quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A democracia precisa voltar a ser um projeto de futuro, por Rogério Sottili*

O Estado de S. Paulo

No mundo online ou offline, nenhuma democracia conseguirá enfrentar isoladamente um autoritarismo que opera globalmente

Encontros realizados por uma articulação global do campo progressista nos últimos meses, em Barcelona e no Uruguai, nos revelam que o crescimento das ameaças às democracias já não pode ser enfrentado exclusivamente dentro das fronteiras nacionais.

O avanço da extrema direita, a disseminação coordenada da desinformação, o enfraquecimento das instituições democráticas, a violência política e a captura dos espaços públicos por interesses econômicos e tecnológicos compõem hoje um cenário internacional de instabilidade persistente.

Esse cenário não se explica apenas pela força crescente do autoritarismo. Ele revela uma crise mais profunda das democracias contemporâneas, de pertencimento, representação e participação social.

Milhões de pessoas sentem que perderam capacidade de influência sobre os rumos de suas próprias sociedades e têm a percepção de que as decisões políticas são tomadas cada vez mais longe de suas vidas. Sentem que a democracia deixou de produzir uma perspectiva de futuro.

Nesse vazio, a extrema direita compreendeu que a política não se disputa apenas por meio de programas ou instituições, mas também no campo dos afetos, da identidade e da imaginação coletiva.

Mesmo que reconheçamos os avanços civilizatórios conquistados na democracia, passamos anos focados meramente na gestão institucional desse sistema, sem responder às inseguranças do presente ou de trabalhar a participação social como parte da infraestrutura democrática.

Conselhos, conferências, sindicatos, movimentos populares, organizações comunitárias e espaços públicos de deliberação cumprem papel fundamental na construção de legitimidade política, na mediação de conflitos sociais e na continuidade de políticas públicas.

Não por acaso, projetos autoritários atacam sistematicamente esses espaços e novas formas de desestabilização democrática se consolidam globalmente, como a desinformação, que se tornou uma poderosa ferramenta política transnacional.

Plataformas digitais concentraram enorme capacidade de influência. Narrativas autoritárias buscam produzir desconfiança generalizada, fragmentação social e destruição de referências comuns.

No mundo online ou offline, nenhuma democracia conseguirá enfrentar isoladamente um autoritarismo que opera globalmente. Justamente por isso, iniciativas internacionais de articulação democrática se tornaram tão importantes.

O encontro realizado em abril em Barcelona representou um primeiro passo nessa direção, e simbolizou a percepção crescente de que democracias precisam construir mecanismos permanentes de cooperação política, social e institucional para enfrentar ameaças comuns, com participação social capaz de sobreviver às mudanças de governo.

O próximo encontro, no ano que vem, no México, trará uma responsabilidade ainda maior. Será necessário consolidar capacidade política, aprofundar compromissos concretos e ampliar o protagonismo das organizações da sociedade civil na construção dessa agenda internacional.

Movimentos sociais, sindicatos, organizações comunitárias, universidades, jornalistas, coletivos populares e defensores de direitos humanos não podem ocupar apenas um lugar simbólico nesses espaços internacionais. Precisam ter voz efetiva, capacidade de formulação e poder real de incidência política.

A extrema direita cresce porque oferece identidade, pertencimento e explicações simples para sociedades atravessadas por medo, precarização e insegurança. As forças democráticas respondem apenas com gestão, defesa abstrata e moderação institucional. E isso é insuficiente. As democracias precisam voltar a produzir horizonte histórico e mobilizar esperança coletiva em escala social.

Por isso, é imprescindível que nos organizemos para disputar a democracia que queremos, aquela que garanta melhorias reais na vida das pessoas, que possibilite cargas de trabalho mais dignas, direito à cultura e ao lazer, melhor distribuição de renda. Que possibilite que as pessoas voltem a sonhar e conectem a política à vida cotidiana.

Precisamos ser capazes de imaginar modelos de desenvolvimento socialmente justos, transições ecológicas democráticas, novas formas de participação popular, redução radical das desigualdades e reconstrução do sentido coletivo da política.

O encontro do México será importante justamente porque poderá representar a passagem decisiva da resistência democrática para a reconstrução de um projeto democrático de futuro.

Barcelona plantou uma semente. O que será feito dela dependerá da capacidade do campo progressista e da sociedade civil de assumirem riscos políticos, ampliarem sua capacidade de articulação internacional e, sobretudo, de recuperarem coragem de imaginar mundos radicalmente diferentes.

Talvez, a principal disputa do século 21 seja exatamente essa: quem será capaz de reconstruir esperança coletiva em sociedades atravessadas pelo medo?

A democracia precisa volta a ser um projeto de futuro.

*Diretor-Executivo do Instituto Vladimir Herzog

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