O Estado de S. Paulo
O Brasil é talvez o único país do mundo onde
o governo não domina o gasto do Orçamento
O Orçamento brasileiro está fora de controle. Isso quer dizer que não se sabe como é usado todo o dinheiro arrecadado com impostos. O mais interessante é que esse descontrole é vivido com uma grande indiferença. As notícias da semana dão conta da principal origem desse descontrole: as emendas parlamentares. Num só dia, ficamos sabendo que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se conhecessem os autores das emendas. Ficamos sabendo também que Valdemar Costa Neto manipulou a remessa de R$ 119 milhões, sem ser deputado. Da mesma forma, Eduardo Cunha, que foi cassado, dirigiu R$ 6,5 milhões para cidades mineiras, de onde pretende ressurgir como candidato.
R$ 1,3 bilhão foram as chamadas emendas de
comissão. Um espanto. O que são as comissões senão réplicas parlamentares dos
ministérios? Comissão de educação, de saúde, de transportes. Elas existem para
formular e fiscalizar políticas. Quem as executa são os ministérios.
O Brasil é talvez o único país do mundo onde
o governo não domina o gasto do Orçamento. Tem de dividi-lo com o Congresso,
que usa o dinheiro de forma aleatória, basicamente para garantir a reeleição de
deputados.
Uma irracionalidade.
A tentativa de corrigir algumas aberrações
vem de longe, do tempo do chamado orçamento secreto, criado por Arthur Lira, no
governo Bolsonaro. A então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF),
ministra Rosa Weber, tentou intervir. Afinal, orçamento secreto é
inconstitucional. As despesas públicas têm de ser transparentes. O que se viu
depois disso foi uma briga de gato e rato, o Congresso sempre achando uma
fórmula de não atender às corretas exigências de Rosa Weber.
As chamadas emendas de comissão foram um dos
caminhos para se manter o anonimato em torno da autoria. Na verdade, são uma
forma de dividir o dinheiro entre os deputados que compõem a comissão. Esse
tipo de emenda foi denunciado pelo deputado Glauber Braga, que acabou recebendo
uma suspensão de seis meses, em parte pelo seu comportamento, mas
principalmente por denunciar o mecanismo. O que dizer do controle de Valdemar
Costa Neto e Eduardo Cunha de parte do Orçamento? Atribui-se a uma articulação
deles com uma funcionária chamada Mariângela Fialek. Mas é uma simples
funcionária. Jamais destinaria milhões sem a autorização de seus chefes, Arthur
Lira e Hugo Motta.
Não há saída no horizonte. A
Polícia Federal (PF) investiga, o Supremo
processa. Mas tanto a PF como o Supremo não podem abarcar a extensão do
problema. Suas atuações são pontuais, pedagógicas, como se isso pudesse mesmo
intimidar os deputados.
No Rio de Janeiro, a situação é mais clara
politicamente. O Estado é governado por bandidos, sendo que os bandidos armados
ocupam metade do território urbano. Não há mistério. Apenas a vida que segue,
como se isso fosse natural. Certamente, uma investigação científica irá mais
longe na compreensão dessa naturalização e passividade diante do sequestro do
Orçamento. Os políticos usam o dinheiro sem critério, porque dinheiro público
parece algo abstrato, existe para gastar mesmo. Essa indiferença se estende
também às pessoas comuns. Afinal, por que protestar por um dinheiro que não é
seu, é apenas uma grande fortuna que pertence a todos? É o chamado cofre da
viúva, feito para ser violado sem pudor.
As coisas estão feitas para durar. O dinheiro
que os deputados usam serve para sua reeleição. Não haverá espaço para a
renovação, sobretudo se as campanhas presidenciais monopolizarem a atenção. Os
mesmos deputados seguirão usando o Orçamento da forma que quiserem, elegendo
presidentes que se comprometem com a divisão do butim. Os deputados serão
substituídos pelos seus filhos, amigos de fé, assessores e a tradição de gastar
parte do Orçamento seguirá tempo afora.
Pode ser uma visão pessimista, abrandada
apenas pela possibilidade de eleger alguns bons deputados nas metrópoles. Mas
serão incapazes de fazer algo sem amplo apoio da opinião pública. Não tenho
medo de parecer pessimista ao saber que, mesmo sem mandato, pessoas como
Valdemar Costa Neto e
Eduardo Cunha estão manipulando o Orçamento
nacional. Acho simplesmente o fim da picada, mas me impressiono muito com a
pouca repercussão. Será que os candidatos à Presidência se conformam com tudo o
que vemos por aí? Será que pretendem ser presidentes pela metade, sem os
recursos necessários para cumprir seus programas de campanha?
Pode ser que vivamos até um futuro em que os
governos se conformem em governar sem plano. Governar por governar, o poder
pelo poder, até nos chocarmos com o grande iceberg.
A alternativa é tentar fazer uma bancada de
deputados que dê a mínima possibilidade de luta; é criar uma força-tarefa que
fiscalize, de fato, o uso do dinheiro e tentar progressivamente adaptar o
Brasil ao mundo, onde governos executam e deputados legislam e também
fiscalizam o governo. Como ocorre nos outros países democráticos.
Só para começar, precisamos descartar as
lendas urbanas, como essa de que o dinheiro é mal usado por causa de uma mulher
chamada Mariângela. Como se não bastasse o desastre político-financeiro, ainda
vivemos uma grande deficiência cognitiva.

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