quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A nau sem rumo e o som das pedras, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Ala relevante do STF e os presidentes das Casas Legislativas atuam neste momento para que Lula permaneça no poder. É mais do que uma aliança de conveniência para escapar de investigações. Trata-se de esforço para manter as coisas como elas estão.

Do ponto de vista institucional, existe uma pesada ameaça. O Supremo tem as armas para combater a hipertrofia do Congresso, hoje dominado por uma massa amorfa de parlamentares que, por meio de emendas, atuam em causa própria com dinheiro público. O Congresso tem as armas para combater a hipertrofia dos poderes do Supremo e seus instrumentos de exceção e, dependendo das eleições, poderia passar do rosnado para a mordida.

Mas uma conflagração se tornou no momento menos crível, pois o Congresso busca algum tipo de acomodação com Lula pós-eleição – vide as posturas públicas de Hugo Motta e Davi Alcolumbre. E está patente no comportamento dos dirigentes de várias correntes políticas que eles não enxergam em Flávio Bolsonaro a densidade política necessária para comandar um embate nesses moldes. Atribuem a outros nomes da direita chances reduzidas de chegar ao segundo turno.

O problema para esse esforço em deixar as coisas basicamente como estão é o tamanho das incógnitas. Uma das principais foi bem captada pelas pesquisas: a pequena parcela do eleitorado que decidirá as eleições consolida a opção de voto só nos derradeiros instantes. O que torna a votação muito suscetível ao “imponderável” de última hora. Imponderáveis costumam ser incontroláveis.

Outra incógnita relevante tem natureza subjetiva, mas também detectada por levantamentos, especialmente pelas qualitativas não publicadas. Os traços predominantes em larga parcela do eleitorado são desânimo, desconfiança e falta de esperança em qualquer candidato. E na capacidade das eleições de alterarem o “sistema”.

Como é que esse clima pesado vai atuar? Em altos segmentos do setor financeiro já se verifica resignação diante da tragédia anunciada. No caso, tragédia da dívida de grandes corporações (fora a sinuca das contas públicas). Fala-se na alta probabilidade do temido “credit crunch”, no estrangulamento do oxigênio da economia, justamente pela baixa expectativa de mudanças significativas, ou seja, a permanência por longo prazo de juros insuportáveis.

Nesse sentido, não há qualquer respeito pelo que Lula diga ou insinue que vá fazer, muito menos pelas vozes que hoje sussurram hipotéticos “ajustes” fiscais numa eventual vitória. Curiosamente, ninguém está pedindo para ser amarrado ao mastro e, assim, poder resistir ao canto das sereias – que não se vislumbra nem se ouve.

O som predominante é o da arrebentação nas pedras, que é onde costuma acabar uma nau sem rumo. •

 

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