Folha de S. Paulo
Corte deveria permitir que ministros
envolvidos no caso Master sejam investigados
Medida, mesmo que não passe de simulação,
ajudaria a recuperar imagem do Judiciário
A grande sacada de Nicolau Maquiavel foi ter
separado a política da moral, o que lhe deu liberdade para analisar as relações
de poder como elas são e não como gostaríamos que fossem. Não é uma
coincidência que ele seja considerado o fundador da ciência política.
Está faltando ao STF ler um pouco de Maquiavel. Se os ministros da corte querem deixar para trás a crise de credibilidade em que se meteram, muito por causa do escândalo do Master, estão fazendo tudo errado.
Apesar de poderosas forças em contrário, as
apurações da PF sobre
as transgressões de Daniel
Vorcaro estão avançando. Já são formalmente investigados Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Claudio
Castro. O "irmão" Flávio
Bolsonaro poderá em breve integrar a lista. A PGR pediu para
que ele seja incluído entre os investigados. Relatórios da PF também
mencionam Hugo Motta, Michel Temer, Guido
Mantega e ACM Neto,
para citar só alguns dos mais ilustres. Não será uma surpresa se o ministro
relator do caso no STF, André
Mendonça, em algum momento autorizar diligências contra eles.
Os notórios ausentes são Dias Toffoli
e Alexandre de Moraes, que também figuram em posição não exatamente
enaltecedora em relatórios da PF, mas que já foram de algum modo previamente
exculpados pela PGR, que recusou representações questionando o papel desses
magistrados.
Ora, se o núcleo do Judiciário quer de fato
superar a crise de credibilidade, deveria ter posto os ministros sob
investigação para depois inocentá-los. Ao conceder um amplo habeas corpus
preventivo só alimentou as dúvidas. Minha impressão é que os ministros do STF
cultivam uma imagem tão elevada de si mesmos que não admitem nem a
possibilidade de ser investigados, mesmo que esse seja o melhor remédio para a
situação.
O adjetivo "maquiavélico" é injusto
para com o pensador florentino. Refletir sob o prisma do realismo político não
nos torna necessariamente seres amorais. Deixar-se levar por raciocínios
moralizantes e outras formas de militância é que nos leva a não entender o
mundo.
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