O Globo
Aliados provocaram o rompimento de Michelle
com o enteado
‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero
fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres
não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o
deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de
1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a
incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres —
desde que diplomadas, com bens e casadas.
Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por
Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não
deveriam participar da vida pública:
— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.
O direito ao voto feminino só viria 41 anos
mais tarde, com o Código Eleitoral decretado por Getúlio Vargas. A equiparação
aos direitos dos homens em 1965 poderia ter sepultado o debate, mas há duas
semanas a extrema direita brasileira, espelhando a norte-americana, decidiu
rediscutir a qualidade do voto feminino.
Se Pedro Américo buscava edulcorar com a
oratória o conservadorismo dominante, o influenciador Paulo Figueiredo, braço
direito de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, apelou 135 anos depois para a
ofensa explícita:
— Mulher vota estatisticamente muito mal.
Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a
acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Isso que eu estou
dizendo, podem arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você
quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos. Mas eu quero
dizer uma coisa a vocês: isso é estatística.
O voto feminino é um enorme obstáculo para
seu aliado Flávio Bolsonaro. Em abril, quando estava em seu melhor momento, o
senador alcançava no Datafolha 46% das intenções de voto em segundo turno
contra Lula, que marcava 45%. Na distribuição por gênero, o herdeiro de Jair
recebia 6 pontos percentuais a mais entre os homens, e Lula 4 entre as
mulheres. Dois meses depois, atingido pelo escândalo do Banco Master, e antes
mesmo de seu aliado nos Estados Unidos ofender as eleitoras, passou a perder
para Lula por 47% a 43%. A queda foi puxada exatamente pelo eleitorado
feminino, que agora dá 15 pontos a mais para o petista.
O bolsonarismo impôs aos observadores da cena
política brasileira um desafio de interpretação. A linguagem disruptiva,
aderente às redes sociais, sepultou a era de superproduções de marqueteiros
estrelados. As declarações politicamente incorretas e as ofensas públicas a
adversários deram autenticidade ao candidato antissistema, que atendia aos
anseios de um eleitorado cansado da classe política após um impeachment e
escândalos multibilionários de corrupção.
No entanto, nem tudo no caos bolsonarista é
estratégia. A adoção das teorias antivacinais populares nos Estados Unidos —
que nunca tiveram relevo por aqui — está no cerne da trágica condução de Jair
Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19. A anarquia na gestão da saúde deixou
mais de 700 mil mortos e foi o motor da derrota em 2022.
Às vésperas daquele pleito, no entanto, o
presidente havia conseguido voltar a crescer e havia praticamente empatado com
Lula nas pesquisas. Coube a dois aliados lembrar aos eleitores os riscos do
extremismo. A sete dias do pleito, Roberto Jefferson fuzilou e lançou granadas
contra agentes da Polícia Federal que foram à sua casa. Na véspera da votação,
Carla Zambelli correu pelas ruas de São Paulo com arma em punho atrás de um
homem negro que a havia criticado.
Quatro anos depois, Flávio tem nos aliados
liderados por seu irmão Eduardo o esquadrão suicida da direita brasileira.
Foragidos da Justiça brasileira, provocaram o rompimento de Michelle com o
enteado presidenciável e passam os dias em redes sociais defendendo tarifas
americanas, o fim do Pix e questionando o voto feminino.
Lula é um homem de sorte.
*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO

Inéditos para mim os conteúdos dos primeiros parágrafos.
ResponderExcluirÓtima coluna.