O Globo
As digitais do clã Bolsonaro estão na guerra
econômico-financeira de Trump contra o país
O Brasil começa a sentir no bolso os efeitos do bombardeio (não militar) aplicado pelos Estados Unidos para obter rendição política. O Fundo Monetário Internacional (FMI) dedicou a mais recente edição de sua revista quadrimestral “Finance & Development” à ordem global regida pela geoeconomia. Trata-se do uso de sanções financeiras e comerciais em prol de dividendos políticos e econômicos — em outras palavras, a doutrina Donald Trump. Na semana que vem, entra em vigor a terceira onda de retaliações dos Estados Unidos. Em 12 meses, o país já enfrentou tarifaço de 50%, parcialmente revisto; interdição a autoridades, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF); e, agora, taxação de 25% como punição contra (supostas) práticas desleais nas vendas externas.
A Câmara Americana de Comércio (Amcham) e a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimaram em US$ 11 bilhões os efeitos
do tarifaço nas exportações para os Estados Unidos. Mesmo com mais de dois mil
itens poupados, pelo menos três mil produtos brasileiros ficarão mais caros
para a clientela americana. A Confederação Nacional da Agricultura (CNA)
calcula que mais de um terço (36,5%) das vendas do agronegócio será impactada.
Já o governo informou que a sobretaxa alcançará 18% da pauta, prejudicando sobretudo
os setores de madeira, granitos e cerâmicas, químico, açúcar e álcool,
veículos, celulose e papel, máquinas e equipamentos.
O Brasil já se mostrou resiliente, na prática
e no discurso, às retaliações trumpistas. Não significa dizer que elas não
produzam danos. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do
Brasil, atrás somente da China, mas valem muito por serem compradores de bens
industrializados, de maior valor. A participação dos americanos nas exportações
brasileiras atingiu, no primeiro semestre deste ano, o menor patamar desde
1992, início da série histórica da Amcham. O país, que já foi destino de um
quinto das vendas externas, hoje representa menos da metade (9,4%). Houve queda
nas transações tanto de mercadorias com sobretaxa (-16,6%) quanto nas sem
(-8,7%).
Na diplomacia brasileira, é comum ouvir que,
sob Trump, os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro confiável. A percepção
não é exclusiva. Mundo afora, o que mais se vê é a busca por acordos que
reduzam a dependência do mercado americano. Não foi por acaso que o acordo
Mercosul-União Europeia saiu do papel após duas décadas e meia empacado. É
evidência de que “políticas coercitivas podem ser custosas para as nações que
as impõem”, como alertou, em artigo na revista do FMI, Jeffry Frieden,
professor nas universidades americanas Columbia (Nova York, NY) e Harvard
(Cambridge, MA):
— As políticas geoeconômicas podem limitar o
funcionamento eficiente da economia, reduzindo os incentivos à especialização
para a máxima eficiência produtiva nacional. Podem desencorajar a inovação
doméstica, mas estimular essa atividade por parte de concorrentes estrangeiros.
Limitam as atividades disponíveis para empresas e indústrias nacionais. Podem
afetar a reputação de confiabilidade de um país e prejudicar suas perspectivas
econômicas de longo prazo. E podem prejudicar algumas indústrias ou grupos no
país de origem em favor de outros, de maneiras que podem ser politicamente
controversas.
O esforço de autoridades, corpo técnico do
governo e até de representantes do empresariado local e americano em barrar o
tarifaço foi em vão. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira,
normalmente discreto e cordial, subiu o tom num pronunciamento em resposta a
uma postagem grosseira de seu equivalente, Marco Rubio. O secretário de Estado
de Trump acusou o presidente e o governo brasileiros de negociarem de má-fé. O
chanceler brasileiro mencionou a realização de 30 reuniões, incluindo 11
contatos com o próprio Rubio e Jamieson Greer, titular do Escritório de
Comércio dos Estados Unidos, que recomendou a taxação de 25% ao Brasil.
Vieira afirmou que as alegações dos Estados
Unidos “não têm lastro na realidade”. Referiu-se especificamente ao Pix, uma
infraestrutura pública de pagamentos gerida pelo Banco Central e disponível a
qualquer instituição financeira, e à queda no desmatamento na Amazônia e também
no Cerrado. Washington impôs aumento de tarifas aos principais parceiros
comerciais: China, UE, Japão, Índia, Indonésia. Todos tinham superávit
comercial com os Estados Unidos. O Brasil foi punido, mesmo tendo acumulado
déficit de US$ 424 bilhões em 16 anos.
Não resta dúvida de que a aplicação de
tarifas é tentativa de forçar o país à subordinação a Trump. Em aliança com o
bolsonarismo, representado nos Estados Unidos por Eduardo Bolsonaro e Paulo
Figueiredo, um ano atrás, o presidente americano anunciou tarifaço, sanções a
autoridades e abertura de investigação contra o Brasil por concorrência
desleal. Em carta endereçada a Lula, exigia o que chamou de “fim da caça às
bruxas” ao ex-presidente Jair Bolsonaro, às vésperas do julgamento pela trama
golpista.
As digitais do clã Bolsonaro estão na guerra
econômico-financeira de Trump contra o Brasil. E a população sabe disso. A
simpatia pelos Estados Unidos, desde o ano passado, só faz cair. Pesquisa
Quaest desta semana mostrou que, crescentemente, o eleitorado relaciona Flávio
Bolsonaro à retaliação. O pré-candidato à Presidência conta com os Estados
Unidos para chegar ao Planalto. Atacou Lula, mas não condenou o tarifaço. Antes
do anúncio da sobretaxa de 25%, ciente do benefício eleitoral ao adversário,
chegou a propor o adiamento para depois do pleito. É capitulação negociada,
avesso da soberania.

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