade de Washington em explicar exatamente o que
pretende. No caso da weaponization no comércio agrícola, a suspeita é que seu
foco seja mesmo a China, que impôs restrições à importação de produtos
agrícolas americanos e restrições nas exportações de fertilizantes em
retaliação às altas de tarifa de Trump.
Ou seja, Washington faz uso explícito do
comércio como instrumento de pressão, mas rejeita a mesma prática quando é alvo
de bordoadas empregadas por algum parceiro. A “armamentização” das importações
agrícolas pela China, com a redução das compras de produtos americanos, acabou
beneficiando sobretudo exportadores de países como Brasil, Argentina e
Indonésia.
Os produtores rurais americanos tornaram-se,
assim, vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump. A recuperação deles
na participação no mercado chinês ainda está longe, apesar dos acordos negociados
entre Washington e Pequim.
Também por isso, e em vista das eleições de
novembro, a Casa Branca tenta socorrer o setor agrícola. Recentemente, pediu ao
Congresso a aprovação de um novo crédito de US$ 11 bilhões, elevando os
pagamentos diretos aos agricultores para US$ 44 bilhões neste ano. Os subsídios
do governo representarão mais de 25% da renda líquida dos produtores
americanos.
A importância atribuída ao tema da
armamentização no comércio agrícola é ainda maior porque a reunião dos
ministros do Comércio do G20 entre 30 de setembro e 1º de outubro vai ocorrer
em Milwaukee, no Wisconsin, um dos principais centros da agropecuária
americana.
O mais provável é que o encontro produza
apenas uma declaração genérica, sem efeitos práticos e, certamente, bem distante
das expectativas de Washington.
O segundo tema da agenda comercial americana
no G20 foca no excesso estrutural de capacidade produtiva globalmente. Na
prática, o USTR, órgão de representação comercial dos EUA, já abriu neste ano
uma investigação nesse sentido com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974
não apenas contra a China, mas também contra União Europeia (UE), Cingapura,
Suíça, Noruega, Indonésia, Malásia, Camboja, Tailândia, Coreia do Sul, Vietnã,
Taiwan, Bangladesh, México, Japão e Índia.
A lista elaborada pelo USTR dos setores
afetados pelo excesso de capacidade inclui alumínio, automóveis, baterias,
cimento, produtos químicos, eletrônicos, equipamentos para energia, vidro,
máquinas-ferramentas, maquinário, metais não ferrosos, papel, plásticos,
alimentos processados e bebidas, robótica, satélites, semicondutores, navios,
módulos solares, aço e equipamentos de transporte.
Segundo os EUA, essa superprodução resulta em
oferta maior que a demanda e em grandes e persistentes superávits comerciais de
bens, impulsionando exportações para o mercado americano ou para terceiros
países que, posteriormente, exportam para os mercados estadunidenses. Isso
deslocaria a produção doméstica americana ou impediria investimentos e a
expansão da indústria local, dinâmica que se refletiria nos déficits comerciais
globais e bilaterais dos EUA - algo rejeitado por bom número de economistas. O
tema não tem como avançar tão cedo no G20.
Terceiro, os EUA pretendem obter uma
declaração dos membros do G20 comprometendo-se a proibir, no comércio
internacional, produtos produzidos com trabalho forçado. É difícil alguém ficar
contra. Mas ninguém ignora que, ao mesmo tempo, Washington mantém uma
investigação pela Seção 301 contra cerca de cem países - incluindo o Brasil e a
União Europeia contando com 27 países -, para impedir a importação de produtos
de nações que poderiam estar utilizando trabalho escravo.
A China está na mesa de discussões e não
ignora que é o principal alvo da pressão americana. Pode sair no G20 no máximo
uma declaração sobre transparência na erradicação do trabalho forçado.
Os EUA querem também discutir a revisão da
Cláusula da Nação Mais Favorecida (NMF). Com seus “acordos recíprocos”,
impostos unilateralmente, o governo Trump detonou esse princípio fundamental da
Organização Mundial do Comércio (OMC). Por ele, os membros devem tratar uns aos
outros de forma igualitária; pressupõe não discriminação e generalização
automática de concessões. Alguns países concordam que o acesso a tarifas mais
baixas não pode ser incondicional e deve se tornar mais flexível, mas há muita
negociação pela frente.
O G20 poderá levantar esses temas, mas
dificilmente avançará na agenda desenhada por Washington, em um cenário no qual
a falta de apetite pela cooperação global começa justamente pelos Estados
Unidos.

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