terça-feira, 4 de agosto de 2026

A metamorfose ambulante troca de pele, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O candidato que já foi vários personagens agora se lança nas vestes do sujeito 'porreta'

O presidente precisa convencer o eleitor de que desta vez fará o que não fez em governos passados

O candidato Luiz Inácio da Silva tem dois meses daqui até a eleição para convencer os brasileiros indecisos a aderir às fileiras dos convertidos, para os quais apresentou um esboço de plano de governo na convenção petista de domingo último (2).

O presidente Lula, por sua vez, tem a difícil tarefa de, no mesmo espaço de tempo, explicar ao público em geral por que nos 18 anos de governo que o PT está prestes a completar já não se fez o prometido para adiante, quando o partido fizer 22 anos de poder.

A autodenominada metamorfose ambulante —justificativa para incoerências em roupagem pop— já encarnou vários personagens e agora se lança nas vestes de "porreta"; um sujeito ponta firme, em tradução de gíria arcaica.

Essa pessoa extraordinária, que na sua própria visão tomará posse em 5 de janeiro de 2027, vai começar por dar uma "solução definitiva" para a educação no Brasil. Como? Dizem na campanha que os detalhes chegarão no comício de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), marcado para o próximo dia 16.

Ali será possível também que se esclareça o que significam duas frases: "Vai ter briga com as emendas" e "vai ter briga com o papel do Poder Legislativo". Aguardemos para saber como a nova identidade pretende enfrentar —na base do, talvez, porrete— um Congresso que na eleição anterior prometera levar "no diálogo", mas que levou o Executivo na conversa.

"Quero estar preparado para que ninguém invada este país para levar o presidente." Assim, no modo autorreferido da soberania de palanque, a Defesa e os sucessivos cortes de verbas entraram em cena, enquanto nossas fronteiras são autênticas peneiras a serviço do crime organizado.

O noticiário que esmiuçou os ditos na convenção pontuou as ausências dos temas que mais preocupam os brasileiros: segurança, economia (contas públicas) e corrupção. São assuntos que não se prestam a fantasias. Tampouco deixam o presidente e o candidato numa posição confortável para o gostoso, mas improdutivo, exercício da autoexaltação.

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