Correio Braziliense
Os norte-americanos, na era Trump, rasgaram a
fantasia. Surgiu um Império, que pretende extrair vantagens de suas colônias,
transformadas em vassalos. Vale lembrar Ulysses Guimarães quando disse que
"o Brasil não é uma Uganda qualquer"
Donald Trump não hesita em cometer desatinos. Maiores ou menores, ele marca sua passagem pelo poder como exemplo de ganância, revanche contra opositores e desprezo pela vida humana. O presidente dos Estados Unidos utilizou seu enorme poder militar para colocar a Venezuela de joelhos. Invadiu, prendeu e sequestrou o presidente Nicolás Maduro. Em seguida, seus negociadores tomaram, na mão grande, o petróleo do país vizinho. Washington determina quando, como e para quem o produto deve ser vendido. Os lucros, naturalmente, vão para o norte.
Os soldados dos Estados Unidos chegaram à
Amazônia. Agora, suas longas mãos que andaram pela Groelândia, Canal do Panamá,
Canadá e Irã para promover desestabilização podem começar a se mexer para
buscar as riquezas do norte do Brasil. Petróleo, ouro e minerais raros são
abundantes naquela região. O Brasil e os brasileiros não têm experiência em
situações de conflito. A tradição nacional é resolver problemas através de
negociação e conversa. Mas os norte-americanos, na era Trump, rasgaram a
fantasia. Surgiu um Império, que pretende extrair vantagens de suas colônias,
transformadas em vassalos.
O Brasil não escapou da sanha autoritária do
presidente dos Estados Unidos. Seu secretário de Estado argumentou com
lamentáveis mentiras, invencionices rasteiras, para justificar a decisão de
impor ao Brasil sobretaxas arbitrárias. Vale lembrar Ulysses Guimarães quando
disse que "o Brasil não é uma Uganda qualquer". Trata-se de um país
de renda média com produto interno bruto semelhante aos da Rússia, Itália e
Canadá. É mais da metade da economia da América do Sul. Figura entre as 10
maiores economias do mundo. O Brasil exporta para mais de 150 países. Se o mercado
dos Estados Unidos se fechar, a solução será encontrar novos destinos para a
produção nacional. No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras
para os Estados Unidos caíram 13%, ou se reduziram para US$ 17 bilhões. Mas se
expandiram para o resto do mundo.
Os técnicos vão medir as repercussões
internas das consequências da truculência de Trump. Mas, além de fazer caixa, o
verdadeiro objetivo das sobretaxas é interferir na eleição brasileira. O
tarifaço ocorre poucas semanas antes das convenções nacionais dos partidos
políticos quando serão definidos os nomes que vão concorrer à Presidência da
República. O governo de Washington costuma ser bem informado sobre o que ocorre
no Brasil. Os serviços de espionagem trabalham muito aqui. Na época do governo
Dilma Rousseff, brasileiros descobriram que os norte-americanos conheciam a
extensão e a profundidade da corrupção que ocorria na Petrobras.
Hoje é igual. Eles conhecem as pesquisas de
opinião e os candidatos. Flávio Bolsonaro dispensa serviços de espionagem. Ele
é francamente favorável aos Estados Unidos. Já disse que, se for eleito,
colocará toda sua equipe à disposição de Washington desde o período de
transição até seu eventual governo. É um entreguista de carteirinha. Quanto à
Lula, há pouco a acrescentar. Ele possui longa carreira política. É um
populista com algumas tinturas de esquerda, mais preocupado com sua imagem do
que com a realização de obras estruturantes. É prisioneiro da lógica
burocrática e algo corrupta do sindicalismo brasileiro.
As pesquisas recentes mostram que Lula voltou
a crescer na preferência do eleitorado. Os sucessivos erros do candidato do PL
favorecem Lula. O tarifaço imposto por Trump ajuda o atual presidente a se
reeleger. O ex-vice-presidente da República, Hamilton Mourão, um dos poucos que
se salvou do desastre do governo Bolsonaro, conseguiu se eleger senador pelo
Rio Grande do Sul. Durante aquele governo, foi rigorosamente ignorado. Hoje
observa as recentes decisões assumidas na campanha pelo filho de Jair. Ele
sentencia: "Não foram um tiro no pé. Foram uma amputação". Os
norte-americanos estão procurando um candidato sintonizado com Washington. Eles
têm dinheiro, poder político e armas em profusão para modificar o resultado da
eleição de outubro próximo.
Brasil e Estados Unidos mantêm relações
diplomáticas há 202 anos. A diplomacia brasileira é conhecida no mundo. O país
tem 10 vizinhos e jamais recorreu à força para fixar suas fronteiras. Todos os
limites resultaram de negociação. As relações entre os dois países tiveram
altos e baixos, mas nunca desceram ao nível de imposição unilateral que ocorre
agora. O Brasil poderá responder com base na reciprocidade. E, se assim agir,
ficará ainda mais próximo do apetitoso mercado chinês e de outros gigantes
asiáticos. Mas a situação é de guerra comercial.
Luto — Meus pêsames à família de Renato
Machado com quem tive a honra de trabalhar na TV Globo, na década de 80. Enorme
perda para o jornalismo brasileiro.

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