quarta-feira, 1 de julho de 2026

Terremoto inspirou filósofos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Voltaire, Rousseau e Kant fizeram reflexões sobre o grande tremor de Lisboa de 1755

Os dois últimos deslocaram a discussão do campo da teologia para o da ação e entendimento humanos

Espíritos práticos gostam de recriminar a filosofia pelo que seria um excesso de abstração. Reflexões filosóficas podem por vezes se tornar bem metafísicas, mas o caráter altamente especulativo da filosofia pode paradoxalmente transformá-la em precursora de ciências aplicadas. Um único e improvável evento, o grande terremoto de Lisboa, de 1755, conferiu a Rousseau e Kant o papel de fundadores espirituais de dois ramos da ciência moderna, a sociologia dos desastres e a sismologia.

Rousseau, tentando isentar Deus de culpa por ter causado tanta morte e destruição ao fazer a terra tremer em Portugal, apontou seu dedo acusador para os próprios homens. Em sua célebre "Carta sobre a Providência", o filósofo genebrino argumenta que não foi a natureza que, numa área exígua, "reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares". E arremata: "quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?".

Com tais observações, Rousseau lançou ideias sobre uso e ocupação do solo, densidade populacional e responsabilidade social que estão no núcleo da forma como hoje pensamos a prevenção e a mitigação de desastres. A Carta de Rousseau era uma resposta a Voltaire, que usara o terremoto para questionar a noção de bondade divina diante de tragédias de grande magnitude.

Kant também deu seu pitaco. Veio com uma hipótese bem fantasiosa para a origem dos abalos sísmicos. Envolvia cavernas subterrâneas, gases inflamáveis e inundações. Suas conjecturas estão totalmente erradas, mas, ao buscar sob a terra e não nos céus a explicação para os terremotos, ele se tornou um precursor da sismologia.

Rousseau e Kant tiveram o mérito de mudar os rumos do debate, deslocando-o da teologia para as ações e a compreensão humanas. Mas, no mérito da discussão teológica, ainda é Voltaire quem tem razão. Não dá para conjugar na mesma frase benevolência divina, onipotência e o sofrimento generalizado provocado por um grande terremoto em Lisboa ou na Venezuela.

 

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