sábado, 1 de agosto de 2026

A rivalidade e os estereótipos entre Brasil e Argentina, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

Os brasileiros têm uma rivalidade histórica com a Argentina que se expressa de forma intensa no futebol, embora reflita também a concorrência dos orgulhos nacionais, a empáfia dos brasileiros diante da soberba dos argentinos, que se acham os europeus da América (mesmo já tendo perdido a majestade). Durante a Copa do Mundo, o confronto futebolístico ganhou conotações políticas com a criação e difusão, pelos brasileiros, de um estereótipo negativo do povo argentino. “Torço contra a Argentina porque os argentinos são racistas” foi a frase mais comum ouvida ao longo do campeonato mundial.

Os brasileiros tornaram-se, de repente, zelosos fiscais do racismo alheio, condenando o racismo dos argentinos, como se o preconceito racial tivesse sido erradicado no Brasil. Não faltam testemunhos de manifestações racistas de parte dos argentinos, e não apenas no futebol. Da mesma forma, não se pode ignorar a persistência do racismo no Brasil e em vários outros países, bastando lembrar os atos racistas sofridos por vários jogadores brasileiros nos campeonatos europeus, como Vinicius Junior.

Entretanto, é totalmente insensata a tentativa de provar o racismo dos argentinos pela ausência de negros na seleção de futebol, como insinuaram, ou mesmo afirmaram, alguns. A “seleção (da Argentina) não teve negros, nem mestiços, o que não aconteceu com nenhum país da velha Europa”, comentou Clemente Rosas em artigo publicado na semana passada nesta Revista (“Há racismo no Brasil?”), como se tivesse havido um critério racista na convocação dos jogadores, com o técnico e a FAF – Federação Argentina de Futebol fazendo uma triagem racial. Os mestiços Maradona, Tevez e Di Maria estavam nas seleções passadas e, nesta de 2026, ao menos Leandro Paredes tem ancestralidade indígena.

Não se pode atribuir ao racismo a composição quase exclusivamente branca da seleção argentina, da mesma forma que o grande número de negros nas seleções europeias (especialmente na França) não indica a ausência de racismo nesses países, logo, antigas potências colonialistas, que exploraram e dizimaram populações negras na África.

A seleção nacional de futebol tende a refletir a formação social dos países, de modo que o predomínio de brancos no selecionado da Argentina reflete, em última instância, a limitada presença de negros e afrodescendentes na população argentina. A população negra na Argentina representa apenas 0,7% da população total, de acordo com o Censo de 2022, sendo 2,9% descendentes de povos originários. A França é um país europeu, mas, de acordo com estimativas independentes e de institutos de pesquisa (o Censo francês não qualifica por raça ou cor), teria cerca de 6% de cidadãos de origem africana, proporcionalmente muito mais que a Argentina.

Como o racismo não explica a composição branca da seleção da Argentina, a crítica estereotipada que os brasileiros formaram da Argentina passa a denunciar o racismo originário que criou esta sociedade quase sem negros. A Argentina seria quase branca porque teria dizimado a população negra e descendente de escravos. Esta é uma meia verdade e, no que é certo, está longe de ter sido crime exclusivo dos argentinos. De fato, ao longo do século XIX, o Estado da Argentina promoveu o embranquecimento da população com políticas e medidas em nada diferentes das implementadas no Brasil: utilização dos negros como bucha de canhão nas guerras, especialmente na Guerra do Paraguai, abandono dos descendentes de escravos nas periferias das cidades e, mais significativo, a atração de grande massa de imigrantes brancos da Europa.

O Estado brasileiro não foi menos racista que o argentino, mas o resultado medido pela participação de afrodescendentes e mestiços no total da população dos dois países foi completamente diferente. No Brasil, 10,2% da população se declara preta e 45,3% se declara parda (conceitos do IBGE), sendo, portanto, 53,5% de não brancos (importante lembrar que pardos não são apenas afrodescendentes, incluindo também os descendentes dos povos originários). O que explica o fato de políticas semelhantes terem levado a resultados tão distintos? Primeiro, porque o tráfico de escravos africanos foi muito maior para o Brasil que para a Argentina (vieram mais de quatro milhões para o Brasil e cerca de 200 mil para a Argentina).

O tráfico de escravos africanos foi bem mais significativo na colonização portuguesa (no Brasil) do que representou para os espanhóis no restante do continente americano. Do total de africanos escravizados na América, 38,5% foram explorados pela colônia portuguesa (Brasil), sendo apenas 17,8% distribuídos nas colônias espanholas (incluindo a Argentina). Os espanhóis preferiam escravizar os nativos que se adequavam às características da ocupação econômica das suas colônias na América.

De acordo com o IBGE, mais de quatro milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, vinte vezes mais que o fluxo de escravos levados para a Argentina (cerca de 200 mil). Numa conta aproximada, até porque os censos não cobrem o período anterior, em 1853, quando foi abolida a escravidão na Argentina, os 200 mil africanos que entraram no país ao longo dos séculos representavam 16,6% da população total. No primeiro Censo Demográfico do Brasil, realizado em 1872, o percentual de pessoas classificadas como pretas era de 19,7% e as consideradas pardas representavam 38,3% do total de brasileiros.

A diferença no tamanho do tráfico de africanos decorre, por outro lado, das características da exploração econômica no Brasil e nos outros países da América. No Brasil, além da mineração, também relevante nas colônias espanholas, os escravos negros foram explorados, principalmente, na produção em larga escala das plantations, muito diferente da atividade pecuária que constituiu a base da economia da Argentina.

A Argentina traficou 20 vezes menos escravos negros que o Brasil, mas recebeu uma quantidade de europeus quase tão grande quanto a de brancos que formaram o povo brasileiro. Essa diferença da proporção entre negros e imigrantes europeus explica o grau alcançado no chamado embranquecimento da população nos dois países. Com uma população relativamente pequena de afrodescendentes (e descendentes dos povos originários) – foram trazidos apenas 200 mil africanos –, o fluxo da imigração europeia para a Argentina ao longo dos séculos XIX e XX pode ter chegado a mais de três milhões de pessoas, 15 vezes mais que o tráfico de escravos africanos. Para o Brasil, estima-se que as levas de imigração de europeus alcançaram cerca de 5 milhões, quase o mesmo número de escravos negros trazidos pelo tráfico (mais de quatro milhões). Desta forma, foi a enorme diferença na proporção entre escravos e imigrantes europeus (muitas vezes menor na Argentina) que levou à distinta composição étnico-racial dos dois países.

Nada do que foi exposto acima nega a existência de racismo na Argentina, da mesma forma que não inocenta o Brasil dessa prática desprezível. Mas pode ajudar a compreender melhor as especificidades da formação econômica e social da Argentina e do Brasil, de modo a evitar as generalizações e os estereótipos que deturpam e prejudicam as relações entre as duas nações.

*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014), atualmente é consultor em planejamento estratégico com base em cenários e desenvolvimento regional e local, é sócio da Factta-Consultoria, Estratégia e Competitividade

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