Revista Será?
Os brasileiros têm uma rivalidade histórica
com a Argentina que se expressa de forma intensa no futebol, embora reflita
também a concorrência dos orgulhos nacionais, a empáfia dos brasileiros diante
da soberba dos argentinos, que se acham os europeus da América (mesmo já tendo
perdido a majestade). Durante a Copa do Mundo, o confronto futebolístico ganhou
conotações políticas com a criação e difusão, pelos brasileiros, de um
estereótipo negativo do povo argentino. “Torço contra a Argentina porque os
argentinos são racistas” foi a frase mais comum ouvida ao longo do campeonato
mundial.
Os brasileiros tornaram-se, de repente, zelosos fiscais do racismo alheio, condenando o racismo dos argentinos, como se o preconceito racial tivesse sido erradicado no Brasil. Não faltam testemunhos de manifestações racistas de parte dos argentinos, e não apenas no futebol. Da mesma forma, não se pode ignorar a persistência do racismo no Brasil e em vários outros países, bastando lembrar os atos racistas sofridos por vários jogadores brasileiros nos campeonatos europeus, como Vinicius Junior.
Entretanto, é totalmente insensata a
tentativa de provar o racismo dos argentinos pela ausência de negros na seleção
de futebol, como insinuaram, ou mesmo afirmaram, alguns. A “seleção (da Argentina)
não teve negros, nem mestiços, o que não aconteceu com nenhum país da velha
Europa”, comentou Clemente Rosas em artigo publicado na semana passada nesta
Revista (“Há racismo no Brasil?”), como se tivesse havido um critério racista
na convocação dos jogadores, com o técnico e a FAF – Federação Argentina de
Futebol fazendo uma triagem racial. Os mestiços Maradona, Tevez e Di Maria
estavam nas seleções passadas e, nesta de 2026, ao menos Leandro Paredes tem
ancestralidade indígena.
Não se pode atribuir ao racismo a composição
quase exclusivamente branca da seleção argentina, da mesma forma que o grande
número de negros nas seleções europeias (especialmente na França) não indica a
ausência de racismo nesses países, logo, antigas potências colonialistas, que
exploraram e dizimaram populações negras na África.
A seleção nacional de futebol tende a
refletir a formação social dos países, de modo que o predomínio de brancos no
selecionado da Argentina reflete, em última instância, a limitada presença de
negros e afrodescendentes na população argentina. A população negra na
Argentina representa apenas 0,7% da população total, de acordo com o Censo de
2022, sendo 2,9% descendentes de povos originários. A França é um país europeu,
mas, de acordo com estimativas independentes e de institutos de pesquisa (o
Censo francês não qualifica por raça ou cor), teria cerca de 6% de cidadãos de
origem africana, proporcionalmente muito mais que a Argentina.
Como o racismo não explica a composição
branca da seleção da Argentina, a crítica estereotipada que os brasileiros
formaram da Argentina passa a denunciar o racismo originário que criou esta
sociedade quase sem negros. A Argentina seria quase branca porque teria
dizimado a população negra e descendente de escravos. Esta é uma meia verdade
e, no que é certo, está longe de ter sido crime exclusivo dos argentinos. De
fato, ao longo do século XIX, o Estado da Argentina promoveu o embranquecimento
da população com políticas e medidas em nada diferentes das implementadas no
Brasil: utilização dos negros como bucha de canhão nas guerras, especialmente
na Guerra do Paraguai, abandono dos descendentes de escravos nas periferias das
cidades e, mais significativo, a atração de grande massa de imigrantes brancos
da Europa.
O Estado brasileiro não foi menos racista que
o argentino, mas o resultado medido pela participação de afrodescendentes e
mestiços no total da população dos dois países foi completamente diferente. No
Brasil, 10,2% da população se declara preta e 45,3% se declara parda (conceitos
do IBGE), sendo, portanto, 53,5% de não brancos (importante lembrar que pardos
não são apenas afrodescendentes, incluindo também os descendentes dos povos
originários). O que explica o fato de políticas semelhantes terem levado a
resultados tão distintos? Primeiro, porque o tráfico de escravos africanos foi
muito maior para o Brasil que para a Argentina (vieram mais de quatro milhões
para o Brasil e cerca de 200 mil para a Argentina).
O tráfico de escravos africanos foi bem mais
significativo na colonização portuguesa (no Brasil) do que representou para os
espanhóis no restante do continente americano. Do total de africanos
escravizados na América, 38,5% foram explorados pela colônia portuguesa
(Brasil), sendo apenas 17,8% distribuídos nas colônias espanholas (incluindo a
Argentina). Os espanhóis preferiam escravizar os nativos que se adequavam às
características da ocupação econômica das suas colônias na América.
De acordo com o IBGE, mais de quatro milhões
de africanos foram trazidos para o Brasil, vinte vezes mais que o fluxo de
escravos levados para a Argentina (cerca de 200 mil). Numa conta aproximada,
até porque os censos não cobrem o período anterior, em 1853, quando foi abolida
a escravidão na Argentina, os 200 mil africanos que entraram no país ao longo
dos séculos representavam 16,6% da população total. No primeiro Censo
Demográfico do Brasil, realizado em 1872, o percentual de pessoas classificadas
como pretas era de 19,7% e as consideradas pardas representavam 38,3% do total
de brasileiros.
A diferença no tamanho do tráfico de
africanos decorre, por outro lado, das características da exploração econômica
no Brasil e nos outros países da América. No Brasil, além da mineração, também
relevante nas colônias espanholas, os escravos negros foram explorados,
principalmente, na produção em larga escala das plantations, muito diferente da
atividade pecuária que constituiu a base da economia da Argentina.
A Argentina traficou 20 vezes menos escravos
negros que o Brasil, mas recebeu uma quantidade de europeus quase tão grande
quanto a de brancos que formaram o povo brasileiro. Essa diferença da proporção
entre negros e imigrantes europeus explica o grau alcançado no chamado
embranquecimento da população nos dois países. Com uma população relativamente
pequena de afrodescendentes (e descendentes dos povos originários) – foram
trazidos apenas 200 mil africanos –, o fluxo da imigração europeia para a
Argentina ao longo dos séculos XIX e XX pode ter chegado a mais de três milhões
de pessoas, 15 vezes mais que o tráfico de escravos africanos. Para o Brasil,
estima-se que as levas de imigração de europeus alcançaram cerca de 5 milhões,
quase o mesmo número de escravos negros trazidos pelo tráfico (mais de quatro
milhões). Desta forma, foi a enorme diferença na proporção entre escravos e
imigrantes europeus (muitas vezes menor na Argentina) que levou à distinta
composição étnico-racial dos dois países.
Nada do que foi exposto acima nega a existência de racismo na Argentina, da mesma forma que não inocenta o Brasil dessa prática desprezível. Mas pode ajudar a compreender melhor as especificidades da formação econômica e social da Argentina e do Brasil, de modo a evitar as generalizações e os estereótipos que deturpam e prejudicam as relações entre as duas nações.
*Economista com mestrado em sociologia, foi
jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na
Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014), atualmente é
consultor em planejamento estratégico com base em cenários e desenvolvimento
regional e local, é sócio da Factta-Consultoria, Estratégia e Competitividade

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