O Estado de S. Paulo
De chips a modelos de código aberto, a China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial
A China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial: não somente na fabricação de chips e de outros insumos numa cadeia de produção bilionária, em segmentos dominados por empresas coreanas e taiwanesas, mas também no desenvolvimento de modelos de IA de código aberto a preços bem mais baixos que os cobrados pelos rivais americanos OpenAI e Anthropic. Em julho, a estreia na Bolsa de Valores de Xangai da CXMT, maior fabricante chinesa de chips de memória, cujas ações dispararam quase 500% no primeiro pregão, foi o último empurrão que fez o principal índice acionário da Coreia chegar a cair 40% do seu pico em junho.
Esse impulso – financiado pelo governo – pode
até vir a transformar a estrutura da economia chinesa, passando os gastos com
IA a ser o novo motor do crescimento. Nos cálculos da Capital Economics, no
segundo trimestre deste ano, na comparação com os três meses anteriores, mais
da metade da expansão do PIB chinês veio da fabricação de produtos eletrônicos
e dos serviços de tecnologia da informação e telecomunicações – atividades
ligadas à IA.
Conforme a Capital Economics, o setor de
tecnologia da informação e telecomunicações é agora a principal fonte de
crescimento dos serviços na China, superando, no segundo trimestre, a
contribuição conjunta do comércio varejista, da hotelaria e dos transportes. Ao
fim do primeiro semestre deste ano, o investimento fixo na fabricação de
produtos eletrônicos cresceu 6,5%, com destaque para as novas fábricas de chips
de memória que devem entrar em operação em 2027.
É difícil dizer em quanto tempo a China pode
ultrapassar seus competidores globais de insumos e equipamentos para a
infraestrutura da IA. Em julho, a estatal Aishengna anunciou planos para
começar a fabricação em massa de máquinas de litografia DUV, usadas para gravar
os circuitos nos chips, tecnologia dominada pela holandesa ASML. Não por acaso,
a ação da ASML caiu 8% após o anúncio.
Os chineses também devem acirrar a competição pelos modelos de IA de código aberto. Em julho, a startup Moonshot lançou o seu mais recente modelo de IA (o Kimi K3) a um custo quase três vezes mais baixo, nos cálculos de alguns analistas, do que os modelos da OpenAI e da Anthropic. A dúvida é se os modelos chineses vão dominar o mundo, oferecendo preços menores e atendendo às necessidades básicas de empresas e indivíduos. Por ora, o mercado doméstico já é gigante: em dezembro de 2025, havia 602 milhões de usuários de IA generativa na China, equivalente a 43% da população conectada.

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