sábado, 29 de agosto de 2026

A fantasia da força contra o crime, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas

Poucos temas são tão caros ao eleitor de 2026 como o tema da segurança pública. Existe uma percepção disseminada de que o avanço da criminalidade está descontrolado: o senso de falta de lei gera um estado de tensão constante, de modo que o eleitor está atemorizado, com medo de sofrer uma violência física ou patrimonial.

É justamente esse estado de angústia que torna o eleitor tão suscetível a discursos eleitorais de combate ao crime. Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas.

Para o candidato interessado em se eleger, contudo, um discurso que chame a atenção do eleitor para a complexidade do problema da segurança não é atraente. Tem vantagem aquele candidato que consiga mobilizar, no imaginário do homem médio, a ideia de força bruta, de capacidade de reação enérgica ao problema da "bandidagem". A questão da segurança pública passa, então, a ser tratado como um problema de resgate da virilidade via estado, por meio de uma polícia menos controlável, mais fortalecida na sua capacidade de reprimir.

Esse discurso de invocação de uma política de lei e ordem extremamente militarizada, implacável e intransigente com a criminalidade permeia as agendas das candidaturas da direita e da extrema direita, mas também tem ganhado espaço no campo progressista, em resposta à percepção de risco constatada pelas pesquisas junto à opinião do eleitor. Quem se omitir sobre o tema da segurança ficará para trás: o brasileiro se sente inseguro e espera que o poder público reaja ao descontrole.

No Ceará, estamos vendo um Ciro Gomes muito à vontade com a invocação dessa figura do "cabra macho" capaz de botar ordem na casa, ressoando falas e gestos de seus aliados de chapa, como Capitão Wagner. Nacionalmente, Renan Santos tem crescido de forma surpreendente no campo da Direita, aproveitando as debilidades da candidatura de Flávio Bolsonaro e mobilizando as armas digitais de um ativismo de rede social mais preocupado com os cortes de vídeos do que com a solução efetiva de problemas.

É muito difícil para o eleitor médio atemorizado compreender que balas e fuzis têm pouco potencial de dar conta do problema do crime organizado. Um conjunto de políticas de segurança com foco em inteligência e presença estatal nos territórios ocupados é o caminho mais promissor, e mais desafiador do ponto de vista da execução de política pública. Mais do que nunca, é importante que o eleitor se lembre que não há soluções simples para problemas complexos.

 

*Doutora em direito (USP) e professora na Universidade Federal do Ceará.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário